Que preferes dizer: «O fim dos tempos» ou «a finalidade do tempo»? - Reflexão de um filósofo existencialista e de um filósofo cristão

Nós não estamos interessados no fim do mundo porque duvidamos que estejamos aqui para vê-lo, mas estamos muito interessados no fim do nosso próprio tempo. Sabemos que o nosso destino imediato é a morte e, sendo coerentes, devemos aprender a viver com essa perspetiva.


Tradicionalmente, a forma de enfrentar a morte tem sido a esperança de encontrar mais vida depois dela, mas a cultura dominante transforma essa esperança em superstição, e reduz o ser humano a um "ser para a morte" (numa expressão do filósofo Martin Heidegger) condenado a caminhar em direção ao nada desde o momento do nascimento: «Viemos do nada de antes e vamos para o nada de depois», diz ele. Triste destino e triste vida. tão triste que convida a fugir de tal realidade. Para isso, é habitual tentar evitá-la através do trabalho compulsivo, o lazer compulsivo, o álcool, as drogas ou os infinitos mecanismos que a sociedade de consumo põe à nossa disposição para que possamos passar pela vida sobrepondo-a e sem mergulhar nela.
 
Mas se queremos ignorar a realidade devemos pagar o preço de desperdiçar a dádiva única da vida, e isso grita de tal forma que até o próprio Heidegger qualifica esta forma de viver como inautêntica e propõe um modo de enfrentar a finitude assumindo como algo natural o facto da morte. «Devemos aceitar que somos finitos, assumir a angústia de caminhar em direção ao nada, não renunciar a desfrutar de todas as possibilidades que se abrem diante de nós, correr o risco de errar e arrepender-nos, viver cada momento da nossa vida conscientes de que vamos morrer»... Em última análise, Heidegger diz que a morte é o que existe, e que nos devemos resignar a viver sem esperar outra coisa.
 
O pensamento cristão é outro. Por exemplo, Juan Antonio Estrada, sacerdote jesuíta e filósofo cristão, tem uma visão muito diferente da morte, e faz algumas considerações em torno do modo de encarar a nossa finitude.  Diz que «é muito saudável agir sabendo que esta vida acaba e que não sabemos quando vai acabar, porque essa atitude nos urge a viver com mais intensidade, a não dar tanta importância; a ser menos egoístas e tentar melhorar nossa relação com os outros».
 
Ele acrescenta que quando alguém interioriza de verdade que a vida neste mundo é efémera, percebe que o apego às coisas é uma grande tolice que lhe faz mal e não leva a lugar nenhum. Então ele luta contra os seus apegos e prova que eles podem ser vencidos, e com eles, a dor que eles causam. E desta forma ganha em compaixão, em alegria, em amor, em bondade, em sabedoria... porque o seu coração se livrou do medo que o prendia...
 
Miguel Angel Munárriz Casajús, em Fé Adulta

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