Um dos maiores legados do Papa Francisco à Igreja e à Humanidade é, sem dúvida, o sonho de uma Igreja sinodal: uma Igreja que escuta, discerne e caminha em conjunto. Esse sonho, que atravessou o seu pontificado desde a Evangelii Gaudium, ganhou corpo num processo sinodal global e multiforme, que envolveu todo o Povo de Deus.
E foi
num quarto de hospital, em 11 de Março deste ano, que Francisco lhe deu o seu
último impulso: aprovou um caminho de acompanhamento e avaliação da fase de
implementação, coordenado pela Secretaria-Geral do Sínodo. Um gesto discreto,
mas profético, que sublinha a urgência e a prioridade que Francisco sempre
atribuiu à sinodalidade como forma de ser Igreja no século xxi.
A Secretaria-geral do Sínodo
divulgou na segunda-feira, 7 de julho, o documento já disponível em português: “Pistas para a Fase de Implementaçãodo Sínodo 2025-2028”
O documento faz jus ao
título, apontando uma série de caminhos para que toda a Igreja prossiga o
caminho iniciado por Francisco, mas a sua grande novidade é o anúncio da
criação, por parte de Leão XIV, de mais dois Grupos de Estudo.
Foi também por isso que Francisco não quis apressar o encerramento do
processo: em vez de um documento conclusivo, deixou um itinerário aberto que culminará,
em 2028, com uma inédita Assembleia Eclesial. O objectivo não é apenas avaliar
o caminho percorrido, mas permitir que a própria forma de ser Igreja se vá
transformando à medida que caminha. A sinodalidade não é um método entre
outros: é o estilo de uma Igreja que se sabe povo, corpo, comunhão.
A Leão XIV cabe agora o serviço
de escutar, discernir e animar a recepção deste processo. Não começa do zero:
recebe uma herança viva, feita de escuta, oração, debate, conversão e
esperança. A sua missão poderá ser ajudar a Igreja a passar das palavras às
práticas, das intenções à realidade, da consulta à co-responsabilidade.
O sínodo não terminou. O que
agora começa é a sua recepção.
E esta fase não se escreve em
Roma: escreve-se na vida concreta de cada comunidade. A hora de caminhar juntos
chegou. E não podemos adiar a resposta.
Padre Paulo Terroso,
sacerdote da
arquidiocese de Braga e membro da Comissão de Comunicação do Sínodo,
na revista
Além-Mar de julho-agosto 2025
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