«Se a religião nos deixou demasiado tranquilos, é preciso dizer que a fé de Jesus tem um componente incómodo»
Parece que, na cena da transfiguração (Mateus 17, 1-9, Marcos 9, 2-10 e Lucas 9, 28-36), Pedro, Tiago e João intuem que a proposta de Jesus terá em Jerusalém um desfecho
perigoso (como de facto aconteceu). E por isso dizem: «Senhor, como é bom
estarmos aqui!»
Ou seja: não vamos para Jerusalém, fiquemos na luz deste monte,
não compliquemos a nossa vida!
Eles não querem sair do que hoje chamamos de
zona de conforto.
A zona de conforto é aquele estado em que nos sentimos
seguros e à vontade, com o perigo de viver na rotina, de estagnar, de não nos
preocuparmos com o que acontece lá fora. Se isso se mantiver por muito tempo,
corre-se o risco de gerar consequências negativas, como perda de motivação,
apatia, monotonia e desentendimento.
Vivemos a fé na zona de conforto?
Talvez vivamos a fé numa zona de conforto, sem sobressaltos,
sem grandes problemas, cumprindo uma rotina da qual ninguém nos tira porque
queremos estar tranquilos. Quando alguém tenta tirar-nos de lá, dizemos como
Pedro: estamos bem assim, não nos incomodes. É assim mesmo. Estamos tranquilos
com a nossa ideia de um Deus distante, com as nossas devoções que pouco
comprometem, com a nossa fé que não chama a atenção. Uma fé na irrelevância da
zona de conforto.
Podemos fazer alguma coisa? Estamos dispostos viver a fé
fora da nossa zona de conforto? Damos algumas pistas
- Sair da fé rotineira: não rezar mecanicamente, não repetir
tradições com o argumento de que sempre foi assim, não fazer bandeira de
costumes religiosos que são irrelevantes para a fé (promessas, votos, velas a
queimar, etc.).
Cultivar a fé: ler todos os dias um trecho da Bíblia, pelo
menos o Evangelho do dia; inscrever-se num grupo de reflexão da paróquia; ler um
livro de espiritualidade.
Participar de um grupo paroquial socio-caritativo ou ONG
civil humanista, em que contribuir para um mundo mais justo, fraterno e em paz.
Se a religião nos deixou demasiado tranquilos, é preciso dizer que
a fé de Jesus tem um certo componente incómodo, um aguilhão que estimula. Não
tenhamos medo: o Evangelho não nos obriga a fazer o que não podemos, mas exige
a entrega do coração. E isso está em desacordo com a rotina, a indolência e o
desinteresse.
Devemos sempre desejar que a vida cristã esteja fora da zona
de conforto, que seja viva e atualizada. Mas nos tempos atuais, tanto no nosso
país como no mundo inteiro, viver a fé de forma rotineira, como sempre, é
expor-se a que essa fé seque e morra. Ser testemunhas de Cristo é impossível
com uma fé adormecida. Não tenhamos medo de sair da nossa zona de conforto. Os
frutos serão muito positivos.
Fidel Aizpurúa Donazar, em Fé Adulta
Comentários
Enviar um comentário