Conversão muito mais radical é a mudança de orientação da própria fé

Em que consistiu a conversão de São Paulo?

O que aconteceu com Saulo não foi uma conversão religiosa, isto é, de um ateu que se tornou um homem de fé. Mas de uma conversão muito mais radical, uma mudança de orientação da própria fé.

A experiência de encontro com o Ressuscitado no caminho de Damasco não foi para Saulo a descoberta da existência de Deus, mas um percurso dentro de si mesmo rumo à descoberta do verdadeiro rosto de Deus: Jesus Cristo. 

Foi essa experiência que mudou radicalmente a direção da sua vida e o transformou num dos mais eminentes propagadores e testemunhas do Evangelho de todos os tempos. De Saulo (significa «aquele que foi muito desejado»), passou a Paulo (significa «pequeno»); de perseguidor, a perseguido por Cristo; de proeminente judeu, a discípulo e irmão de fé dos seguidores do Nazareno. 

A primeira perspetiva da fé de Saulo
É interessante notar que Saulo era um homem temente a Deus, religioso exemplar e jamais imaginava que o facto de perseguir os seguidores de Jesus fosse algo oposto à sua fé. Muito pelo contrário, para ele, combater os seguidores do Caminho significava ser fiel à ortodoxia de seus princípios religiosos. E não importava se isso implicava entregá-los à tortura e até mesmo à morte. 

Experiências semelhantes na Igreja
Realidades semelhantes aconteceram também com outros santos na História da Igreja.

Inácio de Loyola, por exemplo, também era um homem religioso, mas seguia os preceitos sem uma verdadeira experiência de Deus. Conhecia o catecismo, a doutrina, mas Deus era-lhe distante e parecia estar simplesmente ao serviço dos seus desejos egoístas de honras, famas e conquistas. No leito de Loyola, em convalescença, o ex-soldado, assim como Saulo, descobriu-se cego e enganado. Pouco a pouco Inácio deu-se conta de que a sua vida não podia continuar a ser a mesma. Deste modo, de simples homem religioso, Inácio transformou-se pouco a pouco em discípulo de Jesus.

Neste sentido, como o Papa Francisco sempre nos recorda, não basta que sejamos homens e mulheres religiosos e fiéis à doutrina. É preciso que façamos uma experiência pessoal de encontro com a Palavra Encarnada: o Ressuscitado. Deste encontro brota toda a conversão, toda a mudança de vida e todo o desejo de amar o mundo com o coração de Deus.

A conversão cristã não é simplesmente algo pontual, que acontece num momento da vida, quando, talvez, de indiferentes à fé, começamos a crer.  Para o seguidor de Jesus, o “caminho de Damasco” ou o “leito de Loyola” está sempre diante de si como um convite de Deus que não cessa de acontecer. Isso porque o facto de nos considerarmos religiosos não qualifica necessariamente o nosso discipulado. Do mesmo modo que o grau de conhecimento que temos da doutrina não explicita necessariamente a nossa comunhão com Deus e a nossa pertença à comunidade dos discípulos do Senhor, isto é, a Igreja.

Fazer a passagem da simples religiosidade ao discipulado é um caminho difícil que pode implicar uma verdadeira mudança de mentalidade, de atitude, de vida. Foi este o caminho percorrido por Paulo, Inácio e, mesmo, por Francisco de Assis. É o caminho da conversão da rigidez à ternura; do apego à Lei à liberdade dos filhos de Deus; da prepotência de perfeitos à humildade de discípulos; do caminho individualista da religiosidade à peregrinação sinodal da fé.

Bruno Franguelli, SJ - Vatican News

Comentários