Uma leitura em profundade do Jubileu da Juventude com o Papa Leão XIV em Tor Vergata: quem são estes jovens para a Igreja? O que é a Igreja para estes jovens?

Roma voltou a vibrar e, desta vez, o epicentro foi Tor Vergata: quinhentas mil, um milhão, talvez um milhão e meio de jovens de 146 países de todo o mundo desembarcaram na capital eterna, investindo as suas férias, o seu tempo e até as suas poupanças para o impensável em tempos descrentes: reunir-se em torno de Cristo, cantar a esperança do Evangelho e conectar-se com o Papa Leão XIV, que, aos seus olhos, a encarna hoje, e, com ele, clamar pela paz no mundo. Uma multidão que não se move apenas pelo lazer, pela música ou pelo consumo: move-se — contrariando os profetas do desencanto juvenil — pela fé, pelo sentido da vida e por um ideal que transcende a busca imediata do prazer.
 
Jovens católicos: quem são esses «militantes da esperança»?
São filhos (e netos) daqueles que, há vinte e cinco anos, enchiam Tor Vergata, São João de Latrão ou a Praça de São Pedro nos dias de João Paulo II. Filhos de uma história, mas também protagonistas de uma renovação. Longe da caricatura do jovem apático, estes peregrinos de 2025 optaram por deixar tudo — conforto, praia, rotinas e até as suas férias — para cantar, rezar e sonhar juntos em Roma. E vibram, como não poderia deixar de ser, até fazer tremer a cidade eterna, com cânticos, orações, a Salve Rociera com os seus olés repetidos e testemunhos públicos de fé alegre e desinibida.
 
São jovens para quem o Evangelho continua a ser força e horizonte vital, embora muitas vezes caminhem contra a corrente em sociedades secularizadas. Muitos chegam com crises, dúvidas, feridas: mas procuram. É a geração dos buscadores ou, como dizia o saudoso Papa Francisco, daqueles que «fazem barulho». Não têm vergonha de dizer que acreditam em Jesus, que rezam e que sonham com uma Igreja à altura do ideal samaritano. São rapazes e raparigas que reivindicam valores essenciais: paz, justiça, reconciliação, solidariedade, caridade. Ou seja, o Evangelho em estado puro.
 
O que procuram no papa e o que podem contribuir para a sociedade?
Procuram uma palavra e um gesto que não sejam moralistas nem marketing barato. Querem clareza, coerência, autenticidade. Anseiam pela garra profética de Francisco. Leão XIV, consciente disso, responde com um estilo sóbrio, direto, mais pastoral do que mediático, mais pessoal do que institucional, mas autêntico. Oferece-lhes um lar, um pertencimento, um horizonte de fé viva. Propõe-lhes o Evangelho como caminho real, onde o perdão é possível, onde a Igreja pode voltar a ouvir e a curar, onde a paz e o acolhimento dos descartados não são teoria, mas tarefa.
 
E o que oferecem eles? Juventude com vocação para o serviço, energia, fé sem complexos, alegria e testemunho. Um cristianismo capaz de transformar a rua, a universidade, as redes e o bairro a partir da esperança e da criatividade. A sua proposta é clara: solidariedade contra o individualismo, encontro e reconciliação contra o ódio, alegria contra o vazio, compromisso e caridade contra a indiferença. São protagonistas da «paz desarmada e desarmante» com que sonha Leão XIV, e portadores de uma «revolução da ternura».
 
Igreja sem futuro? O Jubileu desmente o mito
Mais de um milhão de jovens rezando, comungando, confessando-se, ajoelhando-se, dançando, pedindo paz para um mundo em guerra e esperança para os que estão afastados do caminho. É o melhor antídoto contra a profecia do fim da fé. Mesmo após o escândalo dos abusos, continuam confiando na Igreja como referência, embora muitas vezes discordem e queiram reformas. Sabem distinguir entre a mensagem e os seus testemunhos; perdoam o «pecado oculto» do padre adulto, mas execram a hipocrisia e a injustiça. Querem uma Igreja credível, humilde, samaritana, uma Casa onde todos tenham lugar, sobretudo os feridos e os que sofrem.
 
Propostas concretas e valores emergentes

Grupos e comunidades vivas: promovem a pertença a grupos paroquiais, movimentos, comunidades e projetos solidários.
 
Ação social e voluntariado: impulsionam o compromisso no serviço aos pobres, migrantes, refugiados e pessoas em situação de exclusão, com redes de voluntariado internacional.
 
Defesa da paz e integração: lideram campanhas pelo desarmamento, cuidado ambiental e reconciliação entre culturas e religiões.
 
Presença no âmbito digital: evangelizam com naturalidade em redes sociais, podcasts, canais do YouTube, levando a Palavra onde estão os seus contemporâneos. São missionários digitais.
 
Diálogo e busca de sentido: apresentam a fé como uma opção inteligente e adulta, não alienante; formam-se, debatem, leem e crescem criticamente.

Esses jovens, que não têm vergonha de ser católicos, professam valores profundamente humanos e evangélicos: esperança, caridade autêntica, confiança, alegria, capacidade de reconciliação e perdão; sensibilidade pela justiça social e pelos mais fracos; amor pela paz; compromisso com o bem comum; e uma aposta, pessoal e coletiva, pelo futuro.
 
Mais do que uma maré
Tor Vergata não foi — nem será — apenas uma multidão efémera. É o sinal de que a Igreja, com Leão XIV à frente, continua a ter na juventude a sua melhor profecia: uma geração capaz de rezar, cantar, abraçar e comprometer-se. Jovens que escolhem Cristo e o Evangelho como ideal maior no pleno século XXI, desmentindo todos os profetas da debacle, do desencanto e da secularização sem retorno. Há esperança, e a juventude católica traz-a, viva e certa, ao coração de Roma e do mundo.
 
A participação ativa e massiva dos jovens no Jubileu com o Papa Leão XIV em Tor Vergata é, além disso, um reflexo poderoso dos valores e aspirações que pulsam no coração das novas gerações católicas. Diante dos clichés do desencanto ou da superficialidade, estes rapazes e raparigas demonstram que a fé continua a inspirar grandes ideais e profundas buscas de sentido.
 
1. Esperança e sentido de transcendência
Estes jovens apostam na esperança como motor vital num mundo marcado pela incerteza, pela violência e pelo niilismo. A sua presença em Roma — deixando para trás o ócio e as comodidades — revela o anseio por uma vida que tenha significado, orientação e horizonte para além do puro consumo ou da satisfação imediata.
 
2. Fé alegre, sem complexos nem medos
Identificam-se com um cristianismo vivido a partir da alegria, com vontade de cantar, rezar, abraçar e partilhar sem se envergonharem da sua fé. Não têm medo de mostrar publicamente as suas convicções, nem de serem diferentes, porque a sua espiritualidade é comunitária, integradora e profundamente festiva.
 
3. Compromisso solidário e samaritano
O seu Jubileu é também um compromisso concreto com a justiça, a paz e os pobres. Estes jovens encarnam uma Igreja «em saída», que se implica na ação social, no voluntariado, na defesa da dignidade humana, na integração e na reconciliação. São os primeiros a defender que a fé se manifesta em gestos e na entrega quotidiana.
 
4. Busca de autenticidade e coerência
Eles reclamam uma Igreja credível, humilde e transparente. Não procuram líderes perfeitos, mas pastores autênticos e comunidades reais onde o acolhimento, o perdão e a misericórdia não sejam apenas teorias. Sonham com uma Igreja que escuta, aprende com os seus erros e está disposta a renovar-se. Uma Igreja que não dá sermões nem distribui moralismo barato.
 
5. Desejo de pertença e comunidade
Muitos desses jovens procuram um lar espiritual, uma família de fé onde sejam acolhidos tal como são, com as suas perguntas, feridas e feitos. O Jubileu é a experiência concreta dessa fraternidade universal que une gerações, culturas e línguas.
 
6. Protagonismo e criatividade
Não querem ser apenas espectadores: anseiam por espaços para participar, decidir, criar e inovar na pastoral, na evangelização e na vida social. Lideram novas formas de voluntariado, comunicação e formação digital, onde o Evangelho está presente em todos os âmbitos.
 
7. Paz e reconciliação em tempos de guerra
De Roma, eles levantam um grito pela paz: pedem ao mundo e à Igreja que sejam instrumentos de reconciliação onde reinam o ódio e a exclusão. Para eles, ser discípulos de Jesus é comprometer-se ativamente com a não violência, o diálogo e a cultura do encontro.
 
Estes valores e aspirações fazem do Jubileu dos jovens uma experiência de renovação não só para eles, mas para toda a Igreja. Testemunho de que o Evangelho continua a oferecer sentido, alegria e compromisso às novas gerações e que, apesar de tudo, há uma juventude católica capaz de sonhar e construir um mundo mais humano, justo e fraterno.
 
Como o Papa Leão XIV pode inspirar uma geração comprometida com a justiça social e a paz
Num mundo polarizado, atingido pela pobreza, guerras e desconfiança institucional, a liderança do Papa Leão XIV é chamada a acender nos jovens — e em toda a Igreja — uma nova paixão pela justiça social e pela paz. Como pode o atual pontífice conseguir isso? O seu perfil, mensagens e primeiras ações já traçam um caminho convincente e profético.
 
1. Encarnando o legado da Doutrina Social
Leão XIV reafirmou publicamente o papel central da Doutrina Social da Igreja, sublinhando que ela é um instrumento de paz e diálogo para «construir pontes de fraternidade universal». Inspirado no espírito de Leão XIII, Paulo VI e Francisco, convida a «dar a palavra aos pobres», reconhecendo aqueles que se comprometem nas periferias e nos movimentos sociais como verdadeiros protagonistas da esperança.
 
2. Educação em pensamento crítico e discernimento
Em resposta ao clamor das redes sociais, às notícias falsas e ao individualismo digital, Leão XIV pede que se forme o pensamento crítico dos jovens e de toda a Igreja, educando para discernir a verdade, praticar o diálogo e não alimentar a cultura do ódio. Só assim uma nova geração poderá liderar processos de reconciliação e defesa da dignidade humana com lucidez e criatividade.
 
3. Dar voz e protagonismo aos pobres e aos jovens
O Pontífice insiste: a conversão que exige a justiça social começa ouvindo e aprendendo com aqueles que nascem longe dos centros de poder, promovendo iniciativas onde os jovens e os excluídos sejam ativos e não simples beneficiários. Ele anima os jovens a «não ter medo de serem diferentes», a lançarem-se às periferias e a praticarem ativamente o mandamento do Bom Samaritano.
 
4. Promoção de uma «paz desarmada e desarmante»
Leão XIV recalibrou a agenda católica, fazendo da paz — não apenas como ausência de guerra, mas como processo ativo de justiça e reconciliação — o centro da sua mensagem. Os gritos dos jovens em Roma «Queremos a paz no mundo!» são um eco fiel deste sonho papal: construir comunidades que quebrem as correntes do confronto e criem uma cultura de encontro e diálogo.
 
5. Modelo pastoral: humildade e serviço
Nas suas homilias e gestos, Leão XIV lembra ao Papa que ele não veio para mandar, mas para servir; para não impor, mas para amar. Convida os jovens a viver o Evangelho sem doses de triunfalismo, com o testemunho quotidiano do perdão, da fraternidade e do trabalho em favor
 
Leão XIV pode inspirar uma geração comprometida com a justiça social e a paz, sendo, acima de tudo, um Papa do serviço, do diálogo e do Evangelho encarnado. A sua maior força está em convidar os jovens — com palavras e, sobretudo, com ações — a serem portadores de esperança onde só cresce o ceticismo, a fazerem da sua vida um testemunho visível da construção de um mundo onde «ninguém se salva sozinho» e onde cada gesto de justiça e paz abre sulcos do Reino no meio da história.

José Manuel Vidal, em Religión Digital

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