O Evangelista Lucas, ao apresentar a jovem Maria que recebe
do Anjo Gabriel o anúncio do nascimento do Filho de Deus, regista que ela fica a
saber que a sua prima Isabel, já idosa, está grávida, «porque nada é impossível
a Deus» (Lucas 1, 26-56).
Texto: Ana Maria Casarotti, missionária de Cristo Ressuscitado,
em Unisinos
Uma longa jornada percorrida pelo desejo de encontrar
O Evangelho diz, logo a seguir, que Maria partiu apressadamente para a
região montanhosa, que era um dos três caminhos possíveis para chegar à cidade
da Judeia onde Isabel morava. É uma longa jornada, de 150 km, que Maria,
recém-grávida, empreende. Com a alegria do Espírito, que também havia agido
nela, Maria partiu com o desejo de encontrar, abraçar, estar ao lado de alguém
querido e ajudá-la nesse momento especial.
Lucas apresenta a vida em movimento
Lucas, que é historiador, apresenta-nos nestes breves trechos
do seu Evangelho a vida em movimento: uma mulher grávida que vai ao encontro da
sua prima, também grávida, para desfrutarem juntas desse dom de Deus: a vida
que nasce em seus ventres.
Assim acontece nos dias de hoje
Quantas mulheres também viajam pelas cidades atualmente para
dar aos seus filhos uma melhor qualidade de vida, para cuidar de um parente que
precisa de ajuda, para consolar ou para comemorar um presente recebido, como
fez Maria.
O humano e o transcendente em Maria e José
Maria morava em Nazaré, numa pequena cidade onde as notícias
se espalham rapidamente. Podemos pensar na surpresa de José com a decisão de
Maria de visitar a prima; talvez também, nos seus temores quanto à insegurança
da longa viagem, na sua preocupação com a criança que a sua noiva carregava no
ventre.
Como acontece hoje, José terá recebido vários conselhos,
alguns a encorajar a viagem e possivelmente outros a sugerir que ela deveria
desistir.
Às vezes é difícil, por causa da interpretação
"transcendente" que é inerente à leitura de cada relato do Evangelho,
pensar em Maria como uma jovem grávida que teve medo, insegurança; e o mesmo se
passou com José.
O realmente transcendente é que a iniciativa de Maria partir
para visitar a prima vem de outro lugar: do mesmo Espírito a quem ela respondeu:
«Faça-se em mim a tua vontade.» É Deus o protagonista em ação na simplicidade de
Maria, que não fica a pensar na longa viagem que terá de fazer ou em possíveis
sugestões para desistir, mas encaminha-se imediatamente para a Judeia.
Isso é o que acontece com as jovens mães que deixam sua
terra natal em busca de melhores condições, elas não sabem muito sobre onde
ficar, nem o que farão no caminho, mas empreendem a jornada com alegria,
olhando para a meta desejada.
O empolgante da jornada de Maria é que o Espírito Santo estava
a moldar o coração dela e Maria aprendeu progressivamente a reconhecer a presença
de Deus no ambiente, nas pessoas que encontrava, na própria jornada, nos
desafios que encontrava.
Uma alegria que contagia, que se expande
Maria entrou na casa de Zacarias e cumprimentou Isabel.
Quando Isabel ouviu a saudação de Maria, a criança pulou no seu ventre e Isabel
ficou cheia do Espírito Santo.
Maria é portadora de uma alegria que contagia, que se
expande, que Isabel acolhe com profunda emoção. Maria, portadora do Evangelho
de Jesus que carrega em seu ventre, comunica-O na sua saudação. Duas mulheres
protagonistas da Boa Notícia que é transmitida pela palavra alegre e cordial!
E, desse modo, Maria convida-nos a sermos portadores da vida
que contagia com a alegria da libertação que ela traz. Uma liberdade que se
constrói com esforço e luta diária, para criar experiências em que os humildes
e simples sentem a presença de Deus e se sentem em casa.
Reconhecendo Deus presente e o modo de agir de Deus, Maria convida-nos
a não baixar os braços. No seu cântico «Magnificat», ela revela-nos que Deus
não é passivo diante da dor e do sofrimento gerados pelo orgulho, pela ambição
e pelo poder de alguns, mas chama-nos a construir uma sociedade mais justa que
reflita cada vez mais o coração e o desejo de Deus. O Magnificat que
somos convidados a cantar com as nossas vidas e ações diz assim: «Derrubou do
trono os poderosos e elevou os humildes. Encheu de bens os famintos, e despediu
os ricos de mãos vazias.»
Como cristãos, não podemos ficar indiferentes às injustiças
que nos cercam. O Magnificat é uma canção revolucionária que convida a
uma autêntica libertação! Não é um cântico de resignação ou de espera passiva
por mudanças e intervenções divinas em favor dos pobres, dos famintos e dos
humilhados, como se isso dependesse de Deus, mas é um cântico que nos chama à
ação de sair, como Maria apressadamente, para ir ao encontro dos necessitados.
Que este cântico revolucionário de Maria seja reflexo da nossa vida e da
nossa comunidade:
«O Todo-poderoso fez em mim maravilhas.
Santo é o seu nome.
A sua misericórdia se estende de geração em geração sobre
aqueles que o temem.
Manifestou o poder do seu braço e dispersou os soberbos.
Derrubou os poderosos de seus tronos e exaltou os humildes.
Aos famintos encheu de bens e aos ricos despediu de mãos
vazias.
Acolheu a Israel, seu servo, lembrado da sua misericórdia, como
tinha prometido a nossos pais, a Abraão e à sua descendência, para sempre.»
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