É concebível para nós um cristianismo sem sacrifício? Ou
seja, sem a morte sacralizada de algo ou alguém para obter um bem, um perdão,
uma salvação? Parece que não, que não é possível.
Texto de Enrico Peyretti,
teólogo, ativista italiano, padre casado, em Il Foglio.
Uma imagem amplamente difundida da religião de Cristo pede-nos que
estejamos na cruz com Ele, como preço por ter a vida. Cristo é o homem da
cruz, e as cruzes da vida, quer venham, quer as assumamos por nossa conta, como
um cilício, pareceram o único caminho para a salvação. As “mortificações”,
“atos de morte” voluntários, são indicados como caminho de aperfeiçoamento,
para obter os bens da nova vida. Num nível monstruoso, num Islão mal-entendido,
o sacrifício violento, até de si mesmo, contra os "inimigos de Deus",
é o acesso ao paraíso.
A ambiguidade em torno do conceito de «sacrifício»
É evidente uma forte ambiguidade do termo e do conceito de
“sacrifício”. Vamos pensar nos sacrifícios religioso de animais, ou mesmo de
seres humanos, nas religiões primitivas, mas também presentes na Bíblia.
Por um lado, graças à morte de outros, de um “bode
expiatório”, carregado com os meus pecados, ganho para mim a libertação da
culpa.
Mas chamamos sacrifício também aquele de quem expõe e perde
a sua própria vida para salvar outra vida, do fogo ou da água: ele se
“sacrificou” por outros.
Ou seja, aqui estão duas ações de significado radicalmente
oposto:
- destruir a vida de outra pessoa para salvar a minha;
- doar a minha vida para salvar a vida de outra pessoa.
Será necessário superar esse equívoco no pensamento
religioso!
Sacrifício cristão é negar?
Em particular, perguntamos: o cristianismo é negar e
destruir aspetos da nossa vida humana natural, para adquirir a vida em Cristo?
Ou é Deus Pai que em Cristo nos procura, nos acolhe, nos liberta, doando toda a
sua vida por plena fidelidade ao seu amor por nós?
O sacrifício de Jesus na cruz é sacrifício mortal da melhor
pessoa humana, o preço para apaziguar a ira de Deus contra o nosso pecado? Ou é
a oferta de si mesmo, até ao fim (“amou-os até ao fim”, Jo 13,1), até dar a
vida ("não há amor maior...", Jo 15,13), oferta gratuita que o Justo
faz para nos salvar de mal, comunicando-nos o novo sopro do Espírito de Deus,
assim como o corajoso dá novo sopro a quem está prestes a se afogar ou morrer
no fogo?
Sacrifício cristão é «oferecer-se até o fim, para apagar
o mal com o amor»
Jesus é aquele corajoso. Se entendermos bem o evangelho, a
cruz de Jesus não é o preço pago por nós a um Deus implacável, que não seria um
Pai bom. Pelo contrário, é o sinal de que Deus é amor, porque assumiu carne
humana em Jesus e ofereceu-a até o fim, para apagar o mal com o amor. O caminho
cristão não é “o que é tirado da terra para dá-lo ao céu" (Nietzsche),
mas, pelo contrário, é o que Deus perde para doar a nós. Mas também mostra que
doar não é perder, mas afirmar vida verdadeira.
A cruz de Jesus é solidariedade connosco
A cruz de Jesus é a sua total imersão na solidariedade connosco,
com todas as vítimas da nossa maldade, injustiças, discriminação, violências e
guerras. E connosco, culpados, para nos curar. Ele mergulhou nos redemoinhos
dos afogados para nos levar da morte para a vida. A sua morte não é o fracasso
de um generoso ingénuo e iludido, mas é a força do amor que assume a condição
dos mais pobres, e até dos culpados que somos nós ("tornou pecado", 2
Cor 5,21, condenado entre os malfeitores). A sua morte é como aquela de alguém
que se afoga para salvar um outro, mas na realidade, está vivo com ele, mais do
que aqueles que nada fazem pelo necessitado.
Uma teologia do sacrifício
No livro do Génesis o homem, depois do pecado, é expulso do
paraíso.
No Prólogo do Evangelho de João (Jo 1, 11), lemos que é o
próprio Deus em Cristo quem é expulso de nós, do mundo; que se deixa expulsar,
invertendo o mito da expulsão (cf. Paola Mancinelli, p. 145).
Deus, a sua Palavra e o a sua Luz “veio para o que era seu,
e os seus não o receberam”, condenaram-no. Cristo é sacrificado por nós, e esse
é o fim de todos os sacrifícios (René Girard), agora já todos indignos.
É o amor que extingue o pecado
Cristo não pede outros sacrifícios, porque fez o dom de si
mesmo, que os torna inúteis, vãos, maus. Pede para estar com ele no amor também
aos pecadores, porque é o amor que extingue o pecado. Não é um nosso sacrifício
que nos purifica do pecado, mas somente o ato de acolher e praticar o amor que
perdoa e cria: “Façam o bem aos que os odeiam” (Lucas 6, 27).
O sacrifício de Jesus não é um sacrifício de morte, para
matar o mal, como a guerra absurdamente quer fazer. É um dom total de si mesmo,
que cobre e submerge o mal. Só o bem tira o mal. Jesus sofre a cruz, mas da
cruz ama a todos, perdoa, comunica o amor que salva, que dá vida.
“Vem mesmo a hora em que qualquer que vos matar cuidará
fazer um serviço a Deus” (Jo 16,2). O mundo quer matar o mal, em nome de Deus,
e assim duplica o mal. A vingança pela violência afirma e duplica a violência:
a guerra “justificada” (privada ou estatal), que abusa da justiça, é essa
diabólica divindade. Vemos isso de novo, hoje em dia, com horror.
«O amor que se doa, mesmo morrendo, é uma vida mais forte
que a morte»
Jesus não é um fracassado, porque o amor com que morre é
mais vivo do que todas as pretensões de verdade e de justiça, nas míseras conceções
humanas. É por isso que os cristãos acreditam que Jesus é o vivente sobre a
morte através da morte, porque o amor que se doa, mesmo morrendo, é uma vida
mais forte que a morte. Não há mais necessidade nem espaço para “mortes
sagradas”, isto é, obrigatórias, justas, vingadoras, purificadoras, fundadoras,
porque o “santo”, aquele que ama até o dom total, não tem aquela tremenda
ambiguidade do “sagrado”, da qual as religiões, as ideologias, as civilizações
soberbas, terão de se salvar, se libertar.
Realmente sagrado é o que há de santo nas pessoas, isto é, o
amor universal, sem “justiças” sacrificiais.

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