O venerável presbítero Bernhard Haering, alemão, autor de Teologia Moral, clérigo da Ordem Redentorista, num de
seus livros Perché non fare diversamente (Por que não fazer de outro
modo, em tradução livre, Queriniana: Brescia, 1993, pp. 79-86) escreveu uma
carta pastoral para o início do ministério de um imaginário Papa João XXIV à
Igreja no início do segundo milénio da era cristã.
Esta carta foi lembrada quando o Papa Francisco recebeu o bispo
de Ragusa, Giuseppe La Placa, numa audiência privada a 23 de setembro passado.
Em resposta a um convite de Giuseppe La Placa para visitar a diocese em 2025, por
ocasião dos 75 anos da sua fundação, Francisco respondeu: «Será João XXIV que
fará essa visita.» O relato está em Ragusanews e na agência Ansa.
Assim, ganhou novo significado a carta de Bernhard Haering,
cujo texto foi reproduzido por Il sismógrafo.
A tradução é de Luisa Rabolini.
Amados irmãos e irmãs!
Na sua peregrinação, a cristandade hoje entra no terceiro
milénio. Ela encontra-se diante de problemas grandes e candentes. Mas depositamos
a nossa esperança no Senhor da história e abrimo-nos com humildade ao seu
Espírito Santo.
O que pode ser mais importante para nós, neste dia, do que a
instância fundamental expressa pelo nosso Fundador humano e divino, antes da
sua partida, «Para que todos sejam um só»?
Com João XXIII e com o Concílio que ele convocou, em que
toda a terra era representada pela primeira vez, despontou uma luminosa
alvorada. A Igreja Católica entrou na era do ecumenismo. Paulo VI, seu
venerável sucessor, continuou a sua obra com tenacidade. Ele também teve a
coragem de expressar, perante o concílio ecuménico das igrejas, o seu temor de
que o papado, na sua forma histórica, pudesse tornar-se um grande obstáculo no
caminho para a reunificação da cristandade. Seu amável sucessor, João Paulo I,
afirmou com clareza profética que a colegialidade entre os bispos e o papa
constitui a prova e o selo da catolicidade. E ele também havia corajosamente
refletido sobre o que isso deveria significar, por exemplo, para o ofício do
exercício petrino.
Nesse ínterim, muitas coisas aconteceram e muitas
oportunidades foram perdidas. Agora chegou a hora de dar passos decisivos
imediatamente. O passo mais importante consiste, primeiramente, numa revisão
humilde e corajosa da história do papado. Em segundo lugar, devemos dar sinais
claros de que sabemos aprender com a história e que queremos deixar-nos
iluminar pela Palavra de Deus. Reflitamos sobre o ofício petrino, tal como foi
delineado por Jesus e se expresso na mais antiga tradição.
O segundo milénio é a era das tristes divisões da Igreja.
Uma das causas foi a participação dos bispos, em particular dos bispos de Roma,
nas lutas mundanas pelo poder, bem como nas ideias demasiado mundanas sobre o
exercício da autoridade eclesial e do poder. Isso causou uma cegueira
incompreensível. Com consternação, pensamos na tortura, nas fogueiras de
hereges e bruxas. Os métodos da Inquisição impediram o diálogo saudável e
franco na busca de maior luz nas questões doutrinais, morais e de disciplina
eclesiástica.
Apesar de tudo, Deus continuou a dar à Igreja romana também
bons bispos. Mas a sua santidade e sabedoria não conseguiram impor-se de modo
suficiente no seio de estruturas fossilizadas. As igrejas defenderam-se e
defenderam a sua doutrina e práxis com uma espécie de mentalidade de fortaleza
sitiada. Cada parte, e em particular os papas, reivindicou uma espécie de monopólio
sobre a posse da verdade. E assim se deixou em grande parte de buscar juntos.
Mas louvemos a Deus, que continuou a deixar o seu Espírito respirar em todas as
partes da cristandade, que permitiu realizar tantos passos no caminho de uma
reconsideração ecuménica e que fortaleceu o espírito do diálogo e de escuta
mútua.
Hoje, porém, voltamos o olhar para o futuro, embora com
plena consciência do passado que ainda deve ser superado. Limito-me a mencionar
os pontos mais importantes do programa imediato:
1. Visto que o trono, a coroa e os títulos pomposos são
sintomas patológicos, proíbo veementemente chamar os bispos de Roma com títulos
antievangélicos como "Sua Santidade", "Santo Padre"; assim,
de facto, Jesus chama a Deus, o único santo, antes de sua partida. Temos
vergonha de que o papa tenha permitido aos seus cortesãos chamá-lo de
Sanctissimus e Beatissimus. Não haverá mais "prelados domésticos de Sua
Santidade", nem "purpurados". Nem no Vaticano se falará mais em
Eminências, Excelências e coisas assim. Porque o ponto de encontro com Deus,
que em Jesus se revelou como humildade, é a consciência do nosso nada.
2. Assumiremos, o mais rápido possível, os resultados
surpreendentes dos diálogos bilaterais e multilaterais e os levaremos ao objetivo
almejado. Símbolo disso será o facto de o "Secretariado para a Unidade dos
Cristãos" se tornar a partir de agora uma das principais autoridades e
será transformado na Congregação para a união dos cristãos. Quanto à receção
dos resultados, não será mais competente a Congregação para a Doutrina da Fé.
Sob a orientação da Congregação acima mencionada para a união dos cristãos,
serão estabelecidas estruturas correspondentes, que garantirão que todo o povo
de Deus, em particular os bispos, as conferências episcopais e as faculdades
teológicas, intervenham ativamente nesse importante processo.
3. O papa está vinculado a estruturas específicas que
expressam e promovem a colegialidade. Isso significa, entre outras coisas, que
o sínodo dos bispos, que se reúne em intervalos regulares, desempenhará mais do
que uma função consultiva. O papa acolherá as suas conclusões e como norma as
aprovará. Os pontos polémicos serão esclarecidos com diálogo paciente e franco.
4. Quanto à escolha e confirmação dos bispos de todo o
mundo, voltemos decididamente à práxis do primeiro milénio. A esse respeito,
certamente podemos aprender muito com a práxis ininterrupta das igrejas
ortodoxas e com as igrejas nascidas da Reforma Protestante, nossas irmãs. O
bispo de Roma, em correspondência com sua função ecuménica, será eleito pelos
seus representantes das conferências episcopais, de acordo com modalidades a
serem estabelecidas pelo próximo sínodo dos bispos. Assim que possível, um
sínodo de bispos terá que proceder à reforma do chamado corpo diplomático. Até
mesmo o simples nome já é inaceitável, porque lembra demais estruturas do poder
estatal.
5. Uma interpretação precisa dos documentos dos Concílios
Vaticano I e Vaticano II à luz da palavra de Deus e da tradição demonstrou suficientemente
que o exercício da autoridade magisterial suprema do bispo de Roma está
completamente inserido no todo da Igreja. Ele não é, por assim dizer, um
professor que fala de cima e de fora, mas está inserido de maneira particular
no processo de aprendizagem com as suas dimensões e os seus órgãos ecuménicos.
A sua tarefa é confirmar, pelo exemplo e pela forma de exercer a sua
autoridade, a fé do Servo de Deus e Filho do homem humilde e não violento
acreditado pelo Pai e assim contribuir para expressar a fé de toda a Igreja.
Ele faz parte tanto da igreja discente e que escuta quanto da igreja docente;
com todos os outros deve estender o ouvido principalmente para a palavra de
Deus, observar e tentar decifrar os sinais dos tempos.
Deve reconhecer o que realmente se acredita na igreja em
virtude da liberdade do senso da fé e da consciência. Deve estar atento à receção
ou à eventual não receção das encíclicas e das cartas pastorais. O bispo de
Roma não pode cumprir essa tarefa com fecundidade e confiança, em colaboração
com os seus coirmãos no episcopado, se realmente não houver lugar em toda a
Igreja para um diálogo sincero. Certo do consenso dos meus coirmãos no
episcopado, revogo, portanto, as disposições do direito canónico (CIC c. 1371,
1), segundo as quais qualquer manifestação de dissenso em relação às doutrinas
não infalíveis do papa é um delito. Além dos nossos votos batismais e da
profissão comum de nossa fé, não haverá de agora em diante nenhum juramento de
fidelidade ao papa. «Seja, porém, o vosso falar: Sim, sim; Não, não; porque o
que passa disto é de procedência maligna» (Mt 5, 37).
6. As questões candentes agora emergentes, como a do papel
das mulheres na igreja e da sua eventual ordenação presbiteral, não serão mais
tabu de agora em diante. Devem ser esclarecidos no diálogo intraeclesial e com
a disponibilidade ecuménica de aprender, até que estejam maduros para serem
resolvidos. Resoluções que o papa não tomará sozinho, mas em plena
colegialidade.
7. A igreja deve ser a luz do mundo e o sal da terra. Deve e
quer tornar-se uma espécie de sacramento da salvação, do cuidado, da paz e da
justiça universal. É por isso que percorremos o nosso caminho com profunda e
sincera solidariedade com toda a família da humanidade, com todos os povos e
todas as culturas, e também com as grandes religiões mundiais do Oriente.
Em união com todos, pretendemos aprender, zelar, rezar e
trabalhar pela solução dos problemas mais candentes, também a nós confiados
pelo Evangelho como a paz e o trabalhar pela paz no espírito da não violência
evangélica e do amor reconciliador, a justiça e a conservação da criação
confiada aos homens.
Recomendo a mim mesmo e meu serviço na igreja às vossas
orações, assim como vos recomendo à graça e ao amor de Deus nosso Pai e de
nosso Senhor Jesus Cristo.
Carta pastoral de João XXIV
no início do novo milénio
João XXIV
Foto: Nachorh - Cathopic

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