O que ensinam as corujas acerca do Advento? Reflexão do padre Joseba Kamiruaga Mieza

Gosto das corujas por causa dos seus olhos. Ah, aqueles olhos enormes, olhos icónicos!

Muito antes de mim, elas, literalmente, fascinaram os bizantinos. Com eles, tornaram-se os olhos de Cristo Pantocrator, da Virgem, dos anjos e dos santos.  Blasfémia, sacrilégio? Não creio.
 
Não vemos nós, sonolentos e com os olhos remelados, homens e mulheres de olhos estreitos e semicerrados, que Deus fez os olhos das corujas tão enormes para que fossem olhos que veem à noite, quando as coisas são o que são e nada mais?
 
Para escrutinar a escuridão é preciso ter olhos desmedidos, os olhos do próprio Deus. Então a noite se transforma em luz.
 
As corujas teimam em escrutinar a noite com os seus olhos redondos, a noite das coisas, a noite de Deus. Estão lá como sentinelas à espera, pacientemente pousadas nas suas patas frágeis, até que saia o Outro Sol que nasce do alto.
 
Conta-se uma anedota de que um dia alguém se encontrava num famoso mosteiro beneditino. E teve a incrível audácia de dizer, diante da comunidade reunida (uma impressionante e digna massa negra de homens): «Meus irmãos, se não se tornarem corujas, não entrarão no Reino...».
 
Houve um momento de silêncio e espanto. Então, os rostos daqueles que buscavam a Deus começaram a rir como estrelas no inverno. Eles sabiam que ele estava certo.
 
O caminho do Advento é claramente esse: tornar-se homens e mulheres de olhos imensos, os olhos do próprio Deus. Então a noite se transforma em luz.
 
As corujas me encantam porque nos seus olhos, que sabem ver na escuridão, que sabem ver além, está indelevelmente escrita a esperança.
 
Essa esperança que vacila e desaba aos pés da cruz de Jesus, aos pés de todas as nossas cruzes. Ou à cabeceira de um presépio num estábulo.
 
Essa esperança que nos é dada abundantemente e de forma indestrutível na manhã de Páscoa aos pés de um sepulcro vazio. Ou de uma criança recém-nascida nos braços da vida.
 
Porque é precisamente Jesus nascido ou ressuscitado que gera, regenera e sustenta toda a nossa esperança.
 
Essa esperança que desejo, com todas as minhas forças, ver florescer, crescer e renascer no rosto, no coração e na vida de cada pessoa que encontro, qualquer que seja a «tempestade» que tenha tido de atravessar e enfrentar.
 
Li que em grego «esperança» se diz «elpis». Tudo está nessa aspiração inicial, tudo está nessa respiração, nesse sopro, porque a esperança, se for verdadeira, é o sopro da vida. Se deixarmos de respirar, deixamos de viver.
 
Quem não consegue respirar, quem só vê tudo negro, parece dobrar o céu como um lençol que antes estava estendido ao sol, pára para olhar apenas para si mesmo e assim já não se ilumina. Perdeu o céu, perdeu o fôlego!
 
Diz um poeta:
A minha esperança é como o bater do meu coração,
às vezes um pouco acelerado, às vezes um pouco mais lento,
mas sempre presente como o sopro da minha vida.
Como quando durmo não me apercebo que respiro,
assim, quando tudo está escuro, a esperança surge em mim como um canto.
 
O filósofo Paul Ricoeur usa uma imagem para descrever a esperança, dizendo assim:
A esperança vem até nós vestida com trapos
para que lhe façamos um vestido de festa!
 
O Evangelho conta-nos continuamente: a esperança está escondida num pequeno grão de mostarda que se tornará uma das árvores mais grandes, naquela pitada de fermento que sabe transformar a massa, naqueles dois pães e cinco peixes que alimentarão milhares de pessoas, está escondida numa jovem que diz sim e aqui estou ao seu Deus, está escondida na fragilidade e impotência de uma cruz, dentro de um pouco de pão e vinho.
 
A esperança é humilde, mas extraordinariamente poderosa.
 
E surpreende sempre porque é aquele recurso inesgotável que nos permite não desistir quando todos desistem, inventar e encontrar novos caminhos, levantar-nos continuamente, como uma criança que está a aprender a andar... A esperança é criativa.
 
No Advento, vemos uma esperança que vem de outro lugar, estrangeira, que chega pobre e necessitada de nós, que não tem a sua origem em nós, mas que se coloca nas nossas mãos para que a ajudemos a tornar-se a sedutora festiva da nossa época de desencanto.
 
A sua característica é que não ilumina como um farol, mas brilha como uma estrela. É sempre uma menina com um vestidinho de retalhos, que devemos transformar num vestido de festa, num vestido de noiva.
 
A esperança é como o amor: não está pronta. É feita. Não é um vestido já confeccionado, mas tecido para cortar e costurar. Não é uma casa «chave na mão», mas um lar que deve ser concebido, construído, conservado e, muitas vezes, reparado.
 
A palavra hebraica para dizer «esperança» é «tikvà», que também significa «corda». O hebraico parte sempre de coisas concretas.
 
É bonito que a esperança tenha uma alma de corda: ela arrasta, une e permite nós.
 
Na palavra «tikvà» está o sentido de estar ligado a alguém e a algo que não o deixa sozinho.
 
Embora a esperança nem sempre mostre a sua fibra resistente, é bonito saber que tem essa tenacidade de origem.
 
Gosto de pensar na esperança como uma corda, como laços... A vida deve ser vivida assim, de mãos dadas, esperando e sonhando juntos.
 
Porque a esperança recomeça a partir do outro, a partir do seu rosto, e recomeça a partir do Outro que é o nosso Deus, a partir do seu rosto.
 
Recomeça a partir das mãos que se apertam, das mãos entrelaçadas.
 
Recomeça e torna possível o impossível!
 
Já vimos isso muitas vezes, em muitas pessoas, em muitas situações.
 
O Evangelho de Jesus e do seu Reino não é um otimismo genérico e banal diante dos problemas, mas a força que sempre nos coloca de novo no caminho onde o impossível se torna possível.
 
Uma força que nos chega do silêncio, da oração, da Palavra, da Eucaristia, e que todos os homens e mulheres de esperança sabem transmitir.
 
A esperança é... um suspiro, um vestido, uma corda... imagens para expressar a esperança, essa esperança que faz o mundo mudar e dançar.
 
Diz um poeta:
A vida dança, a esperança dança.
O mundo, espectador distraído, fica mudo
e observa incrédulo a dança da Utopia...
E Deus vê dançar.
E emociona-se.
Presbítero Joseba Kamiruaga Mieza,
missionário claretiano, em Alternativa cristiana

Comentários

  1. Também gos muito de corujas, e amei este texto!
    Obrigada🙏🙏🙏

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