Há palavras que pesam mais do que o silêncio. Há despedidas que deviam ter sido pedidos de ajuda. Há cartas que não são apenas um adeus, mas um alerta sofrido com as últimas forças.
Esta é uma dessas cartas. Foi escrita por um jovem que perdeu a luta, mas que quis, antes de partir, deixar um aviso para que outros não tenham o mesmo fim.
Deus continua a chamar, como sempre fez, pela voz e vida dos aflitos. Serão os nossos ouvidos que estão a mudar?
A carta que não se pode ignorar
«Vou começar assim: hoje é o meu último dia. Peço desculpa por este acto, mas não podem levar a mal. Eu não aguento este sofrimento e confusão, a minha cabeça explode. Eu queria apenas confiança, mas todos diziam que quando eu já a tinha recuperado estragava tudo. Mas não era estragar tudo, era apenas um fracasso mas, como todos dizem, perde-se uma batalha mas não a guerra. O meu pai até dizia para eu não assaltar a loja dele. Pai, por favor!!!
Eu tenho pena de deixar muitas coisas boas para trás. Mãe, Ana, Tiago, amigos, coisas desse género. Uma coisa exijo: um bom funeral. Mas, a falar a sério, eu evitei este acontecimento por muito tempo; têm que compreender que eu sou uma pessoa muito fraca.
O meu problema foi a droga, mas não só ela, mas sim derivado da droga. Trouxe-me milhões de problemas, ela destruiu-me a vida. É apenas uma pessoa que tenta avisar a todos os jovens que pensam que controlam a droga, pois não é verdade.
Deixem de consumir. Isto fica como um exemplo. Eu não morri por descuido ou acidente. Eu suicidei-me.
Ricardo Taguding da Costa Lourenço (Mem Martins)»
Três jovens suicidaram-se, há alguns anos, em Lisboa. Um deles deixou esta carta. E porque ele pediu que fosse divulgada — não por espetáculo, mas por amor aos outros — hoje damos-lhe voz novamente. Não para alimentar a dor. Mas para que mais ninguém tenha de escrever algo assim.
A droga não começa por destruir. Começa por prometer: alívio, pertença, coragem, esquecimento. Depois, sem aviso, transforma-se num abismo que devora tudo — família, dignidade, saúde, sonhos, futuro.
Mas a toxicodependência não é um rótulo, não é uma falha moral, não é uma sentença. É uma doença, e como tal precisa de tratamento, acompanhamento, presença, paciência e amor. Precisa de profissionais. Precisa de famílias que não desistam. Precisa de uma sociedade que veja, que escute, que estenda a mão em vez de virar as costas.
Quando descobrimos que alguém está a cair…
não fujamos.
Não julguemos.
Não desistamos ao primeiro tropeço — nem ao décimo.
Cada pessoa vale a luta.
Cada vida tem um valor infinito.
Cada dependente é alguém que ainda pode recomeçar.
Que esta carta — dura, crua, verdadeira — seja hoje um alerta que salva.
Que abra olhos, desperte consciências, e impeça novos finais como este.
E que nunca nos esqueçamos:
se não podemos mudar o passado dele, podemos transformar o futuro de muitos outros.
Padre João Torres, pároco de Prisco, diocese de Braga, em Facebook
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