«Precisamos de comunidades cristãs nas quais o espaço se expanda, onde todos possam se sentir em casa, onde as estruturas e os meios pastorais favoreçam não a criação de pequenos grupos, mas a alegria de ser e sentir-se corresponsáveis”, é o retrato desenhado pelo Papa Francisco, na Audiência (em italiano), aos representantes diocesanos do Caminho Sinodal Italiano.
Seleciono algumas frases do Papa Francisco no discurso:
«O processo sinodal está a afectar toda a Igreja e, dentro dela, as Igrejas locais, no qual os Seminários Sinodais se constituíram como uma bela experiência de escuta do Espírito e de confronto entre as diferentes vozes das comunidades cristãs. Isto gerou um envolvimento de muitos, especialmente sobre certas questões que reconheceis como cruciais e prioritárias para o presente e o futuro.»
«Este caminho começou há 60 anos, quando o Papa São Paulo VI, no final do Concílio, se apercebeu de que a Igreja do Ocidente, pesada pelas estruturas, pela burocracia, pelo formalismo, terá dificuldade em caminhar na história, ao ritmo do Espírito, permanecerá aí e não poderá caminhar ao encontro dos homens e das mulheres do nosso tempo.»
«Trata-se de uma experiência espiritual única de conversão e renovação que pode tornar as vossas comunidades eclesiais mais missionárias e melhor preparadas para a evangelização no mundo de hoje.»
«A sinodalidade não é pedir a opinião das pessoas ou mesmo concordar, é outra coisa. Por isso, gostaria de vos exortar a continuar este caminho com coragem e determinação, em primeiro lugar valorizando o potencial existente nas paróquias e nas várias comunidades cristãs. Por favor, isto é importante.»
«Primeira tarefa: continuar. Tem de ser feito. À medida que colheis os primeiros frutos no que diz respeito às questões e aos problemas que surgiram, sois convidados a não parar. A vida cristã é uma viagem. Continuai a caminhar, deixando que o Espírito vos guie.»
«Na Convenção da Igreja em Florença, indiquei três traços que devem caracterizar o rosto da Igreja, o rosto das vossas comunidades, em humildade, abnegação e felicidade. Humildade, abnegação e bem-aventurança. Uma Igreja sinodal é tal porque tem consciência de que caminha na história na companhia do Ressuscitado, preocupada não em salvaguardar-se a si mesma e aos seus interesses, mas em servir o Evangelho num estilo de gratuidade e de cuidado, cultivando a liberdade e a criatividade próprias de quem dá testemunho da alegria do amor de Deus, mantendo-se enraizada no essencial.»
«Uma Igreja presa às estruturas, à burocracia, ao formalismo terá dificuldade em caminhar na história, ao ritmo do Espírito, ficará lá e não poderá caminhar ao encontro dos homens e mulheres do nosso tempo.»
«A segunda tarefa é esta: fazer Igreja juntos. É uma exigência que nos parece urgente, hoje, sessenta anos após a conclusão do Concílio Vaticano II. De facto, a tentação de separar alguns "actores qualificados" que desenvolvem a acção pastoral enquanto o resto do povo fiel permanece "meramente receptivo às suas acções" (Evangelii gaudium, 120) está sempre à espreita. Há os "chefes" de uma paróquia, que levam as coisas para a frente e o povo recebe apenas isso. A Igreja é o Povo santo e fiel de Deus e nela, "em virtude do Baptismo recebido, cada membro [...] tornou-se discípulo missionário" (ibid.). Esta consciência deve fazer crescer cada vez mais um estilo de co-responsabilidade eclesial: cada baptizado é chamado a participar activamente na vida e na missão da Igreja, a partir da especificidade da sua própria vocação, em relação com os outros e com os outros carismas, dados pelo Espírito para o bem de todos.»
«Precisamos de comunidades cristãs em que o espaço seja alargado, onde todos se sintam em casa, onde as estruturas e os meios pastorais favoreçam não a criação de pequenos grupos, mas a alegria de se sentirem co-responsáveis.»
«Neste sentido, devemos pedir ao Espírito Santo que nos faça compreender e experimentar como ser ordenados ministros e como exercer o ministério neste tempo e nesta Igreja: nunca sem o Outro com "O" maiúsculo, nunca sem outros com quem partilhar o caminho.»
«Na comunidade dos baptizados, cada um caminha com os outros irmãos e irmãs na escola do único Evangelho e à luz do Espírito.»
«A terceira tarefa: ser uma Igreja aberta. Redescobrir a própria co-responsabilidade na Igreja não significa implementar lógicas mundanas de distribuição do poder, mas cultivar o desejo de reconhecer o outro na riqueza dos seus carismas e da sua singularidade. Desta forma, é possível encontrar um lugar para aqueles que ainda lutam para ver reconhecida a sua presença na Igreja, aqueles cujas vozes são tapadas, se não mesmo silenciadas ou ignoradas, aqueles que se sentem inadequados, talvez por terem percursos de vida difíceis ou complexos. Por vezes, são "excomungados" a priori. Mas recordemos: a Igreja deve deixar transparecer o coração de Deus: um coração aberto a todos e para todos. Não esqueçamos, por favor, a parábola de Jesus sobre a festa de casamento falhada, quando aquele senhor, não tendo chegado nenhum convidado, o que é que ele diz? "Vai à encruzilhada e chama toda a gente" (cf. Mt 22,9). Todos: doentes, não doentes, justos, pecadores, todos, todos para dentro.»
«Deveríamos perguntar-nos quanto espaço abrimos e quanto escutamos realmente nas nossas comunidades as vozes dos jovens, das mulheres, dos pobres, dos desiludidos, dos que foram feridos na vida e estão zangados com a Igreja. Enquanto a sua presença for uma nota esporádica no conjunto da vida eclesial, a Igreja não será sinodal, será uma Igreja de poucos. Lembrai-vos disto, chamai todos: os justos, os pecadores, os sãos, os doentes, todos, todos.»
«Às vezes temos a impressão de que as comunidades religiosas, as cúrias, as paróquias são ainda um pouco auto-referenciais. E a auto-referencialidade é um pouco como a teologia do espelho: olho-me ao espelho, maquilhagem, penteio-me bem... É uma bela doença esta, uma bela doença que a Igreja tem: parece que se insinua, um pouco dissimuladamente, uma espécie de "neo-clericalismo defensivo" - o clericalismo é uma perversão, e o bispo, o padre clerical é perverso, mas o leigo clerical é ainda mais: quando o clericalismo entra no laicado é terrível! - O neo-clericalismo defensivo gerado por uma atitude de medo, pela queixa de um mundo que "já não nos compreende", onde "os jovens estão perdidos", pela necessidade de reiterar e fazer sentir a sua influência - "mas eu faço isto...".»
«O Sínodo chama-nos a tornarmo-nos uma Igreja que caminha com alegria, humildade e criatividade neste nosso tempo, sabendo que somos todos vulneráveis e que precisamos uns dos outros. E eu gostaria que, numa caminhada sinodal, levássemos a sério esta palavra 'vulnerabilidade' e falássemos sobre ela, com um sentido de comunidade, sobre a vulnerabilidade da Igreja.»
«E acrescentaria: caminhar tentando gerar vida, multiplicar a alegria, não apagar os fogos que o Espírito acende nos corações. O Pe. Primo Mazzolari escreveu: "Que contraste quando a nossa vida apaga a vida das almas! Sacerdotes que sufocam a vida. Em vez de iluminar a eternidade, nós apagamos a vida". Somos enviados não para apagar, mas para acender os corações dos nossos irmãos e irmãs, e deixarmo-nos iluminar pelo brilho das suas consciências que procuram a verdade.»
«Terceira tarefa: ser uma Igreja "inquieta" na inquietude do nosso tempo. Somos chamados a assumir as inquietações da História e a deixarmo-nos interpelar por elas, a apresentá-las a Deus, a mergulhá-las na Páscoa de Cristo. O grande inimigo deste caminho é o medo: "Tenho medo, tem cuidado...".»
«Há uma prisão em Espanha, com um bom capelão» [...] Formar grupos sinodais (nas prisões) significa escutar uma humanidade ferida, mas ao mesmo tempo necessitada de redenção. [...] É interessante ver como (o capelão) faz emergir o melhor deles a partir do seu interior, para o projectar no futuro. Para um recluso, o cumprimento da pena pode tornar-se uma oportunidade para experimentar o rosto misericordioso de Deus e, assim, começar uma vida nova. E a comunidade cristã é provocada a sair dos seus preconceitos, a procurar aqueles que passaram anos na prisão, a encontrá-los, a ouvir o seu testemunho e a partir com eles o pão da Palavra de Deus. Este é um exemplo de boa inquietação, que me destes; e poderia citar muitos outros: experiências de uma Igreja que acolhe os desafios do nosso tempo, que sabe ir ao encontro de todos para anunciar a alegria do Evangelho.»
«Queridos irmãos e irmãs, continuemos juntos este caminho, com grande confiança na obra que o Espírito Santo está a realizar. Ele é o protagonista do processo sinodal, Ele, não nós! É Ele que abre as pessoas e as comunidades à escuta; é Ele que torna o diálogo autêntico e fecundo; é Ele que ilumina o discernimento; é Ele que guia as escolhas e as decisões. É Ele, sobretudo, que cria a harmonia, a comunhão na Igreja. Gosto da forma como São Basílio O define: Ele é a harmonia. Não tenhamos a ilusão de que chegaremos ao Sínodo, não. O Sínodo irá em frente se estivermos abertos a Ele que é o protagonista. A Lumen Gentium afirma: "Ele - o Espírito - introduz a Igreja na plenitude da verdade (cf. Jo 16,13), unifica-a na comunhão e no ministério, dota-a e dirige-a com diversos dons hierárquicos e carismáticos e embeleza-a com os seus frutos (cf. Ef 4,11-12; 1 Cor 12,4; Gl 5,22)" (n. 4).»
«Uma coisa que parece desordenada... Pensai no desconcerto dos Apóstolos na manhã de Pentecostes: aquela manhã foi a pior! Desordem total! E quem provocou esse "pior" foi o Espírito: ele é bom a fazer estas coisas, a desordem, a agitação... Mas o mesmo Espírito que provocou isso provocou a harmonia. As duas coisas são feitas pelo Espírito, ele é o protagonista, é ele que faz essas coisas. Não devemos ter medo quando há perturbações provocadas pelo Espírito; mas devemos ter medo quando são provocadas pelo nosso egoísmo ou pelo Espírito do mal.»
«Que o Senhor vos abençoe e que Nossa Senhora vos guarde.»
(Tradução) Fernando Félix

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