Somos inundados constantemente com imagens de miséria humana
que nos perturbam. Perturbam, mas não é a todos!
Assisto com tristeza a vil ataques a manifestações de
compaixão em relação a migrantes. Lembro-me de uma imagem de uma jovem da cruz
vermelha que consolava um imigrante vítima de um naufrágio e de como ela foi
agredida nas redes sociais.
Vejo também voluntários de associações que apoiam sem
abrigos a serem agredidos sob o pretexto de estarem a incentivar a mendicidade.
E vi eu também, na minha cidade, com os meus próprios olhos.
Há uns anos passeava na cidade com o meu filho- criança ainda - quando nos
deparámos com um sem abrigo. Aproximámo-nos e abordamos a perguntar se o
podíamos ajudar. Estivemos um pouco à conversa e ficou assim. Não o ajudei
muito pois na verdade ele também não queria ser ajudado. Limitamo-nos a ouvir e
a consolar. Do outro lado da rua ouvia insultos, e olhares de desdém. Senti-me
envergonhada e foi difícil explicar a uma criança, qual era o mal do gesto que
tínhamos feito. Atravessamos a rua e fomos por outro lado, e mesmo na presença
da criança não se coibiram a continuar as " bocas".
Falo pouco sobre este episódio que me envergonha e ainda
hoje me custa passar lá. Sabem porquê? Porque não tive coragem de os enfrentar
e de afirmar o meu gesto. Não salvei ninguém e talvez, não o tenha ajudado, mas
no meu íntimo sinto que não podemos estar sempre a olhar para o lado como se
não fosse connosco. Afinal, nós não somos um comando da televisão a fazer
zapping. Alias, acredito que temos na mão inúmeras possibilidades para mostrar
misericórdia e compaixão mesmo que isso não salve o mundo.
O que ainda não consigo explicar ao meu filho é porque é que
a misericórdia incomoda tanto, mas costumo lembrar que Cristo foi mestre nesses
atos e também morreu na Cruz. A única diferença é que Ele nos salvou! E nós
teimamos em continuar o seu legado. Por isso é que mostrar misericórdia é uma
ato de coragem que a tantos incomoda, porque na verdade eles não conhecem o
verdadeiro poder transformador que o amor tem.
E tu amiga, quando é que os teus atos de
misericórdia foram olhados com desdém?
Raquel Rodrigues, em iMissio
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