De que quer você a imagem?
Perguntou-lhe o santeiro:
Temos santos de pinho,
Há imagens só de gesso
Olhe este Cristo jacente,
Madeira pura de cedro,
Quem encomenda decide,
Uma família, uma igreja,
Ou se apenas o desejo
É expô-lo num museu.
Deixe-me, pois, que lhe explique,
O que penso de verdade.
Eu necessito uma imagem
De Jesus, o Galileu,
Que reflete o seu fracasso
Em busca de um mundo novo,
Que comova as consciências,
E mude os pensamentos.
Eu não a quero guardada
Em igrejas e conventos.
Nem em casas de família
A presidir orações,
E que não siga em andores
Nas costas de voluntários.
Que ilumine a quem o olhe
O coração e o cérebro.
Que o queira retirá-lo
Da sua cruz e tormento,
E quem contemple a imagem
Não pare a olhar um morto,
Nem com os olhos de artista
Só contemple a figura
Diante da qual exclame
“Que belo esse torturado!”
Perdoe-me se inda lhe digo,
- responde ainda o santeiro –
Aqui não estará segura
A imagem do Nazareno.
Vá procurá-la nas ruas
Entre o povo sem abrigo,
Nos hospitais e hospícios
Onde há gente morrendo,
Nos centros de acolhida
Onde abandonam os velhos,
No povo com fome e medo,
Entre as crianças famintas,
Nas mulheres maltratadas,
E em pessoas sem emprego.
Mas a imagem de Cristo
Não a cerques nos museus,
E nem mesmo nas estátuas
Dos altares e dos templos.
Não sigas nas procissões
Os passos do Nazareno,
Nem o busques de madeira,
De bronze, de pedra ou gesso,
O encontrarás entre os pobres
Sua imagem em carne e osso!
Gabriela Mistral (1889-1957)
poetisa, educadora e diplomata chilena,
primeiro nome da
América Latina Prémio Nobel de Literatura.

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