Porquê Jesus não pede ao Pai que O salve tirando-O da cruz?

A imagem é de um dos trabalhos de Miguel Moreira da Costa. Encomendas pelo telemóvel 910 890 036. É adaptável para a Quaresma de 2026. Poderá ser pedido para uso de famílias, grupos de catequese, grupos de adultos, grupos de oração, etc.

Segundo o relato dos Evangelhos (
Mt 27,35-44; Mc 15,23-32; Lc 23,26-43; Jo 19,18-24), aqueles que passavam diante de Jesus crucificado zombavam dele e, rindo do seu sofrimento, faziam-lhe duas sugestões sarcásticas: se és Filho de Deus, «salva-te a ti mesmo» e «desce da cruz».

Essa é exatamente a nossa reação diante do sofrimento: salvar-nos a nós mesmos, pensar apenas no nosso bem-estar e, consequentemente, evitar a cruz, passar a vida evitando tudo o que nos pode fazer sofrer. Será que Deus também é como nós? Alguém que só pensa em si mesmo e na sua felicidade?

Jesus não responde à provocação daqueles que zombam dele. Não pronuncia uma única palavra. Não é o momento de dar explicações. A sua resposta é o silêncio. Um silêncio que é respeito por aqueles que o desprezam e, acima de tudo, compaixão e amor.

Jesus só quebra o seu silêncio para se dirigir a Deus com um grito lancinante: «Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?» Ele não pede que o salve tirando-o da cruz. Apenas que não se esconda nem o abandone neste momento de morte e sofrimento extremo. E Deus, seu Pai, permanece em silêncio.

Só ao ouvir profundamente este silêncio de Deus é que descobrimos algo do seu mistério. Deus não é um ser poderoso e triunfante, tranquilo e feliz, alheio ao sofrimento humano, mas um Deus silencioso, impotente e humilhado, que sofre connosco a dor, a escuridão e até a própria morte.

Por isso, ao contemplar o Crucificado, a nossa reação não pode ser de escárnio ou desprezo, mas de oração confiante e agradecida: «Não desças da cruz. Não nos deixes sozinhos na nossa aflição. De que nos serviria um Deus que não conhecesse os nossos sofrimentos? Quem poderia compreender-nos?»

Em quem poderiam esperar os torturados de tantas prisões secretas? Onde poderiam colocar a sua esperança tantas mulheres humilhadas e violentadas sem qualquer defesa? A que se agarrariam os doentes crónicos e os moribundos? Quem poderia oferecer consolo às vítimas de tantas guerras, terrorismo, fome e miséria?

Não. Não desças da cruz, pois, se não Te sentirmos «crucificado» ao nosso lado, vamos sentir-nos ainda mais «perdidos».

José Antonio Pagola, em Reflexión y liberación

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