Jesus ama o Pai Abbá e acredita também que Abbá sonha com uma Humanidade de filhos capazes de se realizarem amando-se como irmãos. E é enviado por Deus para realizar o seu sonho.
Na sua tarefa, Jesus exorta-nos a contentar-nos com pouco, a partilhar o que temos com aqueles que não têm, a aprender a sofrer, a dizer sempre a verdade, a não ser violentos, a trabalhar para que prevaleça a paz e a justiça, a não tirar proveito de ninguém... e a não nos preocuparmos se nos insultarem e perseguirem por isso...
Matam-No para que o seu fogo não incinere as estruturas de Israel e os seus líderes com elas.
Mas, com a sua morte, Jesus encarrega-nos de completar a sua obra; não a partir do poder, mas a partir de baixo, de dentro, como a semente, como o fermento. E isso coloca-nos numa grande dificuldade, porque não acreditamos, nem remotamente, que os critérios daquele carpinteiro que morreu crucificado há vinte séculos possam prevalecer sobre os critérios do mundo; um mundo que conta com um poder enorme para promover os seus, muito mais atraentes na aparência e diametralmente opostos aos de Jesus.
Estamos errados, e vamos ver porquê
Pedro e Paulo são martirizados em Roma por volta do ano 67 e as suas comunidades enfrentam o desafio de continuar o seu trabalho. E apesar da sua irrelevância social e política, e apesar das perseguições atrozes que se desencadeiam contra eles, o cristianismo vai-se introduzindo na sociedade romana e torna-se a primeira força espiritual do Império. Tudo isto antes de Constantino. Mas quais são as causas desta rápida expansão?
Em primeiro lugar, porque o modo de vida que oferecem, mais interior e com uma moral elevada, atrai pessoas honestas e piedosas. Assim, pouco a pouco, o cristianismo torna-se uma alternativa à forma de pensar e de viver da sociedade greco-romana, e as ideias evangélicas influenciam cada vez mais, mesmo fora dos círculos cristãos. A consequência é que a sociedade romana se torna mais compassiva e solidária, criam-se hospitais, atende-se aos necessitados e chega um momento em que as atitudes cristãs são consideradas o «certo», em detrimento dos costumes pagãos...
Somos Igreja de vanguarda ou na vanguarda do mundo?
A situação que vivemos hoje é muito semelhante à de Roma: uma sociedade imbuída de critérios mundanos que provocam injustiça, desigualdade e opressão, e uma minoria de seguidores efetivos de Jesus vivendo no seu seio. No entanto, existe uma grande diferença: apesar de serem minoria e viverem num ambiente fruto de uma cultura oposta à sua, aqueles cristãos não se intimidam nem se deixam absorver pela cultura majoritária, e são sal e luz, enquanto nós nos mimetizámos de tal forma com a cultura dominante que, salvo exceções, a nossa forma de viver não difere em quase nada da dos demais.
É frequente ouvir aqueles que se consideram vanguardistas lamentarem-se porque a Igreja não é capaz de acompanhar o ritmo a que o mundo avança, e isto, visto da perspetiva de Jesus, é um disparate monumental, porque nós, cristãos, somos chamados a ser a vanguarda que marca o rumo. Assim aconteceu com as primeiras comunidades; assim pode voltar a acontecer se nos livrarmos da preguiça e nos despojarmos dos complexos e preconceitos que nos aprisionam.
Jesus foi uma vanguarda radical, causou grande escândalo e foi morto. Os primeiros cristãos também foram vanguarda e foram perseguidos e assassinados, como o seu mestre. Devemos escolher entre ficar confortavelmente instalados na retaguarda do pelotão ou ser vanguarda e ser perseguidos e insultados, porque a nossa sociedade não admite dissidentes.
Miguel Ángel Munárriz Casajús, em Fé Adulta
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