Há uma imagem que deu a volta ao mundo: um grupo de pastores
na Sala Oval, rodeando o presidente Trump com as mãos estendidas, a rezar em
frente à secretária Resolute. Acontece em plena Operação Epic Fury contra o
Irão. Para alguns, é um consolo espiritual; para outros, é a encenação de uma
«fé interessada» que procura sacralizar a guerra e blindar o poder político com
uma aura de divindade.
O Manual do Populista: A Fé como Escudo
O que vemos em Washington não é novo, mas é mais intenso.
Tal como aconteceu com Bolsonaro no Brasil, estamos perante uma estratégia de
manual. Estes líderes não procuram Deus para que os guie com humildade,
procuram um Cúmplice Divino que valide as suas decisões mais duras.
· O «Ungido»: Ao apresentarem-se como «escolhidos»,
conseguem que qualquer crítica política seja vista como uma blasfémia. Se o
presidente foi «colocado por Deus», opor-se às suas guerras é opor-se ao plano
do céu.
· Legitimidade Emocional: Utilizam a religião para tocar as
fibras mais sensíveis da sua base eleitoral, transformando um conflito
geopolítico por recursos e controlo numa luta bíblica entre o bem e o mal.
· O Catolicismo, curiosamente, a «Linha Vermelha» face ao
Totalitarismo
A Ética da Paz
Neste tabuleiro mundial, o catolicismo ergueu-se como uma
fronteira ética incómoda. Enquanto certos setores aplaudem os mísseis como
«sinais de profecia», a doutrina social da Igreja (católica) e a voz do Papa
(Francisco e, agora, Leão) insistem numa verdade que o populismo não quer
ouvir: toda a guerra é uma derrota da humanidade.
· A Ética da Paz: O catolicismo, com a sua visão universal,
choca de frente com o nacionalismo excludente. É a linha vermelha que lembra
que nenhum país, por mais poderoso que seja, tem o «mandato divino» para
aniquilar outro. É a fé que coloca a dignidade humana acima das bandeiras.
O Esquecimento do «Jesus Libertador»
É paradoxal — e profundamente doloroso — ver como uma parte
do protestantismo radical se alinhou com as políticas mais duras e, na
essência, anticristãs do planeta.
· Da Paz à Artilharia: Substituíram o Jesus que curava, o
Jesus que libertava os oprimidos, por um «Jesus guerreiro» que supostamente
ordena acender fogueiras no Médio Oriente para forçar o Armagedão.
· A Traição da Mensagem: Ao ficarem obcecados com profecias
do fim do mundo, esqueceram as Bem-aventuranças. Trocaram a compaixão pelo
poder e o amor ao próximo por um sistema que prioriza o fogo em detrimento da
vida. É o esquecimento total da mensagem de paz para abraçar um manual de
artilharia.
O Choque Interno: Uma América Dividida no Alto
Esta mistura de teologia e mísseis está a fragmentar a
opinião pública norte-americana de uma forma inédita:
1. A Polarização do Púlpito: Nas igrejas dos EUA já não se
fala apenas de salvação, mas de objetivos militares. As famílias dividem-se
entre aqueles que vêem em Trump um «Ciro moderno» (o rei pagão que salvou
Israel) e aqueles que sentem que a sua fé está a ser sequestrada para
justificar uma carnificina.
2. O medo dos jovens: Enquanto os líderes da «velha guarda»
evangélica clamam pela guerra, as novas gerações de crentes nos EUA estão a
fugir destas instituições. Não reconhecem o seu Deus numa explosão em Teerão;
procuram uma espiritualidade que cure o planeta, não que o destrua.
Um sequestro da esperança
Estamos a assistir a uma luta pela alma da civilização
ocidental. Por um lado, uma religiosidade que serve o poder, que celebra a
chegada do fogo e que usa o nome de Deus para silenciar a diplomacia. Por
outro, uma fé que — fiel à sua origem — se ergue perante os poderosos para
dizer que a paz é o único caminho sagrado.
A pergunta é simples, mas devastadora: podemos chamar de
«cristã» uma política que precisa da guerra para se sentir abençoada?
Jesús Lozano Pino, em Fé Adulta
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