O Cristianismo em confronto com as meias-verdades

Desde a primeira geração dos discípulos-missionários que a missão vive o desafio de confiar à Palavra humana um anúncio de natureza divina. Na experiência do encontro com o Senhor ressuscitado e à luz do dom do Espírito, os apóstolos tiveram uma nova compreensão da pessoa e do ensinamento de Jesus; e assumiram a sua própria identidade de comunidade portadora de um anúncio a levar a todas as pessoas e povos.
 
A leitura dos Actos dos Apóstolos, no tempo pascal, familiarizou-nos com essas fórmulas de anúncio que sobreviveram nas primeiras comunidades em forma oral, transmitindo-se graças às técnicas mnemónicas que as pessoas desenvolveram, ao não disporem de registo de voz ou de escrita.
 
As línguas que inicialmente veiculam o ensinamento de Jesus e as fórmulas do anúncio cristão são substituídas (sobretudo a seguir ao Vaticano II), pelas línguas dos povos que acolhem a fé. A missão cristã guia-se pelo princípio da inculturação e da transmissão da fé em termos culturalmente significativos. Além disso, crescemos na consciência que há uma jerarquia de verdades; isto é, que há que considerá-las como um todo, devidamente ordenado. Enquanto as centrais são enunciadas desde o primeiro anúncio, às outras pode-se aceder num segundo tempo e em modo progressivo.

Confronto com certos tiques da modernidade
No nosso tempo e cultura, os discípulos-missionários de Jesus enfrentam agora uma nova dificuldade: a de serem pressionados a conformarem-se às afirmações cultural e politicamente correctas. Mas a justa preocupação por inculturar a fé não pode ceder e esta pressão, nem cair na formulação de meias-verdades que comprometem a identidade do anúncio cristão, confundindo o respeito às pessoas (sempre devido) com a profissão da fé (a fazer-se na integridade).
 
Dou um exemplo. O Papa Francisco fala da misericórdia de Deus; e naturalmente também fala da justiça de Deus; e das injustiças humanas, da falta de justiça que cada comportamento não misericordioso contém. A mensagem, porém, que passa é a da misericórdia, como se a misericórdia anulasse qualquer consideração sobre sentido e (in)justiça das próprias acções, responsabilidade pessoal diante daquilo que se faz. Ora, a oferta do amor e da misericórdia não anulam a responsabilidade moral; é por isso que, na visão cristã, amor e justiça se abraçam, vão juntos.

Recta doutrina, recta acção e rectos sentimentos 
Na recente assembleia sinodal continental, uma reconhecida testemunha do nosso tempo (o P.e Tomáš Halík) fez-nos entender onde nos encontramos, pelo que se refere à afirmação da identidade cristã: até ao Concílio Vaticano II, pusemos o acento na ortodoxia, isto é, na recta doutrina; no pós-concílio, passámos a pôr o acento na ortopraxia, isto é, na recta acção, para transformar a sociedade segundo os valores do Evangelho; neste século XXI, estamos a pôr o acento na ortopatia, isto é, nos rectos sentimentos e afectos em relação a pessoas, animais e Natureza.
 
Isto explica que o Papa Francisco insista na proximidade, nas carícias de Deus para com todas as suas criaturas. O desafio que se nos coloca a nós discípulos-missionários é o de integrar as três dimensões – as ideias, os afectos e as acções – na formulação do anúncio e da identidade cristã, evitando as meias-verdades, que não servem a fecundidade espiritual do anúncio de que somos devedores às pessoas e aos povos.

Padre Manuel Augusto, missionário comboniano, em Além-Mar

Comentários

  1. O texto vale sobretudo pela última frase: O desafio que se nos coloca ...

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