Um poema acutilante: «Deus não abandonou o mundo, o mundo é que abandonou Deus»

Q
uando vires uma tragédia,
não levantes os olhos apressadamente para o céu
como quem procura um réu invisível.
 
Baixa o olhar
Olha para o chão rachado
Para a calçada onde alguém dorme com fome
Para o cheiro azedo de abandono que sobe das ruas
e se mistura com gasolina, lixo e silêncio.
 
Deus não mora no noticiário
Não assina decretos
Não distribui miséria, nem escolhe quem sangra primeiro.
 
Perguntar “onde está Deus?”
é fácil
É poético
Dá até uma sensação de profundidade espiritual.
 
Mas Deus nunca foi o mandante do caos humano
Nunca prometeu administrar a nossa cobardia.
 
Deus não se escondeu da nossa vista
Nós é que o despejamos do nosso entorno.
 
Despejamos quando normalizamos a injustiça
Quando aceitamos que comida apodreça em armazém
enquanto barrigas roncam quais sirenes invisíveis
Quando transformamos desigualdade em estatística
e sofrimento em paisagem.
 
Onde está a lei que protege o inocente
sem perguntar sobrenome, cor, CEP ou partido?
Onde está a justiça que não se vende,
não se curva,
não escolhe lado conforme o lucro?
 
Onde está o hospital que não humilha?
O saneamento que não mata?
A escola que não adoece?
A segurança que não executa?
 
E o amor por Deus…
Onde está?
 
Aquele amor que era verbo
e se tornou slogan.
Que era prática
e se tornou marketing.
Que era gesto
e se tornou publicação nas redes sociais.
 
É confortável apontar para o invisível
e dizer:
“Deus não faz nada.”
“Deus não existe.”
 
Difícil é fazer a pergunta certa:
o que fizemos nós com Deus dentro de nós?
 
Talvez Deus não more mais em templos dourados.
Nem em púlpitos cheios de frases bonitas
e mãos vazias de ação.
 
Talvez Deus esteja apertado, sufocado,
preso no coração de quem ainda sente vergonha
deste mundo doente.
De quem chora no banho
De quem sente um vazio sem saber explicar.
 
Porque, repara,
Cada vez que alguém escolhe o bem
quando seria mais fácil ser cruel,
Deus reaparece.
 
Cada vez que alguém alimenta sem filmar,
acolhe sem expor,
perdoa sem humilhar,
luta sem aplauso,
Deus respira.
 
Mas é mais fácil anestesiar
Beber
Rir alto
Fiscalizar a vida alheia
Transformar tragédia em conteúdo digital humorístico ou satírico
e a própria consciência em silêncio.
 
É mais fácil reclamar do salário
e esquecer a alma.
É mais fácil culpar o Céu
do que assumir o espelho.
 
Porque encarar a verdade dói:
o inferno somos nós quando deixamos de sentir.
Quando trocamos princípios por conveniência
Dignidade por status
Ética por vantagem
Humanidade por ego.
 
Deus não é o problema.
Nunca foi.
 
O problema somos nós
quando usamos Deus como álibi
para a nossa omissão,
a nossa indiferença,
a nossa covardia coletiva.
 
E se ainda existe salvação,
ela não virá do Céu em queda livre.
 
Ela nascerá nas mãos que se estendem.
Nos olhos que choram pelo outro.
Nos corações que se recusam a endurecer
mesmo vivendo num mundo que ensina a ser pedra.
 
Então, da próxima vez que virmos uma tragédia,
não ousemos perguntar “Onde está Deus?”.
 
Perguntemos: Onde estamos nós?
 
Onde está a humanidade?
Onde está a justiça?
Onde está a igualdade?
Onde está o amor que dizíamos acreditar?
 
Porque continuar a culpar divindades
pela crueldade criada por mãos humanas
é só mais uma forma elegante
de fugir da responsabilidade.
 
E enquanto preferirmos dopamina barata
à consciência,
distração à verdade,
culpa terceirizada à transformação,
o inferno continuará a ser aqui.
 
Não por ausência de Deus.
Mas por ausência de humanidade.
 
Ester Fênix

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