Há mortes que não passam no rodapé das notícias. Não abrem telejornais. Não geram debates inflamados nem hashtags solidárias. Morrem em silêncio. E esse silêncio mata duas vezes.
Hoje, no século XXI, enquanto nos julgamos civilizados, globais e esclarecidos, há cristãos perseguidos, torturados, presos, violados, expulsos das suas casas, mortos simplesmente por acreditarem em Cristo. Não por tráfico. Não por interesses económicos. Mas pela fé que professam. Uma fé que se tornou incómoda. Invisível. Convenientemente esquecida.
Muitos, na Europa, nem sequer sabem que estes atos de horror acontecem. Outros sabem, mas fazem de conta que não sabem. Porque falta coragem moral. Porque obriga a escolher. Porque expõe. Porque desmonta a narrativa confortável de que a perseguição religiosa é coisa do passado, dos livros de História, das catacumbas romanas. Não é. Está viva. Cresce. E alastra.
Falamos, e bem, de tantas fobias, de tantos ódios, de tantas exclusões. Mas quando se fala de cristãos perseguidos, instala-se um embaraço estranho. Um desconforto quase culpado. Como se denunciar este sofrimento fosse um ataque a alguém. Como se defender cristãos fosse, paradoxalmente, um ato de intolerância. E, no entanto, o sangue continua a cair. Longe das câmaras. Longe da nossa indignação seletiva.
A Europa está cansada. Não apenas economicamente ou politicamente. Está cansada espiritualmente. Cansada das suas raízes. Cansada de lembrar quem é. Quer agradar a todos, harmonizar tudo, e acaba por neutralizar tudo. E, nesse processo, esquece-se de si própria. Das suas fundações. Da matriz que moldou a dignidade humana. A centralidade da pessoa. A ideia de cuidado, de hospitalidade, de limite ao poder. Tudo isso nasceu de uma visão profundamente cristã do ser humano.
Hoje, ser cristão parece quase um problema. Uma excentricidade tolerada, desde que vivida discretamente. Desde que não fale alto. Desde que não incomode. Muitos têm medo de o dizer. Outros têm vergonha. Reduzem a fé a um batismo antigo, sem prática, sem rosto, sem compromisso. Como se a fé tivesse de pedir desculpa por existir.
Mas ser cristão nunca foi confortável. Nunca foi seguro. Nunca foi moda. A perseguição não é um acidente na história do cristianismo, é parte da sua carne. A cruz não é um adorno, é a realidade do cristão.
E não nos enganemos: a incapacidade de falar claramente sobre imigração, sobre integração, sobre regras, sobre dignidade do trabalho, não é sinal de virtude. É sinal de medo. Regular não é excluir. Proteger fronteiras não é desumanizar. Pelo contrário. É impedir a escravidão moderna, o tráfico humano, a exploração dos mais frágeis. É cuidar de quem chega e dos que já cá estão. É cuidar da dignidade da pessoa. Esta lógica do cuidado integral - do outro como pessoa, não como número - não nasce do relativismo. Nasce do Evangelho.
Há feridas que doem mais porque parecem ignoradas. E esta é uma delas. Cristãos perseguidos, esquecidos, sozinhos. Homens, mulheres, crianças, jovens e idosos, cujos nomes nunca saberemos. Que rezam em caves, em lugares recônditos, em silêncio. Que morrem sem memória pública, sem justiça, sós diante de Deus. E, no entanto, continuam a acreditar. Talvez seja isso que mais incomoda o mundo: uma fé que não se cala mesmo quando tudo é tirado. Uma fé que sobrevive sem poder, sem visibilidade, sem proteção. Uma fé que não negocia a verdade em troca de segurança. São os santos de hoje, de cada dia.
Para os cristãos, fica um apelo exigente: não perder a fé. Não anestesiar a consciência com as distrações com que o mundo nos bombardeia constantemente. Não transformar o Evangelho numa peça decorativa. Rezar, sim. Mas também vigiar. Denunciar. Cuidar. Fazer o que compete a cada um, mesmo quando parece pouco. Especialmente quando parece pouco. E talvez, no meio desta noite espessa, ecoem ainda as palavras de Santa Teresa de Ávila, não como consolo barato, mas como alento: “Nada te turbe, nada te espante. Tudo passa. Deus não muda. A paciência tudo alcança. Quem a Deus tem, nada lhe falta. Só Deus basta.” Há despertares que custam. Mas salvam.
Miguel Abreu (28 de janeiro de 2026), em Facebook
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