A partir do rico magistério do Papa Francisco, é possível
traçar o retrato do presbítero ideal que também nós, fiéis cristãos leigos,
gostaríamos de ver nas nossas comunidades.
Dos discursos, homilias, cartas e mensagens de Francisco,
que direta ou indiretamente têm por objeto a missão do presbítero, emerge um
mosaico decididamente rico, pedaço por pedaço, que, em vez de se deter em
definições simples e áridas de tipo doutrinal e sistemático, denota a intenção
de oferecer o retrato do presbítero ideal da Igreja de hoje, mantendo em
estreita correlação a substância e a forma, o conteúdo e a vivência.
Pelo menos sete peças podem ser destacadas desse mosaico:
Homem misericordioso e compassivo
Como “homem misericordioso e compassivo“[1], o presbítero “caminha
com o coração e o passo dos pobres …, torna-se rico com a sua convivência“[2] e
se deixa “marcar pelo grito de quem sofre”.[3] Ele parte do reconhecimento de
que os marginalizados, pobres e sem esperança “foram eleitos a sacramento de
Cristo“[4] e “são a carne de Cristo”.[5]
Todo cristão – portanto, “também os pastores“[6] – e toda
comunidade são chamados a ser “instrumentos de Deus ao serviço da libertação e
promoção dos pobres, para que possam se integrar plenamente na sociedade”,[7] abrindo
espaço para eles na Igreja, mesmo quando a enchem de insultos.[8]
“O rosto mais belo de um país e de uma cidade é o dos
discípulos do Senhor – bispos, sacerdotes, religiosos, fiéis leigos – que vivem
com simplicidade na vida quotidiana o estilo do Bom Samaritano e se fazem
próximos da carne e das chagas dos irmãos, em quem reconhecem a carne e as
chagas de Jesus”.[9]
A Igreja precisa de pastores (bispos, mas também presbíteros:
ndr) que, deixando de lado “toda forma de arrogância”,[10] se ajoelhem “na
frente dos outros para lavar-lhes os pés”.[11]
Homem de dom e do perdão
Como “homem de dom e perdão”,[12] o presbítero sabe manter-se
“distante da frieza do rigorista, bem como da superficialidade de quem quer mostrar-se
condescendente a todo custo”.[13] “A dureza é-lhe estranha”, porque não é “um
inspetor do rebanho” ou “um contador do espírito”, mas “um pastor segundo o
coração manso de Deus”.[14]
Mesmo nos momentos difíceis espalha serenidade ao seu redor,
“transmitindo a beleza da relação com o Senhor”.[15] Ele não é um controlador
da graça, mas um facilitador; para ele a Igreja não é uma alfândega
“culpabilizadora”,[16] mas “a casa paterna, onde há lugar para todos com a sua
vida fadigosa”.[17]
Sente-se chamado pelo Senhor “para uma obra esplêndida, para
trabalhar para que a sua casa seja cada vez mais acolhedora, para que cada um
possa entrar e viver nela, para que a Igreja tenha as portas abertas a todos e
ninguém seja tentado. concentrar-se apenas a olhar e mudar as fechaduras”.[18]
“Especialista em humanidade”,[19] o presbítero “traz
harmonia onde há divisão, harmonia onde há contenda, serenidade onde há
animosidade”.[20]
Apóstolo da alegria
Como “apóstolo da alegria”,[21] o presbítero demonstra fidelidade
à sua vocação, transmitindo ao Povo de Deus, com o seu modo de viver,[22] a
alegria que carrega dentro de si[23] e que deriva do seu permanecer enraizado
em Cristo.[24] A alegria do presbítero “é um bem precioso não só para ele, mas
também para todo o Povo fiel de Deus”.[25]
A alegria, além disso, “é o sinal do cristão: cristão sem
alegria ou não é um cristão ou está doente”.[26]
E “a alegria do cristão não é a emoção de um instante ou um
simples otimismo humano, mas a certeza de poder enfrentar toda situação sob o
olhar amoroso de Deus, com a coragem e a força que dele emanam… Sem alegria, a
fé torna-se um exercício rigoroso e opressor, e corre o risco de adoecer de
tristeza … Não há santidade sem alegria”.[27]
Mesmo no meio das dificuldades, o presbítero conserva o sentido
de humor,[28] uma das características da santidade. Graças a ele pode rir dos
outros, de si mesmo e até de sua própria sombra.[29]
Homem da Páscoa e com o olhar
voltado para o Reino de Deus
Como “homem da Páscoa e com o olhar voltado para o Reino de
Deus”, para o qual sente que caminha a história humana, apesar dos atrasos, das
obscuridades e das contradições, o presbítero “ama a terra que reconhece
visitada todas as manhãs pela presença de Deus”.[30]
Ele “nunca chegou”, mas é sempre um “peregrino pelos
caminhos do Evangelho e da vida, assomando o limiar do mistério de Deus e a
terra sagrada das pessoas que lhe são confiadas”.[31]
Deixando-se formar pelo Senhor todos os dias, evita
tornar-se “presbítero apagado” e arrastar-se no ministério “por inércia”, “sem
entusiasmo pelo Evangelho e sem paixão pelo Povo de Deus”.
Entregando-se dia a dia “às mãos experientes do Oleiro,
mantém o entusiasmo do seu coração ao longo do tempo, acolhe com alegria o
frescor do Evangelho, fala com palavras capazes de tocar a vida das pessoas. E
as suas mãos, ungidas pelo bispo no dia da ordenação, são por sua vez capazes
de ungir as feridas, as expectativas e as esperanças do Povo de Deus”.[32]
O seu não é “um coração bailarino que se deixa atrair pelas
sugestões do momento”, mas um coração firme no Senhor, aberto e disponível para
os irmãos e as irmãs.[33]
Constituído a favor das
pessoas nas coisas que se referem a Deus
Como constituído a favor das pessoas nas coisas que se
referem a Deus, o presbítero tem autoridade mas não é autoritário, firme mas
não duro, alegre mas não superficial, pastor mas não funcionário: sabe estar
entre as pessoas como pai e irmão, partilhando as suas alegrias e
sofrimentos.[34]
“Não se detém nas desilusões e, no esforço, não desiste; ele
é, de facto, obstinado em fazer o bem … Ninguém está excluído do seu coração, da
sua oração e do seu sorriso”.[35]
Às vezes põe-se diante do Povo de Deus para mostrar o
caminho e sustentar esperanças e aspirações, outras vezes está no meio de todos
com a sua proximidade simples e misericordiosa, e em algumas circunstâncias
caminha atrás do Povo de Deus para ajudar e infundir coragem àqueles que lutam
para manter o passo.[36]
Em relação aos leigos batizados, o presbítero não se
comporta como o dono da casa, mas elimina concretamente não só toda visão
verticalista e distorcida do seu ministério,[37] como também toda a forma de
clericalismo, tanto ativo (a tentação, de parte do clero, para clericalizar os
leigos), quanto passivo (o desejo dos leigos de serem clericalizados).[38]
O clericalismo, de facto, é uma perversão [39] que mantém os
fiéis leigos à margem das decisões,[40] na medida em que tende a diminuir e
subestimar a graça batismal depositada pelo Espírito Santo em seus
corações.[41] “Surge de uma visão elitista e excludente da vocação, que
interpreta o ministério recebido como um poder a ser exercido e não como um
serviço gratuito e generoso a ser oferecido; e isso leva a acreditar que
pertence a um grupo que tem todas as respostas e não precisa de ouvir nem
aprender nada, nem finge escutar”.[42]
O presbítero promove e valoriza a participação na vida da
Igreja de todos os batizados[43] dotados do sensus fidei que a ajuda a
“discernir o que realmente vem de Deus”.[44] Na sua comunidade “todos são
protagonistas e ninguém pode ser considerado um mero figurante”.[45]
Contemplativo da Palavra e
contemplativo do Povo de Deus
Como contemplativo da Palavra e contemplativo do Povo de
Deus, [46] o presbítero põe Deus e as pessoas no centro das suas preocupações quotidianas,
“espalha a luz do Evangelho, o sabor de Deus, ao seu redor, transmite
esperanças aos corações inquietos”. [47]
Alimenta-se da Palavra que prega, [48] fazendo-a ressoar com
todo o seu esplendor no coração do Povo, tendo ressoado primeiro no seu coração
de pastor. [49]
“A sua palavra, pregada ou escrita, aure clareza de
pensamento e força persuasiva da fonte da Palavra do Deus vivo, no Evangelho
meditado e orado, encontrado no Crucifixo e nos homens, celebrado em gestos
sacramentais nunca reduzido a puro rito”: “não é alguém que exige a perfeição,
mas que convida cada um a dar o melhor de si”. [50]
Visto que a ignorância das Sagradas Escrituras é ignorância
de Cristo, o presbítero sente a forte exigência de torná-las acessíveis e familiares
à própria comunidade, fazendo tudo o que for necessário para que os fiéis as
possam frequentar com assiduidade.[51]
Ciente, aliás, de que a religião não pode limitar-se à
esfera privada e que não existe apenas para preparar as almas para o céu, [52] ele
“desconfia das experiências que o levam a intimismos estéreis e das
espiritualidades realizadoras que parecem dar consolação mas, em vez disso,
levam a fechamentos e rigidez”. [53] Ele rejeita toda espiritualidade
desencarnada e está disposto a sujar as mãos com os problemas das pessoas, [54]
sem usar luvas. [55]
Ele empenha-se em “despertar o humano nas pessoas para
abri-las ao divino” e “devolver a palavra aos pobres, porque sem a palavra não
há dignidade e, portanto, nem mesmo liberdade e justiça”. E é a palavra que vai
“abrir o caminho à plena cidadania na sociedade, mediante o trabalho, e à plena
pertença à Igreja, com uma fé consciente”. [56] Por outras palavras, o presbítero
nutre a esperança e cultiva o sonho de mudar o mundo com o Evangelho. [57]
Construtor de sinodalidade
Por ser profundamente consciente de que “o caminho que Deus
espera da Igreja do terceiro milénio é o da sinodalidade” [58] que, longe de
ser uma moda ou um slogan, exprime a natureza, a forma, o estilo e a missão da
Igreja [59], como presbítero sente a urgência de contribuir para construí-la,
[60] não ocasionalmente, mas estruturalmente.
A começar pela valorização dos organismos de participação e
corresponsabilidade que, a nível paroquial, deveriam favorecer “o diálogo e a
interação no Povo de Deus, especialmente entre sacerdotes e leigos“.[61]
Todos têm algo a aprender com os outros, desde que nos
encontremos sem formalismos e sem fingimentos, e nos coloquemos na escuta das
perguntas, das aflições e das esperanças do povo de Deus para podermos
discernir [62] o que o Espírito sugere para evitar que nos tornemos uma
igreja-museu, linda mas muda, com muito passado e pouco futuro. [63]
O autêntico objetivo da sinodalização da Igreja, de facto, “é
fazer germinar sonhos, despertar profecias e visões, fazer florescer
esperanças, estimular confiança, lenir feridas, tecer relações, ressuscitar uma
aurora de esperança, aprender uns com os outros e criar um imaginário positivo
que ilumine as mentes, aqueça os corações, devolva as forças às mãos”. [64]
Andrea Lebra, em settimananews
Notas
[1] Discurso de 6 de março de 2014 aos párocos de Roma.
[2] Discurso de 16 de maio de 2016 à Conferência Episcopal
Italiana.
[3] Discurso de 10 de junho de 2021 à comunidade do
Pontifício Seminário Regional da região de Marche Pio XI de Ancona.
[4] Discurso de 18 de setembro de 2021 aos fiéis de Roma.
[5] Discurso de 15 de novembro de 2021 aos participantes do
Capítulo Geral da Ordem Franciscana Secular.
[6] Evangelii gaudium n. 183.
[7]Evangelii gaudium n. 187.
[8] Discurso de 18 de setembro de 2021 aos fiéis de Roma.
[9] Mensagem de 18 de setembro de 2015 aos participantes no
encontro dos consagrados húngaros no ano da vida consagrada.
[10] Homilia de 23 de maio de 2013 por ocasião da solene
profissão de fé do episcopado italiano.
[11] Discurso de 20 de setembro de 2014 aos bispos
participantes no seminário promovido pela Congregação para a Evangelização dos
Povos.
[12] Discurso de 15 de setembro de 2018 por ocasião do
encontro, na catedral de Palermo, com o clero, os religiosos e os seminaristas.
[13] Discurso de 16 de maio de 2016 na Conferência Episcopal
italiana.
[14] Homilia de 3 de junho de 2016 por ocasião do Jubileu
Extraordinário da Misericórdia – Jubileu dos presbíteros.
[15] Discurso de 20 de novembro de 2015 aos participantes no
congresso promovido pela Congregação para o Clero, por ocasião do 50º
aniversário dos decretos conciliares Optatam totius e Presbyterorum ordinis.
[16] Discurso de 18 de setembro de 2021 aos fiéis de Roma.
[17] Evangelii gaudium n. 47.
[18] Homilia de 23 de setembro de 2021 por ocasião da
concelebração eucarística com os participantes na Assembleia Plenária do
Conselho das Conferências Episcopais da Europa.
[19] Discurso de 10 de junho de 2021 à comunidade do
Pontifício Seminário Regional da região de Marche Pio XI de Ancona.
[20] Discurso de 15 de setembro de 2018 por ocasião do
encontro, na catedral de Palermo, com o clero, os religiosos e os seminaristas.
[21] Discurso de 20 de novembro de 2015 aos participantes no
congresso promovido pela Congregação para o Clero, por ocasião do 50º
aniversário dos decretos conciliares Optatam totius e Presbyterorum ordinis.
[22] Discurso de 27 de maio de 2017 ao encontro de presbíteros,
consagrados e seminaristas de Gênova.
[23] Meditação de 31 de janeiro de 2019.
[24] Discurso de 7 de junho de 2021 aos presbíteros do
Convitto San Luigi dei Francesi de Roma.
[25] Homilia de 17 de abril de 2014.
[26] Meditação de 22 de maio de 2014.
[27] Angelus de 1º de novembro de 2021.
[28] Discurso de 11 de setembro de 2021 aos participantes do
Capítulo Geral da Ordem do Frades Carmelitas Descalços.
[29] Discurso de 7 de junho de 2021 aos presbíteros do
Convitto San Luigi dei Francesi de Roma.
[30] Discurso de 16 de maio de 2016 na Conferência Episcopal
italiana.
[31] Discurso de 1 ° de junho de 2017 aos participantes da
Plenária da Congregação para o Clero.
[32] Discurso de 7 de outubro de 2017 aos participantes na
conferência internacional promovida pela Congregação para o Clero.
[33] Homilia de 3 de junho de 2016 por ocasião do Jubileu
Extraordinário da Misericórdia – Jubileu dos presbíteros.
[34] Discurso de 20 de novembro de 2015 aos participantes no
congresso promovido pela Congregação para o Clero, por ocasião do 50º
aniversário dos decretos conciliares Optatam totius e Presbyterorum ordinis.
[35] Homilia de 3 de junho de 2016 por ocasião do Jubileu
Extraordinário da Misericórdia – Jubileu dos presbíteros.
[36] Homilia de 25 de abril de 2021. Cr. também, referido
aos bispos, Evangelii gaudium, n. 31.
[37] Momento de reflexão em 9 de outubro de 2021 para o
início do caminho sinodal.
[38] Discurso de 22 de março de 2014 aos membros da
Associação “Corallo”.
[39] Discurso de 5 de setembro de 2019 por ocasião do
encontro com os Jesuítas de Moçambique.
[40] Evangelii gaudium n. 102.
[41] Carta de 19 de março de 2016 ao card. Marc Ouellet,
presidente da Pontifícia Comissão para a América Latina.
[42] Discurso de 3 de outubro de 2018 por ocasião do
lançamento do Sínodo dedicado aos jovens.
[43] Discurso de 16 de maio de 2016 na Conferência Episcopal
italiana.
[44] Evangelii gaudium n. 119.
[45] Discurso de 18 de setembro de 2021 aos fiéis de Roma.
[46] Evangelii gaudium n. 154.
[47] Discurso de 7 de junho de 2021 aos presbíteros do
Convitto San Luigi dei Francesi de Roma.
[48] Discurso de 15 de setembro de 2018 por ocasião do
encontro, na catedral de Palermo, com o clero, os religiosos e os seminaristas.
[49] Evangelii gaudium n. 149.
[50] Discurso de 20 de junho de 2017 por ocasião da visita
ao túmulo de dom Primo Mazzolari.
[51] Carta apostólica Aperuit illis de 30 de setembro de
2019.
[52] Evangelii gaudium n. 182.
[53] Discurso de 10 de junho de 2021 à comunidade do
Pontifício Seminário Regional da região de Marche, Pio XI de Ancona.
[54] Discurso de 15 de setembro de 2018 por ocasião do
encontro, na catedral de Palermo, com o clero, os religiosos e os seminaristas.
[55] Homilia de 3 de junho de 2016 por ocasião do Jubileu
Extraordinário da Misericórdia – Jubileu dos presbíteros.
[56] Discurso comemorativo de 20 de junho de 2017 junto ao
túmulo de Dom Lorenzo Milani.
[57] Discurso de 22 de novembro de 2014 aos participantes do
IV Congresso Nacional Missionário promovido pela CEI.
[58] Discurso para comemorar o 50º aniversário da criação do
Sínodo dos Bispos (17 de outubro de 2015).
[59] Discurso de 18 de setembro de 2021 aos fiéis da Diocese
de Roma.
[60] Discurso de 17 de outubro de 2015 para comemorar o 50º
aniversário da criação do Sínodo dos Bispos.
[61] Um momento de reflexão em 9 de outubro de 2021 para o
início do caminho sinodal.
[62] Homilia de 10 de outubro de 2021 por ocasião da
celebração eucarística de abertura do Sínodo dos Bispos sobre a sinodalidade.
[63] Momento de reflexão em 9 de outubro de 2021 para o
início do caminho sinodal.
[64] Discurso de 3 de outubro de 2018 no início do Sínodo
dos Bispos dedicado aos jovens.
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