«Não arrumem o Menino Jesus no sótão. O que se guarda na caixa não pode ser Aquele que se guarda na alma» - texto do padre João Torres
Chega o tempo em que as luzes se apagam devagar, as músicas
cessam e a casa volta ao seu silêncio habitual. O Natal parece despedir-se sem
ruído. Arrumam-se as estrelas, a árvore,
desmonta-se o presépio. Tudo acontece com naturalidade, como se fosse apenas
mais um fim de ciclo.
Mas o Natal não é um objeto.
E o Menino Jesus não é decoração.
O presépio foi o coração da casa durante semanas. Ali esteve
Deus feito fragilidade, silêncio e promessa. Ali aprendemos — ainda que sem
palavras — que Deus não entra no mundo com poder, mas com amor. E é
precisamente por isso que o maior risco não é desmontar o presépio, mas
desmontar o Natal dentro de nós.
Segundo a tradição da Igreja, o presépio não deve ser
desmontado no Dia de Reis. O tempo do Natal prolonga-se até à Festa do Batismo
do Senhor, que encerra este grande mistério. É no dia seguinte a essa festa que
o presépio e a árvore de Natal devem ser recolhidos, com respeito e oração,
porque só então o Natal se cumpre liturgicamente.
Desmontar antes é apressar o mistério.
É fechar a porta antes de Deus terminar de falar.
Quando chegar esse dia, não arrumem o presépio com pressa.
Reúnam a família.
Façam silêncio.
Agradeçam.
Beijem a imagem do Menino.
Guardem-na com veneração.
E lembrem-se: o que se guarda na caixa não pode ser Aquele que se guarda na alma.
O Natal não termina quando se desmonta o presépio.
Termina quando Deus deixa de contar nas nossas escolhas.
O Menino veio para ficar.
Para atravessar os dias comuns, os cansaços, as dúvidas, as
quedas e as recomeços. Veio para ser presença quando já não há luzes, nem
festas, nem aplausos. Veio para ser Deus-connosco, todos os dias do ano.
Por isso, quando desmontarem o presépio, façam-no com fé.
Mas, por favor,
não arrumem o Menino no sótão.
Guardem-no no centro do coração.
E deixem-no viver convosco.
Padre João Torres, pároco de Priscos, Braga
Oração ao desmontar o Presépio
Sagrada Família, ao retirar as vossas imagens e guardá-las,
peço que as graças que trouxestes para o meu lar
permaneçam no coração de cada um que vos contemplaram
e produzam frutos no decorrer de cada dia do novo ano,
de modo que na minha família sigamos o vosso exemplo
e, na força do Espírito Santo, glorifiquemos ao Pai.
Amém.
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