Uma palestra de formação permanente para cristãos: «Quando a comunidade paroquial prefere agradar ao padre em vez de agradar a Deus»

O fenómeno não é novo. A Sagrada Escritura já o denuncia: o desvio do olhar de Deus para os homens. Quando o critério deixa de ser a vontade de Deus e passa a ser a conveniência humana, instala-se uma espiritualidade adulterada.
São Paulo foi frontal:
“Se eu ainda estivesse a agradar aos homens, não seria servo de Cristo.” (Gl 1,10)
Aqui está o ponto. Agradar aos homens pode ser diplomacia legítima. Mas quando se torna prioridade espiritual, transforma-se em idolatria subtil.
 
1. A substituição do centro
A comunidade cristã nasce da Eucaristia e vive da fidelidade ao Evangelho. O centro é Cristo.
Quando o centro passa a ser a figura do padre — não enquanto ministro de Cristo, mas enquanto figura a agradar, proteger ou instrumentalizar — ocorre uma deslocação teológica grave: deixa-se de viver em função de Deus para viver em função da estrutura.
O padre é servidor.
Não é senhor da fé (cf. 2 Cor 1,24).
Quando se cria um círculo de proteção acrítica à volta do padre, instala-se uma cultura de dependência e de silêncio cúmplice. E isso não é comunhão — é clientelismo religioso.
 
2. A hipocrisia como mecanismo de defesa
Jesus foi implacável com esta duplicidade:
“Este povo honra-Me com os lábios, mas o seu coração está longe de Mim.” (Mt 15,8)
Abanar a cabeça à frente.
Murmurar por trás.
Isto não é fragilidade humana ocasional. É incoerência instalada.
E quando alguém ousa dizer a verdade, surge o escândalo performativo:
faz-se de ofendido quem sempre tolerou o erro, mas não suporta a luz.
A verdade incomoda porque desmonta o teatro.
 
3. A cumplicidade com a negligência
Uma comunidade torna-se cúmplice quando:
 • aceita mediocridade pastoral para manter paz aparente;
 • fecha os olhos a omissões por medo de perder privilégios;
 • prefere estabilidade emocional à fidelidade evangélica.
O Catecismo recorda que todos os fiéis participam na missão profética de Cristo. Não apenas o padre. Também os leigos têm o dever de testemunhar a verdade.
O silêncio diante da negligência não é humildade.
Pode ser omissão.
E a omissão também é pecado quando nasce do medo ou da conveniência.
 
4. A psicologia da “Virgem Ofendida”
Há um mecanismo muito humano aqui: quem vive em duplicidade precisa de proteger a própria imagem. Quando surge alguém que verbaliza o que muitos sussurram, ativa-se a defesa moral.
Simula-se choque.
Encena-se escândalo.
Ataca-se o mensageiro para não enfrentar a mensagem.
Mas o Evangelho nunca foi confortável.
Cristo foi rejeitado precisamente por dizer a verdade com autoridade.
 
5. Consequências espirituais
Uma comunidade que vive assim torna-se:
 • superficial na fé,
 • frágil na doutrina,
 • pobre em frutos,
 • rica em comentários de bastidores.
Não cria discípulos.
Cria dependentes.
Não forma consciências.
Forma alianças.
E onde há alianças humanas acima da verdade divina, o Espírito Santo deixa de ser escutado.
 
Conclusão
A questão não é ser contra o padre. A questão é ser por Cristo.
Uma comunidade saudável:
 • corrige com caridade,
 • discerne com maturidade,
 • fala na luz o que pensa no coração,
 • não vive de agradar, mas de servir.
 
Porque no fim, não seremos julgados por termos sido agradáveis.
Seremos julgados por termos sido fiéis.
E fidelidade não se negocia.

Elisabete Martins, de Braga, em Facebook

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