Há no Evangelho um grito de Jesus: «Não separe o homem - com a sua atitude machista - o que Deus uniu» (Marcos 10, 9)

O que mais fazia sofrer as mulheres na Galileia nos anos trinta do século I era a sua submissão total aos homens dentro da família patriarcal. Os maridos podiam inclusivamente repudiá-las em qualquer momento, abandonando-as à sua sorte. Este direito baseava-se, segundo a tradição judaica, em nada menos que a lei de Deus.

Os mestres discutiam os motivos que podiam justificar a decisão do marido. Segundo os seguidores de Shammai, só se podia repudiar a mulher em caso de adultério; segundo Hillel, bastava que a mulher fizesse qualquer coisa «desagradável» aos olhos do marido. Enquanto os doutos homens discutiam, as mulheres não podiam levantar a sua voz para defender os seus direitos.

A pergunta chegou a Jesus (ver Evangelho de Marcos 10, 2-16): «Pode o homem repudiar a sua mulher?» 

A resposta de Jesus desconcertou todos. Segundo Jesus, se o repúdio está na lei, é por causa da «dureza de coração» dos homens e da sua mentalidade machista, mas o projecto original de Deus não foi um casamento “patriarcal” dominado pelos homens.
Deus criou o homem e a mulher para fossem «uma só carne». Ambos são chamados a partilhar o seu amor, a sua intimidade e toda a sua vida, com igual dignidade e em total comunhão. Daí o grito de Jesus: «Não separe o homem o que Deus uniu» com a sua atitude machista.

Deus quer uma vida mais digna, segura e estável para as esposas submetidas e maltratadas pelos homens. Não se pode abençoar uma estrutura que gera superioridade masculina e submissão feminina. Depois de Jesus, nenhum cristão poderá legitimar com o Evangelho qualquer coisa que promova a discriminação, a exclusão ou a submissão das mulheres.

Na mensagem de Jesus há uma pregação dirigida exclusivamente aos homens para que renunciem à sua «dureza de coração» e promovam relações mais justas e igualitárias entre homens e mulheres.
Onde se escuta hoje esta mensagem?
A Igreja hoje chama os homens para esta conversão?
O que estamos a fazer, nós seguidores de Jesus, para rever e mudar comportamentos, hábitos, costumes e leis que vão claramente contra a vontade original de Deus ao criar o homem e a mulher?

José Antonio Pagola, Grupos de Jesus

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