De alguma forma, eu visualizo Deus a passear sobre a Terra,
selecionando os seus instrumentos para a preservação da espécie humana com
grande cuidado e deliberação. À medida que vai observando, Ele manda os seus anjos fazerem
anotações num bloco gigante:
– Elizabete Souza, vai ter um menino. Santo protetor da mãe,
São Mateus.
– Mariana Ribeiro, uma menina; santa protetora da mãe, Santa
Cecília.
– Cláudia Antunes, esta terá gémeos. Santo protetor… mande
São Geraldo protegê-la. Ele está acostumado a quantidade.
Finalmente, Deus dita um nome a um dos anjos, sorri e diz:
– Para esta mãe mande uma criança surda.
O anjo cheio de curiosidade, pergunta:
– Porque justamente ela, Senhor? Ela é tão feliz.
– Exatamente – respondeu Deus, sorrindo. – Eu poderia
confiar uma criança deficiente a uma mãe que não conhecesse o riso? Isto seria
cruel.
– Mas será que ela vai ter paciência suficiente? –pergunta o
anjo.
– Eu não quero que ela tenha paciência demais, senão vai
acabar por se afogar num mar de desespero e autocompaixão. Quando o choque e a
tristeza iniciais passarem, ela controlará a situação. Eu estava a observá-la
hoje. Ela tem um conhecimento de si mesma e um sentido de independência que são
raros e, ao mesmo tempo, tão necessários para uma mãe. Veja: a criança que eu
vou confiar a ela tem o seu mundo próprio. Ela tem de trazer esta criança para
o mundo real e isto não vai ser fácil.
– Mas Senhor, eu acho que ela nem acredita em Deus.
Deus sorri:
– Isso não importa, dá-se um jeito. Esta mãe é perfeita. Ela
tem a dose exata de egoísmo que vai precisar.
O anjo engasga:
– Egoísmo? Isto é virtude?
Deus balança a cabeça afirmativamente.
– Se ela não for capaz de se separar da criança de vez em
quando, ela não vai sobreviver. Sim, aqui está a mulher a quem vou abençoar com
uma criança menos ‘perfeita’ do que as outras. Ela ainda não tem consciência
disto, mas ela será invejada. Ela nunca vai considerar banal qualquer palavra
pronunciada pelo seu filho. Por mais simples que seja um balbucio dessa
criança, ela vai recebê-lo como um grande presente. Nenhuma conquista da
criança será vista por ela como corriqueira. Quando a criança disser ‘mamã’,
pela primeira vez, esta mulher será testemunha de um milagre e saberá
reconhecê-lo.
Quando ela mostrar uma árvore ou um pôr do sol ao seu filho
e tentar ensiná-lo a repetir as palavras ‘árvore’ e ‘sol’, ela será capaz de contemplar
as minhas criações como poucas pessoas são capazes de as ver. Eu vou permitir
que ela veja claramente as coisas que Eu vejo – ignorância, crueldade,
preconceito – e vou fazer com que ela seja mais forte do que tudo isso. Ela
nunca estará sozinha. Eu estarei aqui ao seu lado.
– E qual será o santo protetor desta mãe? – pergunta o anjo,
com a caneta na mão.
Deus sorri novamente:
– Nenhum. Basta que ela se olhe ao espelho.
(Autor desconhecido)

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