O Evangelho da Liberdade - reflexão para a sociedade atual por Ademir Guedes Azevedo, missionário passionista


A vida cristã necessita de um novo Pentecostes. Deve passar por um processo de conversão para reconciliar-se com o essencial da sua fé.
 
Para isso, terá de confrontar-se com uma tradição fortíssima que se consolidou ao longo dos séculos. Desde que fez pacto com Constantino, mesmo pensando que estava a crescer e a ficar frondosa porque ocupou os mais diversos territórios e fronteiras, não desconfiava que caminhava para o seu declínio e falta de credibilidade. Aos poucos foi esquecendo-se do que possuía de mais genuíno: o Evangelho da Liberdade.
 
Só o Evangelho da Liberdade será a bússola para mergulharmos no movimento do Espírito e na Tradição de Jesus.
 
A nova era do Evangelho emergirá de modo fantástico quando os escravos se derem conta que são chamados à liberdade. E nós somos estes escravos.
 
Pensávamos que seríamos livres com a política,
mas essa corrompeu-se e não levou a cabo os nossos sonhos.
 
Acreditávamos que a tecnologia nos daria asas de águia,
mas essa roubou o nosso livre-arbítrio com os seus ritos que seguimos piedosamente, dia após dia, e não sabemos mais como sair desse labirinto.
 
O mais assustador é que nos tornamos escravos de nós mesmos: das contínuas exigências que nos impomos com a ideia de que devemos produzir. Já não conseguimos parar e estamos cansados de nós mesmos. Ao final do dia, o homem pós-moderno atormenta-se com os seus próprios pensamentos de desempenho e, quando se dá conta que o vizinho logrou êxito primeiro do que ele, então entra em depressão e pânico, sentindo-se um fracassado.
 
Aquelas velhas respostas religiosas da grande tradição parecem não serem já suficientes para darem conta do problema da vida do homem de hoje. São eruditas, metafisicamente e logicamente bem articuladas, mas quem as entenderá?

Na encantadora obra Vocação para a liberdade, José Comblin defende que o Evangelho da Liberdade, ou seja, toda a vida de Jesus, é a única luz que poderá iluminar-nos nesta jornada. Temos de entender como Jesus o viveu e, para ilustrar isso, Comblin parte de uma premissa fundamental: «Os atos de Jesus não eram políticos, mas sim messiânicos.» Aquele jovem galileu não pensou a sua vida a partir da política do seu tempo. Não se valeu do poder.
 
O que significa então dizer que os atos de Jesus não eram políticos, mas sim messiânicos? Jesus não almejou outra coisa senão ser livre. E a sua liberdade estava no serviço ao próximo. Ele abriu o seu coração ao grito dos aprisionados: doentes, endemoninhados, rejeitados, leprosos. E ele empenhou toda a sua vida nisso, pelo que nem mesmo os preceitos da lei conseguiam barrar essa sua paixão. Ele foi tão intenso que, nos seus três anos de ministério, se entregou à vida e a vida o levou à morte tão depressa que nem sequer teve tempo para pensar.
 
Sendo livre em ajudá-los e amá-los, pois não conseguia pensar noutra coisa, entrou em conflito com as autoridades. Onde a lei colocava um limite, ele era ousado em transgredi-la em nome da vida. A sua liberdade foi até onde o amor podia ir. A sua liberdade não vencia um poder e inaugurava outro, pelo contrário, subvertia o poder e instalava a compaixão. Jesus não anunciava uma doutrina metafísica forte em seus lábios, como fazem as grandes tradições religiosas. Ele era dócil e acolhedor. A sua razão cordial não feria ninguém, mas oferecia aconchego e esperança a todas as pessoas cuja condição dava testemunho do estado de escravo.
 
Jesus, liberdade e libertação, lançou um apelo para que cada um se converta e mergulhe no Evangelho da Liberdade. Ele chamou os discípulos a serem livres e tal liberdade só se alcança se, diante do sofrimento dos escravos, nós nos sentimos atraídos para ajudá-los e amá-los. Jesus quis exatamente isso: cada um deve ser autónomo na compaixão que não deixa ninguém passar despercebido.
 
O sacerdote e o levita da parábola do Bom Samaritano não eram livres, deixaram-se conduzir pelas leis da religião. Mas o samaritano, esse sim, entendeu o Evangelho da Liberdade, pois era atraído pelo sofrimento dos escravos.
 
O Evangelho da Liberdade abre as novas veredas por onde a vida cristã deverá percorrer, se ainda almeja ser uma mensagem relevante para o mundo de hoje.
 
Presbítero Ademir Guedes Azevedo, missionário passionista,

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