1. Em termos cristãos e eclesiais, qualquer dinâmica
pastoral ou mensagem pastoral digna deste nome tem de ter sempre como trampolim
a Palavra de Deus recolhida na Escritura Santa, que traz até nós o testemunho
rendilhado da mão de Deus na nossa vida, nas nossas mãos, no nosso rosto, no
nosso coração, no nosso sangue, na nossa cultura, na nossa linguagem, no nosso
quotidiano.
2. É assim que chega até nós a atestação de que «Deus é
amor» (1 João 4, 8.16) e «nos amou primeiro» (1 João 4, 19). Considerando o
mundo cultural de Platão e Aristóteles, dizer que Deus ama é entrar no domínio
do absurdo, pois, segundo este tipo de pensamento, Deus pode ser amado, mas não
amar. E dizer agora que Deus ama primeiro, é afirmar que Deus ama
gratuitamente, com um amor gratuito e descensional, o que significa ainda que a
razão do amor de Deus reside em Deus, e não naqueles sobre quem recai o seu
amor. Entenda-se semelhante paradoxo: o infinito caudal do amor que há em Deus,
e de Deus brota, é sem retorno, não existe em ordem à sua autorrealização ou
autossatisfação mediante a escolha dos destinatários desse amor entre os mais
belos, os mais ricos, os mais amáveis (que é o horizonte em que o nosso mundo
se movimenta), mas procura a felicidade de todos, sobretudo dos mais pobres,
necessitados e fracos, e alarga-se aos estrangeiros e inimigos.
3. Se é assim, se «Deus é amor» (1 João 4, 8.16), e «nos
amou primeiro» (1 João 4, 19), a toada do amor que há em nós «vem de Deus» (1
João 4, 7), e «nós amamos, porque Deus nos amou primeiro» (1 João 4, 19). Então,
o amor que está aqui, o amor que está aí, o amor que está em mim, o amor que
está em ti, o amor que está em nós, «vem de Deus» (1 João 4, 7), e «quem ama
nasceu de Deus» (1 João 4, 7) e «de Deus foi gerado» (João 1, 13).
Deus amou-nos
primeiro, ama-nos e continua a amar-nos sempre primeiro com amor-perfeito, isto
é, amor preveniente, concomitante, fiel, consequente, permanente. Ama-nos a
nós, que estamos aqui, e foi assim que nós começámos a amar. Se não tivéssemos
sido amados primeiro, e não tivéssemos recebido o testemunho do amor, não
teríamos começado a amar, e nem sequer estaríamos aqui, porque «quem não ama,
permanece na morte» (1 João 3, 14).
Portanto, quem não ama vai em sentido
contrário, ou em sentido nenhum, sem sentido, atraído, fascinado e seduzido
pela morte (cf. Sabedoria 1, 16; 15, 6), escolhendo a morte em detrimento da vida
(cf. Deuteronómio 30, 19). Significa isto que a morte a que aqui se refere a
Escritura Santa não é apenas o termo da vida biológica ou psicobiológica, mas
aquilo que, desde o começo, impede de nascer para a vida verdadeira e para o
amor.
E o que é que te impede de nascer para a vida verdadeira e para o amor? É
seguramente o que te impede de amar, de sair de ti, da tua prisão interior,
cela interior, autossuficiência, autorreferência, tu, encadeado pelas leis da
natureza, ao mesmo tempo dono e escravo de ti mesmo, pura idolatria, opressão
maior do que a do Egito, que também impedia de nascer (Êxodo 1, 16.22).
4. A tartaruga acaba de deixar o seu esconderijo para um
passeio noturno. O sapo vê-a sair de casa àquela hora, e adverte-a: «A esta
hora não é muito aconselhável sair, tartaruga». Mas a tartaruga continua, e,
arriscando um passo mais longo, vê-se virada de patas para o ar, sobre a sua
própria couraça. O sapo exclama: «Eu bem te avisei, tartaruga; é uma
imprudência sair a esta hora; morrerás aí!». «Bem sei», respondeu a tartaruga
com um olhar entre a malícia e a delícia; «Bem sei, mas é a primeira vez que estou
a ver o céu estrelado!». A tartaruga ensina que não nos podemos contentar em
viver mais ou menos tranquilamente com a cabeça enterrada na areia do céu ou da
terra.
5. Sair de casa como a tartaruga, extasiar-se e desviar-se
do caminho como Moisés para ver a visão grande e nova daquela sarça que ardia,
mas não se consumia (Êxodo 3, 2-3), ouvir a voz daquela chama que chama (Êxodo
3, 4)! Aí está a maravilha que nos excede, que nos acende os olhos e o coração.
Por isso, cantamos; por isso, contamos; por isso, repetimos e trauteamos, não
por monotonia, nem por mera pedagogia, mas porque a maravilha reclama a poesia.
Bem sabemos, de resto, que a humanidade não está destinada a morrer por falta
de conhecimento, mas por falta de assombro e de maravilha. O mundo que
atravessamos parece todo escuro, desencantado, sem Deus e sem profetas, sem
amor, sem pais nem mães, filhos e irmãos, sem namorados. Só com armas e
soldados!
6. É preciso urgentemente trazer de volta a Palavra de Deus:
«Tu és bela, minha amada,/ terrível como um exército em ordem de batalha»
(Cântico dos Cânticos 6, 4), que não nos deixa na presença de um amor banal, de
plástico, de bolso, enlatado, mas de um amor que faz estremecer e implica o
risco de morrer. O amor verdadeiro é agónico. Implica luta, porque implica
decisões a todo o momento. Quando o amor não é agónico, então é egoísta. E,
sintomaticamente, no mundo bíblico, a nascente do mal não reside na paixão, no
coração que bate forte, mas no coração duro, empedernido, empedrado,
esclerosado, um «coração de pedra», oxímoro vertiginoso que o profeta Ezequiel
usou para classificar o coração empedernido e embotado de Israel (Ezequiel
36, 26).
7. Habitados por um coração de pedra! Alles in Ordnung
[«tudo em ordem»] pode dizer-se apenas das lápides no cemitério! Se o
matrimónio é indissolúvel, não é porque a lei de Deus proíba de o romper, mas
porque o amor é fiel eternamente. Amar não é só estar apaixonado. Estar
apaixonado não significa necessariamente amar. Estar apaixonado é um estado;
amar é um ato. Sofre-se um estado; decide-se um ato. É, por isso, que o Deus da
Escritura manda amar.
Se amar fosse simplesmente apaixonar-se, tal mandamento
seria um absurdo, pois ninguém pode exigir a alguém que se apaixone. Amar é uma
sucessão de atos em cadeia: uma guerra, portanto. Não é por acaso que agápê
(amor) e agôn (luta) podem ter a mesma etimologia. Paradoxo do amor, que é uma
luta, a luta do amor, do amor novo, que não é contra ninguém, mas a favor de
todos: o amor faz-te feliz, matando-te! Quanto mais amas, lutas, e te matas a
amar, mais te encontras: «Quem quiser salvar a sua vida, perdê-la-á; ao
contrário, quem perder a sua vida por causa de mim, salvá-la-á» (Lucas 9, 24).
Aí está o verdadeiro ícone do amor, Jesus Cristo, que não se salvou a si mesmo
para me salvar a mim e a ti.
8. Atravessamos hoje uma cultura solipsista e narcisista,
que traz consigo, como obsessão dominante, viver cada um no seu naco de tempo e
para si mesmo, descurando quer as gerações precedentes quer as seguintes,
verificando-se assim uma acentuada perda de sentido de integração numa sucessão
de gerações, numa família, numa comunidade, numa Igreja, valorizando-se em vez
disso cada vez mais o sacrossanto direito de cada um à sua própria realização
pessoal, sem implicar compromissos. Na verdade, vendo bem, estamos rodeados de
homens e mulheres que se recusam a tornar-se adultos, e, por isso, negligenciam
a tarefa mais importante de um adulto, que é preparar a nova geração para poder
assumir o seu lugar no mundo.
9. Sede felizes, jovens enamorados! Acolhei o amor de Deus,
e, no meio de tantas guerras, empenhai-vos vós na guerra do amor!
Comissão Episcopal do Laicado e Família: https://leigos.pt

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