A noção do cuidado emergiu e amadureceu nas últimas décadas
do século xx e primeiras do século
xxi. Mas, com a chegada da pandemia
da Covid-19, no início de 2020, ela ganha maior relevância devido ao confinamento,
distância de segurança e à quarentena. Na medida em que fomos forçados a uma
convivência próxima e prolongada, 24 horas por dia, os relacionamentos
interpessoais sofreram ou revelaram certa ambiguidade.
De um lado e em não poucos casos,
assistimos ao crescimento da violência familiar,
em que as mulheres e crianças são as principais vítimas.
Prova disso foi o aumento nada desprezível do número de feminicídios.
De outro lado, entretanto, verificamos igualmente um surpreendente
desenvolvimento do grande potencial de amor, carinho, ternura e solidariedade
que cada pessoa carrega dentro de si.
Duas noções essenciais ao cuidado
O cuidado consiste
«num processo vivo, ativo e dinâmico. Uma dimensão que
costuma crescer tanto de uma forma exponencial, quanto no sentido de uma
espiral, isto é, em círculos cada vez mais amplos a partir de um núcleo
central. Os seus raios multiplicam-se e espalham-se, abrangendo um diâmetro
sempre maior da atividade em jogo.»
O cuidado requer
«uma linguagem única e singular. Mais do que as palavras,
entram em cena o olhar, o sorriso, o gesto, o toque, a carícia, o abraço, a
postura. O corpo tende a falar mais alto do que a mente, o coração mais do que
a razão.»
Damo-nos conta de que, justamente por causa das implicações
da pandemia, este é o tempo subtil das delicadezas, dos detalhes e das atenções
personalizadas – enfim, do cuidado.
Os quatro círculos ou dimensões do cuidado
1. O “eu”: altruísmo contra egoísmo
Em maior ou menor grau, somos todos seres ego-centrados. O nosso
umbigo tende a ser o centro não apenas deste primeiro círculo, mas também de
toda sociedade e universo. Isso não significa, necessariamente, uma coisa
negativa. Cada pessoa, com efeito, deve cuidar da própria saúde:
alimentação adequada,
exercício físico,
tempo necessário de sono e repouso
uma certa disciplina
são fatores essenciais para o bem-estar físico, mental,
emocional, psíquico e espiritual.
Sem tais cuidados, pouco ou nada poderemos fazer em prol dos
demais. Se não nos cuidamos como seres frágeis e débeis, seremos para os
outros, não uma solução de que tanto necessitam, e sim um peso a mais em seus
ombros.
O «eu» de cada organismo – vegetal, animal ou humano – exige
cuidados particularizados.
Ao incorporar novos ingredientes e rejeitar resíduos
necrosados e nocivos, o organismo nasce, cresce e se desenvolve
permanentemente. Nessa tarefa contínua, desenvolve igualmente um metabolismo de
depuração e purificação que ajuda no combate ao que lhe é estranho e hostil. É
o que fazem, por exemplo, os anticorpos produzidos pela imunização da vacina.
A verdadeira harmonia, nas suas diversas e múltiplas
facetas, é a forma que o organismo necessita para um desenvolvimento orgânico e
saudável.
Porém, a nossa condição humana, por si só, predispõe-nos
para um tipo de egoísmo infantil e doentio: o egocentrismo.
Como superar esse estágio?
À medida que amadurecemos, tendemos a deixar de lado os
desejos imperativos e imediatistas da criança, e passamos a olhar ao nosso
redor. Então, sim, o cuidado consigo mesmo passa a ser uma conditio sine qua
non para uma crescente preocupação com tudo aquilo que nos rodeia: o
ambiente e o contexto em que vivemos e nos movemos. Ocorre, desse modo, uma
passagem precisa e fundamental do egoísmo infantil ao altruísmo da maturidade. O
eu deixa a inércia e o conforto do próprio ovo ou berço, numa aventura que
envolve, simultaneamente, descobertas e compromissos.
2. O outro: família ou comunidade
O segundo círculo da nossa espiral refere-se ao grupo mais
restrito com quem convivemos e/ou trabalhamos quotidianamente debaixo do mesmo
teto. Neste caso, estamos diante do ambiente de família, de comunidade ou de
amizade:
Laços íntimos e primários marcam as atividades diárias.
O ambiente tende a ser aquecido pela chama do calor humano.
A linguagem dos “inhos” ou de outras espécies de proximidade
é expressa e conhecida de todos.
O convívio permanente e obrigatório pode bifurcar-se em duas
direções opostas:
A primeira tende a revelar aquilo que há de pior na condição
humana: ódio e agressividade; raiva, rancor e inveja; vícios e violência, que
chegam a estágios patológicos. Como a violência doméstica. Ruídos, atritos,
dificuldade de comunicação e silêncios envenenados tornam o ar pesado e
irrespirável. Em não poucos casos, é preciso deixar a casa para encontrar
verdadeiros amigos e companheiros.
A segunda via, porém, descortina um potencial imenso de
sentimentos e emoções que fazem crescer tudo que está em volta. Neste caso, a
tendência é revelar-se o que há de melhor no mais íntimo da condição humana: prática
frequente do diálogo, redescoberta do amor, do carinho, da ternura e do cuidado
recíproco.
3. Sociedades, culturas e os direitos humanos
O terceiro círculo envolve a rua, o bairro, a cidade, o país
e o mundo em que vivemos. Envolve também as diferenças entre povos, culturas,
línguas, credos, costumes, expressões religiosas, e valores.
O contexto em que hoje nos movemos, seja a nível local ou
internacional
torna-se cada vez mais multiétnico e pluricultural.
Exige atenção e escuta aprimoradas.
As sociedades modernas e pós-modernas, além de
predominantemente urbanizadas, rumorosas e apressadas, não possuem ouvidos. Daí
a importância da escuta. Não qualquer tipo de escuta, mas aquela que além de
procurar ouvir o estranho e o diferente, tenta colocar-se no lugar do outro, ver
o mundo através de seu olhar.
Remete para os direitos e a dignidade de cada pessoa humana, como relembra a Doutrina Social da Igreja (DSI). Segundo esta, no coração de cada ser humano e no coração de cada cultura existem sementes do verbo de Deus. Partindo desse pressuposto, o migrante ao colocar-se em marcha, carrega consigo tais sementes. Torna-se profeta e protagonista de um amanhã recriado. Da mesma forma que o voo das aves fecunda as plantas para que produzam folhas, flores e frutos, o voo dos migrantes fecunda a cultura de outros povos, enriquecendo-a e enriquecendo-se a si mesmo com novos valores. Pôr-se a caminho, com a cara e a coragem, é fazer marchar a própria história da humanidade.
Na linha do que nos tem transmitido com insistência o Papa Francisco,
o desafio está em passar da globalização da indiferença para a cultura do
encontro, do acolhimento, da abertura, do diálogo e da solidariedade. Um passo
da multi-culturalidade à inter-culturalidade. Ou seja, não basta uma convivência pacífica com o “outro, o
estrangeiro ou diferente”. É preciso superar esse estágio e ir além.
Trata-se de estimular o intercâmbio de saberes, o confronto
de ideias, o crescimento e enriquecimento recíprocos.
Somente um encontro dessa natureza, embora permeado de
tensões e conflitos, será capaz de depurar e purificar continuamente a cultura
e os valores de toda e qualquer visão de mundo.
Aqui também entram os direitos civis básicos, tais como
educação, saúde, moradia, segurança alimentar, transporte, lazer, entre tantas
outras coisas.
4. A terra: nossa casa comum
Hoje em dia, o tema do cuidado e da preservação do meio
ambiente ganhou maior divulgação e familiaridade. Isso deve-se, por um lado,
aos esforços perseverantes dos movimentos ecológicos em todo mundo e, por
outro, aos frequentes e insistentes alertas dos cientistas sobre os riscos da
devastação e destruição dos ecossistemas.
A população vai-se dando conta de que ela afeta a todos e a
cada um em particular. Cada espécie da fauna ou da flora que se extingue no
planeta empobrece a qualidade da própria vida humana. Percebemos cada vez mais
que todas as coisas, pessoas, relações e sistemas estão de tal forma
interligados e entrelaçados que qualquer dano na Natureza e no meio ambiente
mexe como todas as formas de vida, ou seja, com a biodiversidade.
A consciência de um uso correto dos bens que o Criador
colocou à disposição de todos cresce de forma positiva. Evidente que, neste caso,
as responsabilidades são distintas e diferenciadas: é bem modesta a incidência
das pessoas, famílias e organizações em geral, diante da gigantesca responsabilidade
dos governos, empresas e dos representativos organismos internacionais.
Desde um ponto de vista religioso, e mais particularmente da
tradição judaico-cristã, convém olhar com mais atenção a aliança que Deus
estabelece com o Povo de Israel, através do patriarca Noé. “Deus disse: ‘este é
o sinal da aliança que coloco entre mim e vocês e todos os seres vivos que
estão com vocês, para todas as gerações futuras’” (Gn 9, 8-17).
Simbolizada pelo arco-íris, a aliança sublinha duas dimensões
indissociáveis:
primeiro, a preocupação “com tudo o que vive sobre a face da
terra”,
segundo o cuidado com “as gerações futuras”.
Em vista desse plano, atenta contra a vida quem polui, contamina
e devasta as águas (mar, rios, lagos e geleiras), o ar, as florestas e os diversos
ecossistemas.
Conclusão
Como é fácil compreender, os quatro círculos dos itens acima
representam não gavetas fechadas e incomunicáveis entre si, mas dimensões
interligadas, complementares e indissociáveis. Isto é, a expansão em espiral de
qualquer um deles implica a ampliação simultânea dos demais.
Alfredo J. Gonçalves, scalabriniano,
vice-presidente do
Serviço Pastoral dos Migrantes – SPM, Brasil

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