O surgimento de casos de padres pedófilos em quase todos os
países católicos continua e revela a extensão desse crime que tanto dano causou
às suas vítimas. Não basta dizer que a pedofilia desonra a Igreja ou pedir
desculpas e rezar. É pior. Representa uma dívida impagável para com aqueles
menores que foram abusados sob o manto de credibilidade e confiança que o
ofício sacerdotal encarna.
A Igreja talvez deveria ser um pequeno mundo reconciliado
que representa os outros e a humanidade toda? Acontece que dentro desse pequeno
rebanho existem pecadores criminosos, e é tudo menos um mundo reconciliado. O
escândalo da pedofilia é um sinal dos nossos tempos. Do Concílio Vaticano II
(1962-1965), aprendemos que devemos descobrir nos sinais o pedido que Deus nos
deseja transmitir. Parece-me que o pedido segue esta linha: é hora de a Igreja
Católica Romana fazer o que todas as outras Igrejas já fizeram: abolir o
celibato imposto por uma lei eclesiástica e torná-lo livre para aqueles que
veem nele um sentido e conseguem vivê-lo com alegria e frescor de espírito.
Mas essa decisão não está a ser tomada pelas autoridades
romanas. Pelo contrário, apesar dos escândalos, estão a reafirmar o celibato
com ainda mais força. Sabemos quão inadequada é a educação para a integração da
sexualidade no processo de formação sacerdotal. Acontece longe do contacto
normal com as mulheres, o que produz uma certa atrofia na construção da
identidade. As ciências psicológicas afirmaram claramente que o homem amadurece
somente sob o olhar da mulher, e a mulher sob o olhar do homem. Homem e mulher
são recíprocos e complementares.
O sexo genético-celular demonstrou que a diferença entre um
homem e uma mulher, em termos de cromossomos, se reduz a um único cromossomo.
Essa integração é dificultada pela ausência de uma das partes, a da mulher,
substituída pela imaginação e por fantasmas, que, se não disciplinados, podem
gerar distorções. O que se ensinava nos seminários não é desprovido de
sabedoria: quem controla a imaginação, controla a sexualidade. Em grande
medida, isso é verdade. Mas a sexualidade possui uma força vulcânica. Paul Ricoeur,
que refletiu filosoficamente por muito tempo sobre a teoria psicanalítica de
Freud, reconhece que a sexualidade escapa ao controle da razão, das normas
morais e das leis. Vive entre a lei do dia, onde valem regras e comportamentos
estabelecidos, e a lei da noite, onde operam a pulsão, a força da vitalidade
espontânea. Somente um projeto de vida ético e humanista (o que queremos ser)
pode orientar a sexualidade e transformá-la em uma força de humanização e de
relações frutíferas.
O celibato não está excluído desse processo. É uma das
opções possíveis, que eu apoio. Mas o celibato não pode nascer de uma falta de
amor; pelo contrário, deve derivar de uma superabundância de amor a Deus que se
derrama sobre aqueles que nos rodeiam.
Porquê a Igreja Católica Romana não dá um passo à frente e
abole a lei do celibato? Porque ela contradiz a sua própria estrutura. É uma
instituição total, autoritária, patriarcal, altamente hierárquica, e um dos
últimos bastiões do conservadorismo no mundo. Avarca a pessoa do nascimento à
morte. O Cânon 331 é claro: se trata de um poder ordinário, supremo, pleno,
imediato e universal. Uma Igreja que coloca o poder no centro fecha as suas
portas e janelas ao amor, à ternura e à compaixão.
O celibatário é funcional para esse tipo de Igreja, pois
nega ao celibatário aquilo que o torna mais profundamente humano: o amor, a
ternura e o encontro afetivo com as pessoas, que seriam mais facilmente
favorecidos se os padres fossem casados. Tornam-se completamente disponíveis à
instituição, que pode enviá-los a Paris ou à Coreia do Sul.
O celibato implica a completa agregação do padre para o
serviço não da humanidade, mas desse tipo de Igreja. Ele deverá amar apenas a
Igreja. Quando descobre que esta não é apenas a Santa Madre Igreja, mas também
pode ser uma madrasta que usa os seus ministros em nome do poder, ele se
desilude, abandona o ministério com o celibato obrigatório e se casa.
Enquanto essa lógica de poder absolutista e centralizador
persistir, não podemos esperar que a lei do celibato venha a ser abolida, não
importa quantos escândalos ocorram. O celibato é conveniente demais e útil para
a instituição eclesiástica.
Mas o que resta do sonho de Jesus de uma comunidade fraterna
e igualitária? Bem, esse é outro problema, talvez o principal. A partir daí,
enfrentaremos de forma diferente a questão do celibato e do estilo de Igreja
que seria mais adequado à sua mensagem libertadora.
Leonardo Boff, em Redes Cristianas
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