Quem deve liderar os grupos da paróquia? Critérios, responsabilidade e o silêncio que empobrece a Igreja
Num tempo em que tantas comunidades cristãs revelam cansaço, divisão e ausência de frutos visíveis, impõe-se uma pergunta que não pode continuar a ser evitada: quem lidera os grupos da paróquia e com que critérios? A resposta a esta questão explica, em grande parte, a vitalidade — ou a estagnação — da vida paroquial.
A nomeação de responsáveis leigos não é um gesto informal nem um favor pessoal. É um ato pastoral sério, com impacto direto na fé, na comunhão e na missão da comunidade. Quando esta escolha é feita por conveniência, medo ou hábito, o resultado é quase sempre o mesmo: reuniões vazias, grupos sem rumo e fiéis desmotivados.
Fidelidade antes da disponibilidade
O primeiro critério não pode ser a disponibilidade nem a antiguidade, mas a fidelidade à fé da Igreja. Um responsável paroquial não representa gostos pessoais nem agendas próprias; representa a Igreja. Por isso, não pode confundir opinião com doutrina nem agir à margem do Magistério. O Código de Direito Canónico é claro ao afirmar que os leigos chamados a colaborar na missão eclesial devem fazê-lo com diligência, em comunhão e segundo a sua condição própria.
Vida cristã coerente
Não basta “estar na Igreja”. A responsabilidade pastoral exige coerência de vida: participação regular na Eucaristia, vida sacramental, testemunho moral e respeito pela liturgia. Confiar grupos a quem não vive aquilo que anuncia é um escândalo silencioso que mina a credibilidade da Igreja e afasta os mais atentos.
Competência: boa vontade não chega
Boa vontade é necessária, mas não é suficiente. Liderar um grupo paroquial exige formação espiritual, doutrinal e humana. Ignorância aliada a poder gera autoritarismo, decisões pobres e confusão. Nomear responsáveis sem formação ou sem vontade de aprender não é confiança: é negligência pastoral.
Comunhão, não controlo
O responsável leigo é chamado a servir a comunhão, não a controlá-la. Onde há medo, silenciamento, manipulação ou perseguição de quem questiona, já não há serviço evangélico, mas exercício de poder. A Igreja não é um espaço de domínio, mas de serviço.
Discernir não é decidir sozinho
Embora a nomeação seja da responsabilidade do pároco, o discernimento não deve ser solitário. Escutar o conselho pastoral, observar percursos, avaliar frutos e ouvir a comunidade é sinal de maturidade pastoral. Nomeações automáticas, vitalícias ou baseadas apenas na conveniência empobrecem a vida eclesial.
O perfil de quem nada acrescenta
Há ainda um outro problema silencioso, mas real: o perfil de quem não acrescenta nada nas reuniões, mas ocupa lugares de responsabilidade. Está presente, mas não participa. Fala apenas para concordar. Nunca estuda, nunca propõe, nunca discerne. Confunde comunhão com passividade e obediência com ausência de pensamento.
Estas pessoas não criam conflitos, mas também não geram frutos. Preferem o silêncio confortável à palavra responsável. Evitam qualquer intervenção que possa incomodar e acabam por legitimar decisões já tomadas, sem verdadeiro discernimento comunitário. O resultado são reuniões cheias de gente e pobres de Espírito, onde se fala muito e se decide pouco.
O silêncio por comodismo não é virtude cristã; é omissão. A Igreja não precisa de figurantes nem de unanimidades artificiais. Precisa de leigos formados, livres e responsáveis, capazes de pensar, falar e servir com verdade.
Uma escolha que decide o futuro
Muitas feridas nas paróquias não nascem da falta de pessoas, mas da má escolha de responsáveis — ou da manutenção de perfis estéreis por medo de mudança. A Igreja não se governa por favoritismos nem por silêncios cúmplices, mas pela verdade e pelo serviço.
Uma paróquia cresce quando os seus responsáveis são fiéis, competentes, humildes e corajosos.
Quando isso não acontece, a estagnação instala-se — e a missão fica por cumprir.
Uma página que a autora segue e que merece atenção, por reflexões acutilantes é Sopro e Vida
Elisabete Martins, de Braga, em Facebook
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