O Evangelho dos não-convidados: «A honra já não se fundamenta no poder e no prestígio, mas na bondade, humildade e hospitalidade»

Adroaldo Palaoro, padre jesuíta, comenta o trecho do Evangelho segundo São Lucas 14, 1.7-14: «Quando deres uma festa, convida os pobres, os aleijados, os coxos, os cegos» (Lc 14,13)
 
Jesus é um profundo conhecedor da interioridade humana. Sabe que ali dois dinamismos estão em contínuo conflito: de um lado, o ego farisaico, que aproveita todas as ocasiões para brilhar diante dos outros (a cultura da aparência), ser o centro, chamar a atenção sobre si...; do outro, o eu profundo, sábio que, na sua liberdade e espontaneidade, deixa transparecer a sua luz no encontro com o diferente.
 
As imagens e as palavras de Jesus neste trecho do Evangelho são tremendas. A motivação daqueles que buscam ocupar os “primeiros lugares” é expressão de uma interioridade vazia e estéril; ela é reveladora de uma das necessidades características do ego, que busca “aparecer” diante dos outros, como um modo de autoafirmar-se, de se sentir superior aos outros, humilhando-os e desprezando-os.
 
Quando uma pessoa é escrava do seu próprio ego, não lhe importa que o outro desapareça ou se sinta marginalizado e privado dos seus direitos. Vive tão a fundo a sua “autoidolatria” que até lhe parece normal continuar a agir assim.
 
A pessoa sábia, no entanto, compreende que tudo o que os outros pensam ou digam a respeito dela não lhe acrescenta nem lhe tira nada do seu valor. Ela não se move a partir da necessidade de agradar ou de “ficar bem” diante dos outros. Vive, simplesmente, na coerência com o que é mais verdadeiro no seu interior, onde o ego não tem predomínio. Da mesma maneira que não busca reconhecimentos nem bajulações, tampouco lhe interessa perseguir os primeiros lugares. Vive com liberdade interior, a partir da sua própria consciência de plenitude. Flui em cada momento com o que é em sua essência; fluidez que brota da compreensão de si mesma, aquela que lhe faz consciente da sua “irmandade” com todos os humanos e todos os seres.
 
Portanto, o sábio não atende aos necessitados – “pobres, aleijados, coxos e cegos” – para receber uma “retribuição” futura, senão porque sabe que são da sua mesma “família”. O comportamento dele – como foi do próprio Jesus – caracteriza-se pela gratuidade. Não busca alimentar o interesse egoico, porque não se deixa determinar pela carência. A sua ação é fim em si mesma, porque nasce de uma consciência de plenitude que se transborda.

A conduta dos convidados e do chefe fariseu são, para Jesus, uma ocasião privilegiada para propor os valores do Reino. Para Ele, no banquete da vida não basta dar e receber generosamente, mas acolher com gratuidade todo aquele que não pode oferecer nada em troca. A honra já não se fundamenta no poder e no prestígio, mas na bondade, humildade e hospitalidade. A nova comunidade do Reino é esse banquete no qual todos têm lugar, seja qual for a sua origem, crença, situação pessoal; ali todos se sentem convidados, sem merecimentos exclusivos nem dignidades adquiridas.
 
O relato não só recorda o modo original de Jesus agir, mas é também um apelo para a comunidade cristã, para que seja comunidade inclusiva e aberta, na qual se respeitem as diferenças, se construam espaços de igualdade, onde se proclame um Deus gratuito e cheio de amor e perdão. Nela não haverá estrangeiros nem imigrantes, não haverá primeiros nem últimos, não haverá resquícios de género nem poderes que excluem.
 
Se não nos sentamos à mesa com o outro, estamos a perder a oportunidade de saborear os alimentos humanizadores: encontro, alegria, partilha, hospitalidade, festa, vida... Tudo aquilo que acontece na alegria, tudo aquilo que é distribuído com vida, com sentido e sentimento, alimenta algo em nós, ou alguém fora de nós, e multiplica-se, triplica-se...

O que acontece na nossa mesa interior
Podemos ler este Evangelho também em chave de interioridade: no nosso eu mais profundo há uma mesa pronta para a refeição; geralmente é o “fariseu” que nos habita o controlador desta mesa; é o nosso ego inflado, perfecionista, legalista, dominador que não admite a presença dos nossos pobres, aleijados, coxos, cegos, enfim, todas as dimensões da nossa vida que foram excluídas, reprimidas e marginalizadas. O Evangelho revela-nos que na nossa interioridade há muitas vivências, experiências, feridas, fragilidades, fracassos, crises..., que não foram acolhidas, nem integradas, e que clamam por um lugar à mesa do coração; “multidões” nos habitam e querem compartilhar a mesa da vida.
 
O nosso fariseu interior também convida Jesus para participar da sua ceia; e Jesus é aquele que acolhe o convite, mas não se sente bem à mesa do fariseu pois nota a falta dos seus amigos pobres. Ele tem liberdade de transitar pelo nosso interior e de acolher tudo o que foi reprimido e excluído. São justamente as nossas feridas as portas e janelas abertas por onde entra a mensagem inovadora de Jesus. O “fariseu” já está formatado, petrificado, refratário à proposta de vida apresentada por Jesus.
 
Também a gratuidade só pode ser vivida quando a identificação com o nosso ego cai. Então, emerge uma nova consciência que se revela no acolhimento de nós mesmos, no deslocar-nos entre os “últimos”, no sentir-nos em comunhão com aquelas dimensões da vida que são excluídas e que não tem nada a retribuir a não ser sua própria fragilidade. Mas sabemos pela revelação bíblica que Deus tem mais facilidade de “entrar” em nossas vidas pelas fendas das feridas, dos fracassos, das derrotas...

Justamente os aspetos pobres e aleijados, os aspetos cegos e coxos podem levar-me ao caminho da completude. Tudo, e principalmente aquilo que eu considero feio em mim mesmo, deve ser incluído e acolhido na completude com Deus. Posso tornar-me completo em Deus apenas se eu lhe oferecer minhas fraquezas, feridas e fracassos...

Ao mesmo tempo, a “descida” à minha mesa interior vai, aos poucos, despertando uma sensibilidade para também “descer” ao mundo do outro; o encontro com minha própria humanidade ativa um deslocamento em direção à humanidade do outro.
 
Aquele(a) que “desce” às margens da sua interioridade, também se aproxima da terra privilegiada do encontro com Deus, que se manifestou em Jesus de Nazaré, o amigo dos pobres e pecadores.

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