Uma vida urbana atarefada parece
retirar espaço ao desenvolvimento da nossa criatividade
espiritual. Por outro lado, as mutações sociais poderiam estimular
uma renovação das práticas espirituais que nos levam a ser mais criativos.
Porém, a vida espiritual não se alimenta apenas das nossas crenças e das
justificações das mesmas, mas de um contínuo crescimento da vida interior. Será
viável uma vida monástica capaz de renovar a vida interior em contexto urbano?
Nos contextos da produtividade e
reflexão sobre o efeito da tecnologia na experiência de vida que fazemos, têm
surgido diversos temas que sempre fizeram parte da vida monástica. Existem sete
aspectos onde a vida monástica poderia ajudar-nos a descobrir, gradualmente, o
modo de sermos espiritualmente criativos.
Vida Simples. Os monges adoptam uma vida de simplicidade e evitam
excessos materiais. Nas cidades, a simplicidade traduz-se em práticas de
minimalismo, como possuir apenas o necessário e evitar o consumo excessivo.
Meditação. A meditação é uma prática comum na vida monástica que ajuda a promover a
paz interior e a clareza mental. Numa viagem de comboio, uma forma de meditar
seria ler textos mais profundos e aproveitar as caminhadas pela cidade para
pensar.
Serviço. O serviço aos outros caracteriza muitas comunidades monásticas e faz
parte da dinâmica comunitária. Nas cidades, o voluntariado cresce com as
assimetrias sociais, abrindo oportunidades para as práticas de bondade e
generosidade. Um ouvido que escuta pode valer mais do que uma moeda.
Rotinas. A vida monástica é frequentemente estruturada em torno de uma rotina de
oração, trabalho e repouso. Uma mudança de atitude mental diante das rotinas
até chegar ao trabalho e depois do trabalho, implica encarar que a regularidade
ajuda a promover a produtividade e o bem-estar.
Silêncio e Solitude. O silêncio e a solitude valorizados em muitas
tradições monásticas parecem ser impossíveis de viver num mundo urbanizado e
conectado. Porém, apesar do ruído e multidão exterior, nada nos impede de
encontrar o momento para o silêncio e solitude no nosso interior. Nem que seja a
olhar para o chão do transporte público que nos leva para casa e deixar os
pensamentos vaguear pela mente.
Estudo Contínuo. Muitas tradições monásticas valorizam o estudo
contínuo, seja de textos religiosos, filosofia ou outros campos de
conhecimento. Na sociedade da informação, aprender ao longo da vida é uma
possibilidade acessível a todos. Basta crescer na sabedoria de distinguir facto
de ficção.
Consciência e Respeito pela Natureza. O fumo dos carros e o ruído de fundo que somente nos
damos conta quando saímos da cidade pode dificultar a tomada maior consciência
da ligação que temos com o mundo natural, de modo a respeitá-lo e contemplá-lo.
Procurar coisas novas e naturais pode ser o primeiro passo para descobrir a
presença da Natureza onde menos esperamos, criando momentos de aproximação
dessa que podem suscitar mais momentos de criatividade espiritual inesperada.
Miguel Panão, professor universitário, em Além-Mar
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