“O amor de Cristo absorve-nos e impele-nos» (2 Cor 5, 14) - 14 conclusões das Jornadas Missionárias Nacionais
As Jornadas Missionárias Nacionais de 2023, as
primeiras depois do interregno causado pela pandemia de Covid-19, e do grande
acontecimento eclesial da Jornada Mundial da Juventude, Lisboa 2023, tiveram
lugar em Fátima, nos dias 23 e 24 de Setembro 2023.
A partir do tema da mensagem do Papa para
o Dia Mundial das Missões, «Corações ardentes, pés ao caminho» (cf. Lucas
24, 13-35), partilhámos experiências de vida e dinâmicas pastorais e missionárias
que têm contribuído para dinamizar paróquias, comunidades e grupos.
As cerca de 100 pessoas presentes tiveram
a oportunidade de refletir sobre o modo como alguns leigos, religiosos e sacerdotes
são missão – no voluntariado missionário em Portugal e no sul do mundo, nas
periferias das nossas cidades e em situações de exclusão, como trabalham para o
despertar da fé na catequese, na escola e na pastoral juvenil – e de se deixarem
inspirar como discípulos missionários de Jesus.
Algumas das ideias-força que emergiram no
decorrer dos trabalhos:
1. Observar e compreender a dinâmica
missionária das primeiras comunidades cristãs é fundamental para orientar e
fortalecer a missão da Igreja hoje, a nossa missão. Nos escritos ligados a
Lucas e Paulo, que constituem mais da metade do Novo Testamento, encontramos a
inquestionável centralidade de Jesus na missão dos primeiros cristãos. Com
Cristo como centro, o missionário é aquele que caminha. ‘Caminhar’ e ‘caminhar
com’ caracterizam todo o discípulo-missionário. Neste caminhar, é indispensável
uma abertura à surpresa.
2. No Livro dos Actos dos Apóstolos,
observamos como os primeiros cristãos se esforçaram para se adaptar e
conectar-se o máximo possível à realidade. Neste sentido, Paulo procurou anunciar
Cristo em várias Sinagogas (Act 9, 20; 13, 5; 14, 1; 17, 1-2...).
3. Ao lermos as suas próprias cartas,
vemos que Paulo se apresenta como missionário de Cristo para os gentios. A
ênfase numa missão colaborativa é uma constante nas suas cartas. Há muitos
nomes de comunidades, famílias e pessoas que fizeram parte da rede missionária
de Paulo. A memória e a imitação tornaram-se elementos essenciais na dinâmica
missionária das primeiras comunidades (1 Ts 1, 6; 1 Cor 11, 1.23-26).
Tal como no batimento do próprio coração (sístole e diástole), o amor de Cristo
nos absorve/constrange/abraça e nos impele (2 Cor 5, 14).
4. Sente-se a necessidade de ir além da pastoral
de manutenção e encontrar novos caminhos para chegar a quem está fora ou mais afastado
e àqueles que, estando dentro, não fizeram verdadeiramente a experiência de
Cristo. Entre outros métodos, o Projecto Alpha (https://paroquiapacodearcos.pt/projeto-alpha/)
é um método de evangelização/primeiro anúncio, que ajuda as pessoas a organizar
a sua vida a partir da fé e a criar uma cultura paroquial de acolhimento,
comunhão, participação e missão.
5. O contributo que nos chega da missão ‘ad
gentes’ – de grandes distâncias e reduzido clero – desafia-nos a mudarmos a
nossa organização pastoral e a envolver mais os leigos na pastoral.
6. As periferias geográficas, socais e
existenciais estão a crescer. O segredo do trabalho nos bairros degradados e nas
situações de fronteira é deixar-se conduzir pelo Espírito, de modo a buscar
novas formas de presença e “ser surfistas do amor nas ondas que nos desafiam”.
7. As experiências de voluntariado –
testemunhado por pessoas e famílias missionárias em Portugal e no estrangeiro,
que tiveram a coragem de “substituir os medos pelos sonhos”, como nos exortou o
Papa Francisco durante a JMJ – fez experimentar que é mais aquilo que se recebe
do que aquilo que se dá.
8. As aulas de Educação Moral e Religiosa
Católica (EMRC) são laboratórios de ecumenismo e de diálogo inter-religioso e um
lugar onde os alunos podem ser eles mesmos e despertar para a fé, através do vínculo,
da busca de sentido e da beleza.
9. A catequese deve transmitir a mensagem
da Igreja e ajudar as crianças e adolescentes a apropriar-se dela. Por isso, é importante
a ligação entre os conteúdos que se comunicam (ensino teórico) e a participação
progressiva na comunidade cristã local e na sua missão, de modo que as crianças
cresçam no discernimento vocacional e no discipulado missionário.
10. A pastoral juvenil deve contribuir para
que os jovens cresçam na fé e na espiritualidade. Eis propostas e dinâmicas que
podem ajudar a alcançar esse objectivo: testemunhos inspiradores, retiros
espirituais (com novas linguagens), grupos de estudo da Bíblia, envolvimento em
serviço comunitário, adoração e louvor, dinâmicas de grupo, acompanhamento e aconselhamento,
missões e viagens de solidariedade, debates e discussões e celebrações e
festividades. Frequentemente, porém, há uma inversão da ordem destas prioridades.
11. A missão é um dom de Deus, que
descobrimos no encontro pessoal com Jesus. Sem oração não há missão. E missão é
estar com as pessoas, fazer comunidade e ser testemunhas de esperança, mesmo
quando não se pode fazer muito. Pelo menos, podemos dedicar-nos à “pastoral do estar
e do escutar”.
12. Somos colaboradores na Missão
universal que é de Deus e que Ele está a realizar na história. Cristo ressuscitado
não só nos acompanha, como nos precede, de acordo com a nossa experiência missionária.
Ele já está presente e activo nas pessoas e nos ambientes a quem somos
enviados.
13. Em Cristo, Deus não deu uma missão à
Igreja, Deus deu a Igreja à Missão, como comunidade que colabora na realização
do Seu Plano para toda a Humanidade. A colaboração da Igreja na Missão de Deus
é uma colaboração sinodal. Cada grupo, cada comunidade de discípulos, cada Igreja
Local participa à sua maneira e segundo o seu ritmo na missão universal.
14. Os missionários e missionárias enviados
‘ad gentes’, como Barnabé e Paulo, a fundar comunidades onde o Evangelho
ainda não é conhecido, devem contar com o apoio das comunidades que os
enviaram. Ao regressarem, os missionários são um recurso precioso para a
renovação das comunidades que os enviaram. Eles/as ajudam as comunidades a
renovarem-se seguindo o ‘paradigma missionário’.
Comentários
Enviar um comentário