«Se eu dissesse que creio em Deus, diria muito pouco, porque O amo. Amar alguém é algo mais do que crer na sua existência»
No cartório de Florença, Itália, foi registado como Lorenzo Carlo Domenico Milani Comparetti, nascido a 27 de maio de 1923, numa família burguesa e intelectual de origem judaica. Nos arquivos paroquiais ele aparecerá como batizado somente dez anos depois, após um longo parêntese dos seus pais em Milão, onde ele seguiu todo o currículo escolar até a Academia de Brera. Lorenzo voltou com eles para Florença em 1943 e foi lá que começou a sua jornada espiritual que o levou ao sacerdócio em 13 de julho de 1947.
A vida presbiteral de Lorenzo Milani foi marcada pela marginalização
Lorenzo Milani foi relegado pela incompreensão eclesiástica para a região de Mugello, Barbiana, uma modesta fração do município de Vicchio, que, todavia, ficará conhecida justamente pela genialidade e pela fé deste presbítero. Lá permaneceu até o limiar da sua morte, ocorrida em Florença por uma grave doença em 1967.
Voz profética
A voz do presbítero Lorenzo Milani foi profética e ressoou no deserto. Abalou as consciências. Antecipou os tempos, colocando-se nas encruzilhadas mais efervescentes da sociedade através dos seus escritos, a começar pelas Esperienze pastorali (Experiências Pastorais) de 1958, passando à L'obbedienza non è più una virtù (A obediência já não é uma virtude - em que defende a objeção de consciência, dizendo que a obediência não é a única maneira de amar a lei), até chegar ao inesquecível díptico epistolar da Lettera a una professoressa (Carta a uma professora) sobre um originalíssimo projeto educacional e a Lettera ai cappellani militari. Lettera ai giudici (Carta aos capelães militares. Carta aos Juízes) sobre a objeção de consciência, que lhe custou uma condenação por apologia póstuma do crime, pois a sentença foi proferida um ano após a sua morte em 1967. Sempre firme e sereno, declarava aos seus acusadores: «Onde está escrito que o padre se deve fazer amar? Ou Jesus não conseguiu ou não se importou com isso.»
A voz do presbítero Lorenzo Milani foi profética e ressoou no deserto. Abalou as consciências. Antecipou os tempos, colocando-se nas encruzilhadas mais efervescentes da sociedade através dos seus escritos, a começar pelas Esperienze pastorali (Experiências Pastorais) de 1958, passando à L'obbedienza non è più una virtù (A obediência já não é uma virtude - em que defende a objeção de consciência, dizendo que a obediência não é a única maneira de amar a lei), até chegar ao inesquecível díptico epistolar da Lettera a una professoressa (Carta a uma professora) sobre um originalíssimo projeto educacional e a Lettera ai cappellani militari. Lettera ai giudici (Carta aos capelães militares. Carta aos Juízes) sobre a objeção de consciência, que lhe custou uma condenação por apologia póstuma do crime, pois a sentença foi proferida um ano após a sua morte em 1967. Sempre firme e sereno, declarava aos seus acusadores: «Onde está escrito que o padre se deve fazer amar? Ou Jesus não conseguiu ou não se importou com isso.»
Aos meninos do colégio de Barbiana confessava no seu testamento: «Amei vocês mais do que a Deus; mas espero que Ele não preste atenção a essas subtilezas e tenha anotado tudo.»
Amor aos pobres e marginalizados
O seu amor pela pessoa humana, especialmente pelos pobres e marginalizados, era total: «O coração do homem é algo que os livros não sabem ler nem catalogar. Uma alma não se muda com uma palavra», escrevia àquela “professora” tão rígida no seu obtuso conhecimento e inexorável no seu julgamento sobre uma experiência didática criativa. Lapidário era Lorenzo também em avisar que «o máximo da desigualdade é fazer partes iguais entre desiguais», convencido como era de que «um ato coerente isolado é a maior incoerência» e que «não devemos ter medo de sujar as mãos. De que adianta tê-las limpas se as tivermos mantidas nos bolsos?».
O seu amor pela pessoa humana, especialmente pelos pobres e marginalizados, era total: «O coração do homem é algo que os livros não sabem ler nem catalogar. Uma alma não se muda com uma palavra», escrevia àquela “professora” tão rígida no seu obtuso conhecimento e inexorável no seu julgamento sobre uma experiência didática criativa. Lapidário era Lorenzo também em avisar que «o máximo da desigualdade é fazer partes iguais entre desiguais», convencido como era de que «um ato coerente isolado é a maior incoerência» e que «não devemos ter medo de sujar as mãos. De que adianta tê-las limpas se as tivermos mantidas nos bolsos?».
A sua fé era apaixonada
«Se eu dissesse que creio em Deus, diria muito pouco porque O amo. E amar alguém é algo mais do que crer na sua existência.»
Amor à Igreja, apesar de esta não o compreender
Embora incompreendido, como se dizia, pelas autoridades eclesiásticas, sempre se manteve fiel à Igreja. Um dos seus companheiros de seminário, que foi arcebispo de Florença, o cardeal Silvano Piovanelli, confidenciava que, para aqueles que perguntavam ao presbítero Milani porque não deixava uma igreja tão dura para com ele, respondia: «E onde mais poderei encontrar alguém que me perdoa os pecados?», revelando também um temperamento ascético, consciente da fragilidade humana e da necessidade do perdão divino.
Testamento humano e espiritual
A sua principal obra em termos de elaboração da sua experiência foi certamente o livro Experiências Pastorais, em que despoja a verdade de toda a pretensão retórica e do manto dourado da hipocrisia. «Estamos num mundo em agonia, que talvez Deus esteja a cegar para castigá-lo por ter usado demais e mal o intelecto, ou por não ter partilhado com os infelizes», escreveu.
No final, o balanço do seu empenho de pastor e educador foi surpreendente: «Devo tudo o que sei aos jovens trabalhadores e camponeses que ensinei. O que eles pensavam que estavam a aprender comigo, fui eu que aprendi com eles. Eu só lhes ensinei como se expressar, enquanto eles me ensinavam a viver.»
De facto, a base do seu ensinamento era a busca realizada conjuntamente entre professores e discípulos, como Roland Barthes (1915-1980, filósofo francês) reconhecia: «Há uma idade em que se ensina o que se sabe; mas depois vem outra em que se ensina o que não se sabe, e isso se chama investigar.»
Enzo Bianchi, em Il Sole 24 Ore


Comentários
Enviar um comentário