A vida termina num túnel que nos conduz, através da morte, à
Vida. Por vezes, uma doença ou um acidente colocam-nos à entrada desse túnel.
Não vemos nada.
Há outras experiências que nos levam a fazer perguntas muito
importantes e necessárias. Por exemplo: que perguntas nos fazemos, à porta de
uma UCI ou num hospital, quando nos avisam que uma pessoa muito querida já não
tem cura e irá falecer em breve?
E que perguntas fazemos a nós próprios quando certas
doenças, ou a idade avançada, nos fazem perceber que a morte já vem ao nosso
encontro? Nesses momentos, sustentam-nos as palavras: «Todo aquele que está
vivo e acredita em mim, não morrerá para sempre»?
Já ouvimos centenas de vezes esta frase, mas será ela um
antídoto contra o medo, quando a morte está realmente próxima? Em que
acreditamos, no que diz respeito à morte e à Vida? Em que momentos e espaços
recolhemos a sabedoria que nos oferece a «irmã morte», nossa companheira de
caminho?
O relato da "ressurreição" de Lázaro no Evangelho de João – Jo 11,
1-45 – convida-nos também a alargar
o olhar sobre a Igreja e a sociedade.
A morte está a ceifar a vida de milhares de pessoas. Porquê?
Porque outras pessoas estão cegas e enlouquecidas pelo desejo insaciável de
possuir territórios, petróleo, criptomoedas, terras raras, dinheiro, armas e
poder, muito poder.
A vida está a ser destruída em todas as suas formas e
dimensões: biológica, emocional, cultural, económica, ecológica, política,
espiritual, inter-religiosa, etc. Todas elas de um valor incalculável.
E, ao mesmo tempo, a fé viva está a ser mortalmente ferida,
porque o clericalismo continua, como Lázaro, envolto num sudário; vive num
sepulcro, numa zona de conforto e de poder, da qual não quer sair, embora já há
muito tempo que «cheira a morto».
Fora do túmulo, multidões de pessoas continuam à procura da
Vida, ao ponto de cair nas mãos de seitas destrutivas. Mas as tentativas de
mover a laje do túmulo (por exemplo, através da sinodalidade) são inúteis,
porque essa pedra está muito bem presa por dentro.
Que o evangelho de hoje nos convide a cada um e a cada uma,
e à Igreja como instituição, a «sair» dos nossos túmulos, a tirar as vendas que
nos paralisam e a dar passos eficazes de sororidade e fraternidade, para
continuarmos a construir uma sociedade em paz, plural e justa.
Ninguém verá uma pessoa que morreu há quatro dias voltar à
vida. Esperemos ver que outras formas de morte vão sendo vencidas pela vida. E
esperemos continuar a contribuir para que isso se torne realidade todos os
dias.
Marifé
Ramos González, em Fé Adulta
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