«A vida dos santos é o documento mais vivo da forma como a mensagem de Jesus se traduz na vida concreta das pessoas»

Homilia do Padre Rodolfo Miguel Fernandes da Costa Albuquerque,
São Pedro de Lourosa, Oliveira do Hospital,
1 de novembro de 2023

Irmãos e irmãs: celebramos a Solenidade de todos os Santos. Comemoramos também, ao longo deste ano, os 1111 anos da igreja da Cadeira de São Pedro de Lourosa. Vivenciamos um acontecimento relevante da história da Fé Cristã e da história de Portugal.

Agradecemos a Deus pela graça da fé que concedeu aos nossos antepassados e pelo testemunho vivo que nos legaram, bem presente nas comunidades cristãs que formamos e simbolizado nas pedras desta igreja milenar. As comemorações dos 1111 anos da fundação da igreja moçárabe de Lourosa, levam-nos ao encontro dos fundamentos da fé cristã, alicerçada em Cristo Pedra Angular e testemunhada por Pedro, o Apóstolo ao qual é dedicado este templo e aquele a quem Jesus chamou e deu o nome de Cefas.

Ao olhar para este templo cristão, cheio das marcas dos longos tempos passados, contemplamos os elementos fundamentais da nossa identidade, que corremos o risco de menosprezar ou mesmo de perder. A nossa identidade fica incompleta sem a referência à fé cristã e aos valores de que é portadora, pois fazem parte de uma história que não podemos apagar e que fez de nós o povo que agora somos.

A celebração de todos os Santos da Igreja de Deus assume um carácter de proposta. Sim, a santidade é possível! De facto, o Catecismo da Igreja Católica define os santos como modelos e intercessores da Igreja. Talvez tenhamos mais presente esta última característica, na medida em que a devoção nos leva a pedir alguma graça por intermédio de determinado santo.

Mas não nos esqueçamos que, sendo eles os que vieram da grande tribulação, os que lavaram as túnicas e as branquearam no sangue do cordeiro, definem-se por uma relação singular com Jesus Cristo, o Cordeiro Imolado, constituindo um belíssimo exemplo da forma como atravessamos as tribulações deste mundo e como deixamos que Deus plasme a nossa vida à imagem de Jesus Cristo.

Os santos são a afirmação de que viver a fé em cada tempo, é possível... vejamos os 1111 anos desta igreja de Lourosa, em funcionamento praticamente ininterrupto ... tanta história, tantos momentos bons e menos bons, na Igreja e no mundo... tantos santos ao longo destes séculos que deram e dão o seu testemunho... a Igreja permanece... não digamos que hoje é mais difícil. Aprendamos com os santos que nos precederam e enfrentaram as dificuldades próprias do seu tempo.

Ao contemplarmos os santos vemos pessoas concretas que foram capazes de inserir o Evangelho na cultura do seu tempo, o que demonstra que a vivência do Evangelho não é meramente teórica, mas real e experiencial, sendo a vida dos santos o documento mais vivo da forma como a mensagem de Jesus se traduz na vida concreta das pessoas.

Precisamos de pedir ao Senhor que nos dê a firmeza da fé, que animou os construtores desta igreja. Precisamos de passar da tradição à convicção; das manifestações religiosas e culturais de matriz cristã à fé viva; das igrejas, porventura antigas e belas, às comunidades ou Igrejas de pessoas, pedras vivas.

«Alegrai-vos e exultai, porque é grande nos Céus a vossa recompensa». Este júbilo é possível, quando se considera a vida como um todo, em que a provação e a morte não marcam o fim de tudo, mas virá ainda o tempo da recompensa, da vida nos Céus, junto de Deus, em que seremos semelhantes a Deus, porque O veremos tal como Ele é.

Hoje, como ontem, ainda existem pessoas boas, de coração bom e puro, (de coração feito de céu limpo)... é a santidade «ao pé da porta», daqueles que vivem perto de nós e são um reflexo da presença de Deus. É ver a santidade no povo paciente de Deus: nos pais que criam os seus filhos com tanto amor e dificuldade, nos homens e mulheres que trabalham a fim de trazer o pão para casa, nos doentes, nos idosos que continuam a sorrir, daqueles que tratam dos doentes ou idosos nos hospitais e nos lares. Que belo reflexo da presença de Deus. Que vidas bem-aventuradas! Os bem-aventurados são como pioneiros, aqueles que abrem caminhos novos e bons e de vida nova e boa para o mundo.

Foram e continuam a ser os Santos e os Pobres os que verdadeiramente abrem caminhos novos neste mundo. E precisamos, urgentemente, de caminhos de paz. Bem-aventurados os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus. O Santo Padre convida-nos a gritar e a lutar pela paz: «Que se ouça o grito de paz dos povos, das pessoas, das crianças! A guerra não resolve nenhum problema, apenas semeia a morte e a destruição, aumenta o ódio e multiplica a vingança. A guerra anula o futuro.»

Para terminar, como é tradição, nestes dias, assistimos a uma procissão de gente a caminho dos cemitérios para recordar os entes queridos que já partiram. A Igreja chama-lhes “fiéis defuntos”, porque viveram neste mundo na fidelidade à própria vocação. São os santos da nossa família.

Levando flores aos nossos parentes e amigos e com elas uma pequena oração, chave de comunhão com Deus e com eles, não nos esqueçamos de tantos e tantas que não têm quem reze por eles.

A morte continua a causar pavor. Sentimos dificuldade em imaginar que as nossas atividades quotidianas, a nossa forma de marcar o mundo e a história poderão ter fim. Sentimos que quem morre nos morre. Há mas e porquês que permanecem. Temos de aprender a conviver com a morte... a verdade é que nestes momentos, lidamos mal com as palavras; só ouvimos a desolação interior e as palavras que vêm de fora estão, muitas vezes, gastas. Falam-nos mais os gestos e a presença demorada.

Só sentimos a partida dos que nos morrem na medida em que os amámos. As lágrimas são-nos necessárias para que a dor não nos sufoque. Precisamos de chorar. Temos razões para o fazer porque sofremos com a perda de um amor que cultivámos, cuidámos, construímos e é parte de nós.

Em torno dos que nos morrem, há um silêncio que nos chama para mais perto da Vida... e a Saudade é infinita.

Não nos esqueçamos que a nossa confiança ou esperança tem nome de ressurreição e garantia de pessoa: Jesus Cristo. «Para os que creem em Vós, Senhor, a vida não acaba, apenas se transforma; e, desfeita a morada deste exílio terrestre, adquirimos no céu uma habitação eterna».

Celebremos e valorizemos a Vida... apesar de as folhas caírem, as árvores também chorarem, e de verificarmos que a nossa vida é muito breve e frágil, assiste-nos, Senhor, com a tua bondade e ternura, faz-nos sentir a alegria da Tua presença carinhosa, e senta-nos à mesa da certeza da tua salvação.
Ámen.

Comentários

  1. Uma homilia muito rica muito bela com uma profundidade infinita! Maria Jose

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  2. Gosteimuito de toda a homilia mas, principalmente, do oitavo parágrafo! É bom refletir nele.

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