A próxima beatificação de Fulton J. Sheen, proclamada pela Igreja
como reconhecimento oficial da sua santidade de vida, não é um gesto nostálgico
nem uma homenagem a um comunicador carismático do passado. É, antes de tudo, um
sinal profético dirigido ao mundo contemporâneo e à própria Igreja.
Breve biografia
Peter John Sheen nasceu em El Paso, Illinois, em 8 de maio
de 1895, e recebeu o nome de Fulton do sobrenome de solteira de sua mãe. Sheen
foi ordenado sacerdote da diocese de Peoria em 20 de setembro de 1919. Em 11 de
junho de 1951, foi consagrado bispo auxiliar da arquidiocese de Nova Iorque, ministério
que exerceu até 1966. Em seguida, foi nomeado bispo de Rochester, Nova Iorque,
função que exerceu até à sua aposentação em 1969, aos 74 anos.
O bispo Sheen foi pioneiro, em virtude do seu programa de
televisão Life Is Worth Living (A Vida Vale a Pena ser Vivida), vencedor de um
prémio Emmy, O programa foi para o ar de 1952 a 1957, abordando temas como
moralidade e catolicismo.
Sheen morreu de uma doença cardíaca em 9 de dezembro de
1979, dia da festa de são Juan Diego, indígena vidente de Nossa Senhora de
Guadalupe, no atual México, no século XVI.
Razões porque Fulton J. Sheen é modelo de santidade
Fulton Sheen viveu no coração do século XX, marcado por
guerras, ideologias totalitárias, crise moral e esvaziamento espiritual. Não se
refugiou em sacristias nem se diluiu no espírito do tempo. Pelo contrário,
entrou no espaço público — universidades, rádio, televisão — sem negociar a
verdade do Evangelho. A sua fama não nasceu do entretenimento religioso, mas da
clareza com que anunciava Cristo num mundo que já começava a rejeitar a cruz.
A causa da sua beatificação assenta, em primeiro lugar, numa
vida de virtudes heroicas. Por detrás da figura mediática havia um homem
radicalmente centrado em Deus. Durante mais de cinquenta anos, Fulton Sheen fez
Hora Santa diária diante do Santíssimo Sacramento, sem interrupções. Ele
próprio afirmava que tudo o que realizou — livros, conferências, programas de
televisão, conversões — nascia desse silêncio adorador. A Igreja reconheceu
nesta fidelidade escondida o fundamento da sua fecundidade apostólica.
Em segundo lugar, a sua santidade manifestou-se numa coragem
intelectual e espiritual pouco comum. Fulton Sheen denunciou o relativismo
moral, a ditadura da opinião pública, a fé reduzida a emoção e o cristianismo
transformado em espetáculo. Alertou contra os falsos profetas que falam de Deus
sem conversão, contra os cristãos que querem aplauso em vez de verdade, e
contra uma Igreja tentada a agradar ao mundo em vez de o evangelizar. Fê-lo sem
ódio, mas sem concessões.
Outro elemento decisivo da sua beatificação é a unidade
entre vida e mensagem. Fulton Sheen não pregava o que não vivia. Era exigente
consigo próprio, humilde no trato pessoal e profundamente obediente à Igreja,
mesmo quando sofreu incompreensão, isolamento e esquecimento institucional.
Nunca usou o Evangelho para se promover, nem a fé como instrumento de poder. A
sua autoridade vinha da coerência.
A Igreja reconheceu ainda um sinal claro da ação de Deus na
sua vida através do milagre atribuído à sua intercessão: a cura inexplicável de
um recém-nascido declarado morto durante o parto. Este facto confirmou, à luz
da fé e da investigação rigorosa, que a santidade de Fulton Sheen não pertence
apenas ao passado, mas continua viva e operante.
Num tempo em que muitos confundem santidade com
visibilidade, militância ideológica ou sucesso pastoral, Fulton Sheen surge
como modelo de santidade para o mundo contemporâneo: um homem profundamente
eucarístico, intelectualmente honesto, espiritualmente livre e totalmente
entregue à verdade de Cristo.
A sua próxima beatificação recorda que a Igreja não precisa
de cristãos acomodados nem de discursos vazios, mas de homens e mulheres que,
como ele, se ajoelham diante de Deus para poderem ficar de pé diante do mundo.
Elisabete Martins, de Braga, em Facebook
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