Reflexão para os sectores da Igreja que acordaram subitamente alarmados, não com o clamor dos pobres, mas por causa da missa em latim

Há sectores da Igreja que acordaram subitamente alarmados. Não com o clamor dos pobres, nem com o choro das crianças sob as bombas, nem com o desespero dos refugiados à porta da Europa. O que os tirou do sono foi outra coisa bem mais urgente: a missa em latim.

É curioso, para não dizer trágico, como alguns cristãos demonstram uma sensibilidade litúrgica finíssima para rubricas e idiomas mortos, mas uma surdez quase congénita para o grito dos vivos. Discutem-se minúcias rituais com ardor quase militante, enquanto a fome continua sem microfone, a guerra sem incenso e os migrantes sem procissão.

Invoca-se a “tradição” como se fosse um museu intocável, esquecendo que a tradição da Igreja não é a conservação das cinzas, mas a transmissão do fogo. O Concílio Vaticano II foi claro: “As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo” (Gaudium et Spes, 1)…

Assistimos, por vezes, a autênticos carnavais, celebrações onde a estética se impõe ao Evangelho, onde o latim serve mais para separar do que para unir, e onde a liturgia, que deveria ser fonte e cume da vida cristã, se transforma em palco de nostalgia ideológica. Tudo muito solene, tudo muito correto… exceto a caridade, que fica para depois. Ou para nunca.

O mesmo Concílio que tanto incomoda estes zeladores seletivos da ortodoxia lembra, na Sacrosanctum Concilium, que a liturgia não é um fim em si mesma, mas está intrinsecamente ligada à vida do povo e à sua salvação. Uma liturgia que não desemboca no serviço, na justiça e na misericórdia corre o risco de se tornar um exercício estético vazio, belo, talvez, mas estéril.

No Evangelho, Jesus não pergunta em que língua rezámos, nem que rito preferimos.

Talvez fosse útil recordar que a Igreja não existe para proteger sensibilidades litúrgicas, mas para anunciar o Reino. Um Reino onde os pobres têm lugar privilegiado, onde a paz é mais urgente do que qualquer rubrica, e onde a Eucaristia se reconhece menos pelo idioma em que é celebrada e mais pela vida que transforma.

Porque, no fim, uma Igreja que se preocupa obsessivamente com a forma da missa, mas ignora os crucificados da história, arrisca-se a celebrar com perfeição… a própria irrelevância.

Presbítero Marco Luciano, pároco de Rabo de Peixe, diocese de Angra do Heroísmo, em Facebook

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