O Evangelho de Mateus apresenta-nos Jesus percorrendo a
Galileia e anunciando a boa nova do Reino de Deus.
Jesus não é um político que quer ganhar votos a qualquer
preço, enganando e fazendo promessas que não cumprirá. Ele deseja deixar claro
quem estará em sintonia com o seu projeto e quem não estará. Para que não se
enganem. E Ele expõe isso, logo no início, nas bem-aventuranças.
As bem-aventuranças propõem valores desconcertantes
Se Jesus dissesse: «Bem-aventurado aquele que tem boa saúde,
aquele que ganha o suficiente para viver, aquele que desfruta com a sua
família...», não precisaria justificar essas afirmações. Qualquer pessoa
concordaria com ele.
No entanto, Jesus proclama bem-aventuradas as pessoas que
sofrem, choram, são perseguidas... Por isso, cada bem-aventurança é seguida de
uma justificação: «porque deles é o reino dos céus», «porque eles serão
consolados», etc. A recompensa prometida na primeira e na última é «o Reino dos
Céus». Na realidade, todas as outras também se referem a esse Reino de Deus,
mas focando-se em determinados aspetos concretos. Não podemos interpretar esta
recompensa apenas como algo da outra vida. Ela começa a realizar-se nesta vida.
Em palavras simples, todas essas pessoas são bem-aventuradas porque podem fazer
parte da comunidade cristã (Reino inicial dos Céus) e, mais tarde, do Reino
definitivo de Deus.
As bem-aventuranças não são uma corrida de obstáculos
A menção aos pobres, aos que choram, aos que sofrem... pode
criar uma sensação de mal-estar, como se tivéssemos de passar por todas essas
situações para fazer parte do reino de Deus. As bem-aventuranças tornam-se para
nós uma terrível corrida de obstáculos, onde, depois de cada barreira, nos
espera a seguinte.
No entanto, as bem-aventuranças são algo muito diferente:
são oito portas para entrar no Reino de Deus
Antonio Barluzzi, o arquiteto italiano que projetou a
Basílica das Bem-aventuranças em 1939, teve a bela ideia de uma planta
octogonal, com uma grande janela em cada lado, através da qual se pode
contemplar a paisagem exterior. No entanto, as bem-aventuranças não são janelas
para ver o que acontece lá fora, mas portas abertas pelas quais se pode entrar
para ouvir e seguir Jesus.
Acima de cada porta há uma inscrição com a bem-aventurança
correspondente. Às vezes, o sentido do texto é discutível (Jesus falou em
aramaico, depois foi traduzido para o grego e agora o retraduzimos para as
nossas línguas). Vamos dar uma volta pelo edifício, fazendo algumas perguntas
diante de cada porta. No final, poderá escolher a que melhor lhe convier para
entrar no palácio.
Refletir com a ajuda das oito portas Basílica das Bem-aventuranças
1. Consideras-te pobre diante de Deus, como o publicano que
diz: «Tem piedade de mim, Senhor, que sou pecador»? Ou achas que tens muitos
méritos e podes cobrar-lhe tudo o que fazes por Ele? Ambicionas a riqueza, ter
cada vez mais?
2. As injustiças que provocam milhares de exilados e
deslocados, desemprego juvenil, tráfico de mulheres, etc., fazem-te sofrer ou
deixam-te indiferente? Sofres com a dor alheia? Experimentas na tua vida dor
física, problemas psíquicos, económicos, laborais?
3. Estás convencido de que a melhor resposta à violência é a
não violência? Que «quem vive pela espada, morre pela espada»? Numa sociedade
onde abunda tanto ódio, respondes, como Jesus, «Pai, perdoa-lhes, porque não
sabem o que fazem»?
4. Tens fome e sede de justiça, ou seja, de fazer o que é
justo, de cumprir a vontade de Deus, como Jesus, que considerava o seu alimento
«fazer a vontade do seu Pai»?
5. Compadeces-te dos doentes, daqueles que te devem algo,
dos pecadores, tal como Jesus se compadecia? Ou consideras pecadores aqueles
que não pensam e sentem como tu e desejas-lhes todo o mal do mundo?
6. És puro de coração na tua relação com os outros, não
enganando, defraudando, caluniando nem criticando?
7. Trabalhas pela paz, por um mundo mais justo, para que
reine o bom entendimento na família, no teu ambiente?
8. Já foste perseguido ou criticado por tentares cumprir a
vontade de Deus?
9. Quando criticam e insultam os cristãos e a Igreja, dás
graças a Deus, ficas alegre e contente pela grande recompensa que receberemos
no Céu?
Acabas de contornar o edifício. Qual é a porta mais adequada
para entrar? Talvez haja duas ou três. Se achas que não há nenhuma, usa a
primeira: consideras-te «interiormente pobre», sem mérito diante de Deus? Podes
entrar.
Resumo
As bem-aventuranças dizem-nos que pessoas podem compreender
e aceitar a mensagem de Jesus, incorporando-se à comunidade cristã.
Portanto, as bem-aventuranças não são, antes de tudo, um
código de conduta moral que diz: «é assim que deves agir se quiseres ser
cristão». É mais uma exposição de situações e atitudes perante a vida que
permitem compreender o Evangelho e entusiasmar-se com as palavras de Jesus.
A bem-aventurança não diz: «Sofre, para que possas entrar no
Reino de Deus».
Diz: «Se sofres, não penses que o teu sofrimento é absurdo;
ele permite-te compreender o Evangelho e seguir Jesus».
Não diz: «Procura que te despojem dos teus bens para agir de
forma não violenta».
Diz: «Se responderes à violência com a não violência, não
penses que és estúpido, considera-te feliz porque agiste como Jesus».
Não diz: «Procura que te persigam por seres fiel a Deus».
Diz: «Se te perseguirem por seres fiel a Deus,
bem-aventurado és, porque estás dentro do Reino de Deus».
Mas, tratando-se dos valores que Jesus estima, não há dúvida
de que as bem-aventuranças se tornam também um modelo de vida que devemos
esforçar-nos por imitar. Depois do que Jesus diz, não podemos permanecer
indiferentes diante de atitudes como ajudar os outros, não violência, trabalhar
pela paz, lutar pela justiça, etc. O cristão deve promover esse comportamento.
E o resto do Sermão da Montanha lhe ensinará a fazê-lo em diferentes
circunstâncias.
José Luis Sicre, em Fé Adulta
As bem-aventuranças significam:
É preferível ser pobre a ser
rico à custa da pobreza dos outros.
É preferível chorar a fazer chorar o outro.
É preferível passar fome a ser a causa da fome dos outros.
São felizes não por
serem pobres, mas por não empobrecerem os outros.
Felizes, não por serem
oprimidos, mas por não serem opressores.
Fray
Marcos, em Fé Adulta
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