«Eu sou a ressurreição e a Vida» - ler Jo 11, 1-45 – Jesus não veio para
prolongar a vida física, veio para transmitir a Vida de Deus. Essa Vida anula
os efeitos catastróficos da morte biológica. Perante o facto da morte natural,
a Vida que se segue surge como uma renovação da vida que termina. Na realidade,
é a única e verdadeira Vida.
Jesus corrige a concepção da «ressurreição do último dia»,
que Marta partilhava com os fariseus. Para João, o último dia é o dia da morte
de Jesus, no qual, com o dom do Espírito, a criação do homem fica completa. É
uma pena que continuemos com a fé no além, que Jesus declara insuficiente.
«Onde o colocaram?» Indica que foram eles que colocaram
Lázaro no sepulcro, lugar de morte sem esperança. O sepulcro não é o lugar
próprio daqueles que aderiram a Jesus. Ao dizer-lhes: «Tirem a pedra», Jesus
pede à comunidade que se despoje da sua crença. Os mortos não têm por que estar
separados dos vivos. Os mortos podem estar vivos e os vivos, mortos.
Já cheira mal. A trágica realidade da morte impõe-se. Marta
continua a pensar que a morte é o fim. Jesus quer fazê-la ver que não é o fim;
mas também que sem «morte» não se pode alcançar a verdadeira Vida. A morte
deixa de ser o horizonte último da vida quando é assumida. Ninguém fica
dispensado de morrer.
Ao retirar a laje, desaparece a fronteira entre mortos e
vivos. A laje não deixava entrar nem sair. Era o sinal do ponto final da
existência. A pesada laje de pedra ocultava a presença da Vida para além da
morte. Jesus sabe que Lázaro tinha aceitado a Vida antes de morrer, por isso
agora continua a viver.
Lázaro, sai! O túmulo onde o tinham colocado não era o lugar
onde ele devia estar. O crente não está destinado ao túmulo porque continua a
viver. Os destinatários do grito são eles, não Lázaro. Acedam todos à
verdadeira vida!
O morto saiu com as pernas e os braços atados. O ser humano,
que não nasce para a nova Vida, permanece com as mãos e os pés atados,
impossibilitado de crescer como tal. Mais uma vez, é impossível entender a
frase literalmente. Como pôde sair, se tinha os pés atados? Parecia um cadáver,
mas estava vivo.
Lázaro ostenta todos os atributos da morte, mas sai por si
mesmo porque está vivo. A comunidade tem de tomar consciência da sua nova
situação. Foram eles que o amarraram e são eles que devem soltá-lo. Não devolve
Lázaro ao seio da comunidade, mas deixa-o em liberdade. Agora eles, sabendo que
morrer não significa deixar de viver, poderão entregar a sua vida como Jesus.
Fray Marcos, em Fé Adulta
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