«Quando o sangue dos inocentes continua a cair sobre a terra, o silêncio nunca pode ser a resposta da consciência cristã»

O padre maronita Pierre al-Rahi foi morto no sul do Líbano, enquanto prestava socorro aos feridos de um bombardeamento, a 9 de março de 2026, na aldeia de Qlayaa, no sul do Líbano.
 
Qlayaa é uma pequena localidade de tradição cristã maronita situada no distrito de Marjayoun, muito perto da fronteira com Israel.
 
O sacerdote ficou gravemente ferido após o impacto de um projétil disparado por um tanque israelita contra uma habitação. Quando várias pessoas acorreram para socorrer os feridos, um segundo disparo atingiu o local e deixou-o mortalmente ferido. Faleceu pouco depois, enquanto era transportado para o hospital.
 
Ele não era um combatente nem empunhava armas. Era simplesmente o pároco da aldeia. Tinha decidido ficar com o seu povo quando muitos fugiam da guerra. Tinha-o dito com uma simplicidade que hoje ressoa com mais força: defendemos a nossa terra pacificamente; nenhum de nós porta armas; todos levamos paz, bondade e amor.
 
O padre Pierre al-Rahi era o pároco da comunidade maronita de Qlayaa. Segundo quem o conhecia, era um pastor próximo do seu povo e profundamente enraizado na sua aldeia. Não abandonou a sua paróquia, nem mesmo no meio da tensão e do perigo que há muito se vive naquela região fronteiriça.
 
A sua morte revela com crueza o que tantas vezes se tenta esconder por trás de um discurso estratégico: quando a guerra se instala numa região, os primeiros a pagar o preço são quase sempre os inocentes.
 
Quem conheceu de perto aquelas comunidades, pequenas paróquias, aldeias marcadas por décadas de conflitos, famílias que aprenderam a conviver com a incerteza, sabe que a guerra nunca é uma abstração. Tem nomes, rostos, histórias concretas. Sei-o também por experiência própria, porque estive nessa região em várias ocasiões e pude conhecer de perto alguns cristãos daquela terra. Lembro-me especialmente de um sacerdote que me dizia com uma serenidade impressionante: «Não podemos abandonar o nosso povo; se eles permanecem aqui, também o seu pastor deve permanecer.» Aquelas palavras ficaram-me gravadas.
 
Enquanto lia a notícia, voltei a recordá-las. Pensei em tantos sacerdotes que vivem em lugares marcados pela guerra e que, mesmo sabendo do risco que correm, decidem permanecer junto ao seu povo. Quando uma família sofre, o pastor não fica longe: aproxima-se, escuta, acompanha, consola e partilha a dor. Foi exatamente isso que aquele sacerdote fez na sua aldeia: permanecer com os seus.
 
O Papa Leão XIV expressou a sua dor por todas as vítimas dos bombardeamentos no Médio Oriente, recordando de modo particular aqueles que, como o P. Pierre al-Rahi, morreram ao tentar ajudar os feridos. Aquela cena, um sacerdote que corre para socorrer e cai sob as bombas, resume de forma dramática a gravidade do que está a acontecer.
 
Quando os bombardeamentos atingem zonas habitadas e a população civil fica presa entre as linhas de frente, não estamos simplesmente perante mais um episódio da guerra. Estamos perante uma ferida aberta na consciência moral da humanidade.
 
A tradição cristã tem refletido durante séculos sobre os limites morais da guerra. Mesmo quando alguns autores admitiram a possibilidade de uma guerra justa, insistiram sempre que o recurso à força devia estar sujeito a condições muito estritas.
 
Santo Agostinho recordava que, mesmo quando se combate, o objetivo último não pode ser a destruição do inimigo, mas a restauração da paz: «A paz é o fim da guerra» (A Cidade de Deus, XIX, 12).
 
São Tomás de Aquino desenvolveu esta reflexão, salientando que o recurso à guerra só pode ser considerado legítimo se forem cumpridas condições muito precisas: autoridade legítima, causa justa e intenção reta (Summa Theologiae, II-II, q. 40). Mas mesmo dentro desse quadro há um princípio que nunca pode ser quebrado: os inocentes não podem ser alvo de ataque.
 
A Sagrada Escritura fala com uma clareza que atravessa os séculos. No livro do Génesis, Deus diz a Caim: «A voz do sangue do teu irmão clama a mim desde a terra» (Gn 4, 10). Essa palavra bíblica ressoa hoje com uma força particular quando vemos como o sangue de tantos inocentes continua a derramar-se sobre a terra do Médio Oriente.
 
Os profetas denunciaram com coragem as injustiças que destruíam a vida dos fracos. Isaías levanta a sua voz contra aqueles que ditam leis injustas e oprimem os indefesos (Is 10,1-2). E o salmista clama contra aqueles que matam o estrangeiro, a viúva e o órfão (Sal 94,6).
 
No Evangelho, Jesus Cristo proclama bem-aventurados aqueles que trabalham pela paz, pois serão chamados filhos de Deus (Mt 5,9).
 
Perante esta realidade, a consciência cristã não pode permanecer indiferente, apoiando aqueles que justificam estes assassinatos. A morte de inocentes sob as bombas interpela diretamente a fé daqueles que professam Jesus Cristo como Senhor da vida.
 
Por isso, convém dizê-lo com clareza: um cristão não pode apoiar nem justificar uma guerra quando esta acaba por destruir vidas inocentes e arrasar povos inteiros. Nenhuma afinidade política nem qualquer cálculo estratégico podem situar-se acima do mandamento de respeitar a vida humana.
 
Especialmente preocupante é o silêncio de muitos cristãos no Ocidente, que se comovem com razão perante algumas injustiças, mas guardam silêncio perante outras. O sangue dos inocentes não tem nacionalidade nem religião. Perante Deus, toda a vida humana possui a mesma dignidade.
 
Calar-se perante a morte dos inocentes não é neutralidade. É uma forma de cumplicidade moral.
 
Os cristãos do Médio Oriente vivem há décadas entre guerras, perseguições e deslocações. Apesar de tudo, continuam lá, mantendo viva uma presença que remonta aos primeiros séculos do cristianismo.
 
Quando um dos seus pastores morre sob as bombas, não desaparece apenas uma vida. São também feridas comunidades inteiras que tentam sobreviver no meio da violência.
 
Por isso é necessário repeti-lo sem ambiguidades: nenhuma razão estratégica, nenhuma lógica de poder e nenhum cálculo geopolítico podem justificar a morte de inocentes.
 
A fé cristã recorda algo que convém repetir quando tudo parece escurecer: a violência nunca tem a última palavra sobre a história.
 
Talvez por isso a morte do P. Pierre al-Rahi resulte tão incómoda para o nosso tempo. Porque nos lembra algo muito simples: um pastor que permanece com o seu povo até ao fim diz mais sobre o Evangelho do que muitas declarações diplomáticas.
 
E também nos obriga a uma pergunta que nenhum crente deveria evitar: o que fazemos nós perante o sofrimento dos inocentes?
 
Deter a espiral de violência, respeitar o direito internacional e proteger a vida daqueles que não têm defesa não é apenas uma questão política. É, antes de mais nada, uma exigência moral.
 
Perante Deus, a vida de um inocente pesa mais do que todas as estratégias militares do mundo.
 
E quando o sangue dos inocentes continua a cair sobre a terra, o silêncio nunca pode ser a resposta da consciência cristã.

Presbítero Antonio Ramos Ayala, em Fé Adulta

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