A nossa incapacidade para adorar a Deus

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Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus (Mt 2, 1-12): «Tinha Jesus nascido em Belém da Judeia, nos dias do rei Herodes, quando chegaram a Jerusalém uns Magos vindos do Oriente. "Onde está – perguntaram eles – o rei dos judeus que acaba de nascer? Nós vimos a sua estrela no Oriente e viemos adorá-l’O.".»

A nossa incapacidade para adorar a Deus
O homem de hoje ficou em grande medida atrofiado para descobrir Deus. Não é que seja ateu. É que se tornou «incapaz de Deus». Quando um homem ou uma mulher só procura ou conhece o amor sob formas decadentes, quando a sua vida está movida exclusivamente por interesses egoístas de benefício ou ganho, algo se seca no seu coração.

Muitos vivem hoje um estilo de vida que os esmaga e empobrece. Envelhecidos prematuramente, endurecidos por dentro, sem capacidade de se abrir a Deus por nenhum resquício da sua existência, caminham pela vida sem a companhia interior de ninguém.

O teólogo Alfred Delp, executado pelos nazis, via neste «endurecimento interior» o maior perigo para o homem moderno: «Assim, o homem deixa de levantar, para as estrelas, as mãos do seu ser. A incapacidade do homem de hoje para adorar, amar e venerar tem a sua causa na sua desmedida ambição e no endurecimento da sua existência».

Esta incapacidade de adorar Deus também tomou conta de muitos crentes, que procuram apenas um «Deus útil». Só lhes interessa um Deus que sirva os seus projetos individualistas. Deus fica assim convertido num «artigo de consumo» de que se dispõem segundo as nossas conveniências e interesses. Mas Deus é outra coisa. Deus é Amor Infinito, encarnado na nossa própria existência. E, ante esse Deus, o primeiro é a adoração, o júbilo, a ação de graças.

Quando se esquece isto, o cristianismo corre o risco de se converter num gigantesco esforço de humanização, e a Igreja numa instituição sempre tensa, sempre sobrecarregada, sempre com a sensação de não conseguir o êxito moral pelo qual luta e se esforça.

No entanto, a fé cristã é, antes de mais nada, a descoberta da bondade de Deus, experiência grata de que só Ele salva: o gesto dos Reis Magos perante a Menino de Belém expressa a atitude primeira de todo o crente diante de Deus feito homem.

Deus existe. Está aí, no fundo da nossa vida. Somos acolhidos por ele. Não estamos perdidos no meio do universo. Podemos viver com confiança. Diante de um Deus de que só sabemos que é Amor, não há lugar senão à alegria, a adoração e à acção de graças. Por isso, «quando um cristão pensa que já nem sequer é capaz de rezar, devia ter pelo menos alegria» (Ladislao Boros).

José Antonio Pagola, em Grupos de Jesus

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