O desencanto atual de um perfil de cristãos: muitos sentiram que a Igreja não soube ler, interpretar e discernir a presença necessária na hora do sofrimento
No final de 1967, logo após o concílio, um jesuíta, François Roustang, publicou um artigo que incendiou leitores e revista, causando a sua demissão como diretor da Études. O artigo, republicado cinquenta anos depois por Odile Jacob, intitulava-se Le troisième homme e delineava três figuras emergentes do Concílio: um católico conservador e reticente; um cristão conquistado pela reforma conciliar, e um "terceiro homem" inédito e inesperado, um simples cristão, discípulo de Jesus convicto, claro, capaz de ser sujeito adulto na Igreja, mas sem querer ser gregário ou militante eclesial.
Hoje, depois de tantas mudanças sociais, culturais e eclesiais, podemos delinear com maior precisão o retrato desses católicos e avaliar a sua situação.
O "primeiro homem", ou seja, o católico ligado à tradição, chegou à ruptura do cisma com a fação ligada ao bispo Lefebvre. Mas, com parcela não desprezível, continua presente e eloquente também dentro da Igreja. Porção que, aliás, certamente cresceu, tendo obtido uma legitimidade quanto à conservação do rito litúrgico pré-conciliar na celebração eucarística e de todos os sacramentos. Sobretudo depois do Motu proprio Summorum pontificum, de Bento XVI em 2007, essa porção eclesial foi atestada e ampliada, que inclui mosteiros fervorosos e férteis nas vocações, e pode contar com um número considerável de ordenações presbiterais (cerca de cinquenta por ano).
Este católico conservador e tradicionalista hoje teme a limitação implementada pelo Papa Francisco à liberdade sancionada por Bento XVI. Mas, em qualquer caso, certamente não mostra sinais de próxima extinção. Mantém uma forte convicção e resiste a qualquer tentativa de "atualização" ou renovação não só da liturgia, mas também da pastoral, invocando o princípio enunciado por Bento XVI em um discurso aos bispos franceses: "Na Igreja há lugar para todos!"
Quanto ao "segundo homem", o católico convicto da graça do Concílio e da reforma iniciada com Paulo VI, é preciso dizer que pertence a uma geração que em parte desapareceu por razões de idade: permanecem apenas aqueles que, na temporada conciliar, eram "jovens".
O 'terceiro homem', hoje, estão muito apagados, não são mais os protagonistas ativos das comunidades pós-conciliares. E a sua voz na Igreja é pouco perceptível e, além disso, diferenciada. Alguns — poucos na verdade — ainda são capazes de contestação e de manifestar insatisfação diante de factos e palavras que não aderem ao espírito do Vaticano II. Mas a maioria dos demais chega a definir-se "rebanho perdido", queixa-se da hierarquia. E como posicionamento situa-se nos movimentos cada vez mais em diminuição, acima de tudo propulsivo.
É deles que nasce o "quarto homem", um católico inédito, mas hoje emergente e que ocupa o lugar também mantido pelo "terceiro homem", em relação ao qual não está em contraposição, mas nem mesmo em continuidade: é um sujeito que testemunha um drama! Porque o “quarto homem” é, antes de tudo, um cristão desencantado. Viveu a graça de um Concílio sem anátemas e sem dogmas; um Concílio que mostrou uma Igreja que começava a pôr-se à escuta do mundo. Cheio de entusiasmo e esperança, participou ativamente do grande canteiro de obras eclesiais; viu e fez discernimento de contestações e protestos que pediam um retorno ao Evangelho; dialogou, com dificuldade, com o mundo derrubando muros e bastiões...
Mas, cinquenta anos depois, este "quarto homem" sente-se cansado, conhece o desencanto e vê um refluxo inexorável das formas de Igreja que podiam ser reformadas. E, portanto, ser renovadas. É o homem que entende hoje, só hoje, o que escrevia Hans Urs von Balthasar: “Na história da Igreja os invernos são longos, o verão nunca chega, mas chegará no final, e as geadas repentinas se abatem sobre as raras primaveras.”
O desencanto atual do “quarto homem” após o Vaticano II
Assim,
- os velhos "demónios" da instituição retomam os seus direitos;
- os novos movimentos reassumem formas de tradicionalismo;
- o caminho ecuménico torna-se cada vez mais gentil, mas sempre menos eficaz;
- o aprofundamento da palavra de Deus dá lugar ao sagrado das aparições, das curas;
- a espiritualidade alimenta-se de psicologismo amador;
- a moral da liberdade cristã torna-se rígida e justicialista.
E, então, o desencanto ataca e envenena o "quarto homem". Ele não rejeita a Igreja e a Igreja não o rejeita, mas caminha no crepúsculo do anoitecer e muitas vezes conhece a noite. Mantém um vivo amor e um forte vínculo com Jesus Cristo, seu único Senhor, mas Deus é para ele uma palavra ainda demasiado confusa com religião. Um Deus não confessado como encarnado, mas invocado demais como antropomórfico. E a Igreja é para ele um mistério que sobrevive à Igreja instituição, pela qual não sente nenhuma atração. E também não lhe presta atenção. Sim, a relação com a Igreja instituição marca a dificuldade, o sofrimento até na vida espiritual desse católico.
Já ouvi várias vezes vozes que se queixam sem raiva, sem espírito de contestação. O que dizem? Em primeiro lugar, denunciam uma distância entre pastores e fiéis.
Não acusam os pastores de preguiça, de não fazer nada pela evangelização e pela caridade, mas não sentem uma responsabilidade partilhada, a vontade de caminhar juntos como paróquia. E, acima de tudo, sofrem com a falta de interpretação do presente. E não suportam mais a cansativa repetição de slogans eclesiais que já se tornaram inconsistentes.
Hoje, não vemos o mesmo número de fiéis na igreja aos domingos. E não é tanto uma questão de números! É uma questão de acompanhamento dos pastores do seu rebanho em todas as situações da vida. E de corresponsabilidade do rebanho com os pastores. Assim, muitos sentiram que a Igreja não soube ler, interpretar e discernir a presença necessária na hora do sofrimento. Em todas as igrejas faltam palavras evangélicas de fé. E muitos entenderam que os discursos eloquentes apenas sobre a situação social já não são suficientes.
A profecia deste "quarto homem"
Há, porém, uma expectativa de profecia neste "quarto homem", um desejo de encontrar espaços onde acreditar em Jesus Cristo, o Senhor Vivente para sempre.
Associações de católicos propõem e convidam a "procurar as Igrejas fora da Igreja"; convidam a colocar um pé fora do recinto e olhar para terras que não se consideravam frutuosas. Mas, enquanto isso, esse "quarto homem" como crente espera caminhar na companhia de outros, na luz crepuscular. E poder partir o pão na mesa da amizade onde a Vida está presente. A sua fé será uma fé noturna, nua, atravessada por dúvidas, pontuada por perguntas, mas uma fé humana como aquela de Jesus de Nazaré. E noturna, nua, modesta não significa fraca ou evanescente. Muitos crentes hoje reconhecem-se nesse "quarto homem". E a sua condição certamente não é fácil, porque não é objeto de atenção do cuidado pastoral. Estão fora do rebanho? Não precisam ter medo, porque o Pastor preocupa--se mais com as ovelhas fora do aprisco, as perdidas, do que com aquelas que dormem no aprisco.
Enzo Bianchi, em Vita Pastorale. Traduzido por Unisinos
Foto: www.cathopic.com

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