«(…) Aos 91 anos, faleceu, a 26 de dezembro de 2025, Josemari Lorenzo Amelibia, um homem
cuja vida foi um exemplo de fidelidade radical à fé e ao amor humano. Fundador
e alma da Associação de Sacerdotes Casados de Espanha (ASCE), dedicou meio
século a demonstrar que a vocação sacerdotal e a vida matrimonial não são
incompatíveis, mesmo perante a incompreensão da hierarquia eclesiástica.
Em 1970, tomou a decisão que marcaria a sua vida: deixar o
ministério ativo para se casar com Maria Ángeles Izco, com quem teve um filho e uma filha (Irene e Daniel), e dois netos (Irene e Daniel). Não se tratou de um abandono por crise de fé ou
cansaço, mas de um ato de coerência com a sua dupla vocação: continuar a ser
sacerdote e, ao mesmo tempo, viver o sacramento do matrimónio. Como ele próprio
afirmava: «Saí do clero muito consciente da minha dupla vocação: sacerdote e
casado.» A partir desse momento, empenhou-se em defender a dignidade dos padres
casados, dando voz a milhares de biografias silenciadas pela Igreja.
A reflexão que orientou a sua vida foi tão simples quanto
contundente: se o sacerdócio imprime carácter e a ordenação deixa um selo
indelével, como pode a Igreja tratar os padres casados como se tivessem deixado
de ser aquilo que são? Esta pergunta resume a sua teologia prática e a sua
eclesiologia sofredora, bem como o seu sentido de justiça: não pedia
privilégios, apenas coerência institucional. Durante décadas, a sua luta foi
silenciosa mas constante, marcada pela paciência evangélica e por um amor à Igreja
que nunca se quebrou, apesar das portas fechadas e da indiferença hierárquica.
A sua ação não foi apenas teórica. Percorreu Espanha e Roma,
reuniu-se com cardeais, elaborou estudos, enviou cartas a todos os bispos e
levou a sua causa aos meios de comunicação social. Entre 1977 e 2000, o seu
compromisso incluiu viagens, esperas intermináveis em gabinetes episcopais e a
participação em programas televisivos que procuravam dar visibilidade a uma
realidade que muitos preferiam ignorar. Foi um trabalho meticuloso e
perseverante, que combinava o empenho pessoal com a defesa de direitos humanos
fundamentais: a família, a mulher e os filhos.
O pano de fundo da sua luta relaciona-se também com as
críticas ao celibato obrigatório formuladas por teólogos e psicoterapeutas como
Eugen Drewermann. Segundo Drewermann, a repressão da sexualidade nos sacerdotes
gera tensões emocionais profundas e patologias, podendo conduzir a
comportamentos destrutivos ou ao abuso de poder. Perante esta realidade, a vida
de Amelibia demonstra que é possível integrar a sexualidade e a espiritualidade
de forma coerente, vivendo a fé sem renunciar ao amor humano nem à família. (…)
Apesar da incompreensão institucional, nunca deixou de
exercer o seu ministério através de outras formas de presença pastoral. A sua
vida mostra que o sacerdócio não se mede por títulos nem pela atividade
oficial, mas pela entrega, pela solidariedade e pelo amor a Deus e ao próximo.
O seu exemplo demonstra que é possível continuar a ser sacerdote e homem de
Deus, mesmo que a instituição não o reconheça formalmente.
O seu legado permanece na Associação de Sacerdotes Casados
de Espanha, nos seus livros - por exemplo: Sacerdotes secularizados - e no seu blogue Secularizados, mística y obispos e, sobretudo, na esperança que semeou para futuras gerações de sacerdotes e
crentes que procuram conciliar a fé com a vida familiar. Embora tenha morrido
sem ver o seu sonho concretizado — o celibato opcional —, a sua vida é um
testemunho de dignidade, coragem e coerência, e um apelo à reflexão sobre a
relação entre doutrina e realidade.
A dor que acompanhou o seu percurso foi profunda.
Experimentou a tristeza de não ser plenamente reconhecido pela instituição que
tanto amava e, ainda assim, manteve a esperança e o compromisso. Essa tensão
entre vocação e reconhecimento, entre amor humano e obediência institucional,
revela a fragilidade de uma estrutura que insiste em tradições desajustadas e
sugere a urgência de reformas que respeitem tanto a fé como a humanidade dos
crentes. (…)
Num contexto em que o celibato obrigatório e uma hierarquia
rígida combinam repressão emocional e concentração de poder, a vida deste
sacerdote casado é um farol. Ensina que a fé se vive também no respeito pela
dignidade de todos, na integração entre vocação e vida pessoal, e na coragem de
defender aquilo que é justo, mesmo quando a recompensa tarda a chegar. A sua
história é um lembrete de que amar e servir a Deus pode assumir múltiplas
formas e de que a coerência entre fé e vida humana é uma exigência moral e
espiritual.
Ao olhar para a Igreja institucional, não se pode deixar de
sentir que, de algum modo, ela se bloqueia a si própria. A sua hierarquia
rígida e as suas tradições imutáveis limitam a sua própria capacidade de agir
de forma libertadora. A instituição, que deveria ser um farol de humanidade e
de justiça, perde frequentemente de vista a dignidade e os direitos
fundamentais de quantos a integram, desde sacerdotes e religiosos até leigos
empenhados. Isto impede-a de contribuir de forma autêntica para um mundo mais
justo e mais humano e limita a sua capacidade de representar com fidelidade a
mensagem de Jesus que proclama.
Perante isto, a experiência de crentes como Amelibia
demonstra que a fé cristã pode ser muito mais forte do que a fé na hierarquia.
A sua vida, e a de muitos outros leigos e fiéis comprometidos, revela que
aqueles que verdadeiramente vivem e constroem a Igreja fazem-no muitas vezes
fora dos seus gabinetes e das suas normas rígidas, através de ações concretas
de serviço, justiça e humanidade, enquanto a instituição permanece fechada em
si mesma. Neste sentido, o compromisso dos fiéis pode superar, em impacto e
coerência, o de muitos hierarcas que ocupam cargos de poder, lembrando-nos que
a Igreja não são apenas as suas estruturas, mas a comunidade viva de pessoas
que lutam por encarnar a fé.
A vida de Amelibia deixa uma lição clara: a fidelidade a
Deus e aos valores do Evangelho pode existir mesmo quando a instituição se
revela incapaz de a reconhecer ou acompanhar. E essa lição continua a ser
urgente hoje, quando milhões de crentes procuram reconciliar a fé com a vida
humana, a justiça e a liberdade. A sua história recorda-nos que ser Igreja é,
acima de tudo, ser coerente, humano e corajoso, e que, em muitas ocasiões, os
verdadeiros construtores da comunidade cristã não se encontram no topo da
hierarquia, mas na vida concreta de cada crente que vive a sua fé com
integridade e amor.
Josemari Lorenzo Amelibia não foi apenas sacerdote e esposo,
mas também uma testemunha de coerência, um homem que demonstrou que a
fidelidade a Deus não é incompatível com a fidelidade ao amor humano. O seu
legado continuará a inspirar todos aqueles que acreditam que a Igreja pode ser
mais justa, mais humana e mais próxima dos valores que proclama.»
Artigo completo de José Carlos Enríquez Díaz, em espanhol, em Religión Digital
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