«Jesus é claro: "Ide e ensinai." No grego, "ensinar" (“matheteusate”) implica fazer discípulos, não apenas figurantes» - reflexão do presbítero António Magalhães Sousa
Medito o Evangelho de Mateus 28, 16-20. Jesus é claro: «Ide, pois, fazei discípulos de todos os povos, batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a cumprir tudo quanto vos tenho mandado. E sabei que Eu estarei sempre convosco até ao fim dos tempos.»
«Ide e ensinai.» No grego original, este "ensinar" (“matheteusate”) implica fazer discípulos, não apenas figurantes.
Mas ensinar dá um trabalho danado. Exige catequistas que não se limitem a ler manuais mofados e exige um clero que não veja a doutrina como um obstáculo ao "bom ambiente".
Hoje, a prioridade é o sacramento expresso. Batizamos quem não crê, casamos quem não quer viver o compromisso e crismamos quem vai desaparecer no minuto seguinte à selfie com o bispo. Porquê? Porque o batismo "rende" nas estatísticas que chegam à Cúria: números altos são a tábua de salvação de quem confunde o Reino de Deus com uma empresa que não pode apresentar prejuízo de "clientes".
Jesus convida-nos a mergulhar no amor da Trindade. Nós, por prudência decorativa, preferimos mergulhar no catálogo da florista. A talha dourada (que deveria ser um grito da beleza de Deus) tornou-se o pano de fundo para arranjos florais monumentais que servem para esconder que a assembleia está vazia de fé. O vestido da noiva é o verdadeiro dogma; a vela personalizada é a nova Escritura. E os padrinhos? Escolhidos pela "amizade", pelo parentesco ou pelo saldo bancário, tornaram-se testemunhas de um ritual que não compreendem, garantindo que a criança terá tudo na vida, menos alguém que a ajude a rezar, a crescer na fé.
Como podemos ensinar a "cumprir tudo" se transformámos o Evangelho num self-service de frases motivacionais? Ignoramos as ordens difíceis (o perdão, a cruz, a renúncia) e ficamos com o "Deus é Amor" que não chateia ninguém. Muitos gabam-se: "Eu sou boa pessoa, não preciso de doutrina". É o triunfo do "Cristianismo Bio", sem conservantes, sem dogmas e, infelizmente, sem sabor. Quando Jesus diz "Eu estou convosco", Ele não está a oferecer um seguro de vida gratuito para quem O ignora na terça-feira e O exige na missa de sétimo dia.
Procuramos Jesus quando "estamos com as calças na mão". Queremos a bênção para os nossos amuletos (casa, terço, fios, imagens), mas não para guiar os nossos passos (enfeita o retrovisor). Queremos a "presença" d'Ele para que o banquete social corra bem, mas se Ele aparecer a exigir que mudemos de vida, dizemos que Ele está a ser "pouco inclusivo" e a limitar a nossa liberdade.
Continuemos assim. Façamos da Igreja o melhor salão de festas da Europa. Celebremos o vazio com muita pompa, muita flor e zero doutrina. Afinal, as estatísticas estão ótimas e, no final do dia, o que importa é que o vestido estava impecável e o banquete teve "todos os requisitos sociais". Jesus disse: "Ide e fazei discípulos". Nós respondemos: "Calma lá, Jesus... deixa primeiro ver se a cor das flores combina com o tapete central". “Eu estarei convosco até ao fim dos tempos... se me deixarem entrar na vossa festa”.
Presbítero António Magalhães Sousa (padremagalhaes@sapo.pt),
Dornelas, Braga, em Facebook/Sopro de Vida
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