O presbiterado celibatário e casado nas Igrejas Orientais

O cardeal patriarca Louis Sako, patriarca católico iraquiano, que, desde 31 de janeiro de 2013, é patriarca da Babilónia dos Caldeus, relata a
Settimana News a sua experiência com padres celibatários e casados. A Igreja deve estar atenta às mudanças culturais.
 
A pedido do meu amigo dom Francesco Strazzari, gostaria de oferecer uma pequena contribuição prática sobre a práxis do presbiterado celibatário e casado nas Igrejas Orientais católicas e ortodoxas.
 
O presbiterato celibatário e casado é uma prática antiga no Oriente. Nas Igrejas orientais coexistem os dois modelos: padres celibatários e padres casados. Os padres casados se encontram nas Igrejas católicas orientais: maronita, melquita, síria, armênia e copta.
 
Às vezes, o padre casado resulta superior no seu testemunho, no amor, na honestidade e na humildade… Pessoalmente, ordenei dez padres casados, são muito bons e tenho orgulho deles. Esses padres, antes da ordenação, frequentaram os estudos e têm uma sólida formação humana, teológica  e pastoral.
 
Pessoalmente, pergunto aos seminaristas o que eles querem ser: um presbítero celibatário ou casado e, juntos, fazemos um discernimento e tomamos uma decisão.
 
O matrimónio deve ser celebrado antes da ordenação sacerdotal. No rito de ordenação, peço o consenso da esposa, se pretende ajudar o marido no seu serviço.
 
Apenas os párocos são casados, os bispos não!
 
No Oriente, os párocos das igrejas ortodoxas não são monges em geral, são pessoas casadas. Vivem nas paróquias para servir os fiéis, seguem a sua formação para a fé para vivê-la nos detalhes da vida quotidiana, do serviço litúrgico e do serviço de caridade.
 
Os monges (religiosos) vivem no seu mosteiro, seguem a regra da sua ordem e são chamados pelo seu nome: franciscanos, dominicanos, jesuítas …
 
Os monges fazem voto de viver na pobreza, obediência e castidade (não se casar) e viver uma vida comunitária, ao contrário dos párocos que vivem sozinhos ou com outros sacerdotes e isso é um grande apoio para superar a solidão.
 
O futuro?
Dia após dia, descubro que o mundo mudou. As redes sociais e a pandemia do coronavírus impuseram à humanidade uma nova realidade diferente da atual:
uma nova visão,
um novo pensamento,
uma nova lógica,
uma nova sensibilidade …
 
A Igreja que, por natureza, deve renascer,
é chamada a responder às perguntas dos fiéis e às suas necessidades com honestidade, clareza e respeito,
para que as respostas sejam apropriadas para dar o sentido da fé e da vida eclesial,
ao invés de fornecer “velhas respostas prontas” que não correspondem às aspirações das pessoas.
 
O vocabulário e as práticas teológicas atuais datam de mais de mil anos. Às vezes, não correspondem à cultura, à sensibilidade e à realidade do nosso tempo.
É necessária uma abertura mental e uma leitura profunda da história e dos desafios pastorais de hoje.
 
O conceito de família e de sociedade na visão ocidental parece ser afetado pelo individualismo, consumismo e agnosticismo!
Sem falar na crise das vocações.
 
A prática do presbiterato celibatário e casado é uma disciplina da Igreja, uma tradição e não uma doutrina …
Nos primeiros séculos não era assim. Isso aconteceu com o surgimento de ordens religiosas (monges) e de sua influência. Vemos isso na liturgia. A liturgia celebrada na catedral é revogada em favor da longa liturgia monástica. Somente o Concílio Vaticano II fez algumas reformas!
 
Nas igrejas ortodoxas, os párocos são em sua maioria casados, enquanto os monges vivem uma vida de comunhão em suas comunidades: em comum, embora vivida de maneira diferente, a atmosfera de vida familiar (e não a pura observância da regra).
 
A Igreja, que é comunhão, participação e missão, tem o compromisso de procurar encarnar essa imagem de vida familiar na cultura de hoje.
 
É necessário focar muito na formação dos candidatos ao sacerdócio: uma formação humana, psicológica, teológica, espiritual e pastoral.
 
Porque não aprender com a tradição oriental?
Porquê a escolha exclusiva do celibato na Igreja Ocidental?
Em vez disso, é necessário dialogar com os seminaristas, avaliando os seus desejos e os seus temores, por meio de um exame aprofundado no estilo do discernimento.
 
Fonte: Unisinos

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