E se o leme fosse delas? Doze características da Igreja sob a lógica do feminino - por padre João Torres
Antes de tudo, uma delicadeza necessária: este texto não propõe que as mulheres sejam uma extensão do masculino dentro da Igreja, nem uma réplica suavizada de modelos já gastos.
Também não pretende ressuscitar o debate — tantas vezes redutor — sobre o sacerdócio feminino. Trata-se de outra coisa. Mais profunda. Mais silenciosa. Mais radical. Trata-se de imaginar o que aconteceria se a Igreja respirasse, pensasse e decidisse mais a partir do feminino.
Se as mulheres “mandassem” na Igreja,
a primeira revolução não seria de cargos, mas de gramática.
- O verbo mandar seria, provavelmente, substituído pelo verbo cuidar.
- A autoridade deixaria de ser o topo de uma pirâmide para se tornar o centro de um círculo, onde a prioridade não é a norma que exclui, mas a vida que pulsa.
- Uma Igreja com rosto de mãe seria, antes de mais, uma Igreja da Gratuidade. Veríamos o fim da contabilidade da fé, das balanças morais e dos méritos acumulados. Se a mulher é, como tantas vezes dizemos, a gratuidade em pessoa, a Igreja sob essa lógica seria um espaço onde o dom vem antes do desempenho. Não haveria “filhos teológicos” órfãos, esquecidos em armazéns de ideias descartadas, porque o olhar feminino sabe que cada intuição — como cada vida — precisa de tempo, colo e alimento para crescer.
- O altar seria extensão da mesa, e a mesa seria extensão do mundo.
- A gestão eclesial deixaria de ser a topia do masculino — tantas vezes concentrada na manutenção do poder e na frieza do cânone — para se tornar uma economia do pão repartido.
- Se o leme fosse delas, a Igreja teria menos medo dos “partos teológicos”. O magistério não se moveria pela lentidão de quem teme errar, mas pela urgência de quem corre ao ouvir o choro de um filho.
- A hierarquia maior seria a da caridade, não a do prestígio.
- Numa Igreja conduzida pelo feminino, a dignidade não seria um discurso bonito, mas uma prática quotidiana. Cairiam as velhas correntes de ferro que prendem a intuição e o carisma.
- A política eclesial tornar-se-ia uma política de entranhas: próxima, concreta, atenta ao detalhe do sofrimento que, no seu voo de águia teórica, o masculino tantas vezes não vê.
- Não seria uma Igreja de “parideiras”, mas de profetisas. Mulheres que, como as discípulas de Jesus, não fogem perante o escândalo da cruz. Uma Igreja que deixaria de usar o feminino como adorno simbólico e o reconheceria como força estruturante.
- O sagrado sairia das sacristias fechadas e ajoelhar-se-ia ao lado de quem trabalha, de quem sofre, de quem gera a vida no silêncio.
- No fundo, se o leme fosse delas, a Igreja parecer-se-ia mais com o Evangelho das Origens: um caminho de amigos e amigas, onde o único poder reconhecido é o de lavar os pés uns aos outros. Uma Igreja capaz de se olhar ao espelho e ver, não apenas um Pai, mas também o rosto maternal de um Deus que amamenta a humanidade com esperança.
Talvez o milénio da mulher na Igreja não seja apenas um desejo. Talvez seja a única via para que a fé não morra de aridez.
Presbítero João Torres, Priscos, diocese de Braga, em Facebook
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