«Quando uma mulher é ouvida ou agredida pelo facto de ser mulher, o rosto de Deus fica desfigurado» - reflexão para o(s) Dia(s) da Mulher
Há datas que não cabem numa efeméride. O dia 8 de Março - Dia da Mulher - é
uma delas. Não é apenas um dia marcado em violeta nem uma série de mensagens
bem-intencionadas. É algo que mexe com o nosso interior. É memória viva, é
ferida aberta e, ao mesmo tempo, esperança que não se resigna.
Há algo no dia 8 de Março que incomoda
E talvez esse desconforto seja necessário. Porque, para além
dos gestos públicos, das mensagens oficiais ou das flores roxas em vitrines bem
iluminadas, este dia continua a ser uma questão em aberto: quem continua sem
voz? Quem continua a andar na ponta dos pés para não incomodar?
A verdade é que ainda há muitas mulheres que aprendem a
reduzir a sua presença. Que falam mais baixo do que gostariam. Que pedem
desculpa por ocupar espaço. Que justificam a sua ambição. Que negociam a sua
liberdade como se fosse um privilégio e não um direito.
Violência contra a dignidade é contra Deus
A violência contra as mulheres não é apenas mais um
«problema social». É uma ferida que atravessa a dignidade humana. É a negação
prática de que fomos criados iguais em valor e direitos.
Quando uma mulher é
silenciada ou agredida pelo facto de ser mulher, algo do rosto de Deus fica
desfigurado. É por isso que ressoa com tanta força esse eco que pede a
eliminação de todos os obstáculos à igualdade e a devolução às mulheres da sua
palavra, da sua criatividade, da sua dança. Devolver-lhes a palavra significa não
questionar automaticamente o seu relato, significa deixar de lhes explicar a
sua própria experiência.
E nesta margem do Mediterrâneo, onde as fronteiras não são
apenas geográficas, mas também culturais e simbólicas, a invisibilização assume
nuances complexas. Aqui coexistem narrativas diferentes, tradições diversas,
tensões identitárias que às vezes se transformam em trincheiras. Aqui, muitas
vezes, o corpo da mulher torna-se um campo de batalha.
A voz das mulheres; decidir por elas e o silêncio imposto
Discute-se sobre a burka. Discute-se sobre o hijab. Opina-se
com veemência sobre o que significa liberdade. Mas raramente se ouve as
próprias mulheres que os usam ou que decidem não os usar. Raramente se lhes
pergunta o que isso significa para elas. E é que, quando o debate gira em torno
do seu corpo sem a sua palavra, repetimos a mesma lógica: decidir por elas. O
problema não é o tecido. O problema é o silêncio imposto.
Porque, além disso, a invisibilização nem sempre vem
acompanhada de gritos. Às vezes, ela se apresenta como proteção cultural, como
tradição inquestionável ou como falsa modernidade. Também em sociedades que se
orgulham da igualdade, sobrevivem desigualdades sofisticadas: diferenças
salariais normalizadas, liderança feminina questionada, sobrecarga de cuidados
disfarçada de vocação natural.
Direitos das mulheres são urgência social
Fala-se de direitos conquistados. E sim, muitos foram
conquistados. Mas são reais para todas? Para a mulher migrante que limpa casas
sem contrato? Para a requerente de asilo que depende economicamente do seu
parceiro? Para a trabalhadora invisível nas estatísticas? Para a jovem que
abandona os estudos porque a sua família precisa de rendimentos?
Não podemos contentar-nos com declarações universais quando
a vida concreta continua a ser desigual. Empoderar as mulheres não é um slogan
da moda. É uma urgência social. Significa garantir educação real, acesso
efetivo à saúde, independência económica autêntica. Significa criar condições
em que elas não tenham que escolher entre segurança e liberdade. Em que não
tenham que negociar dignidade em troca de pertencimento.
A marca social imprescindível das mulheres
E aqui entra uma chave intercultural que não podemos
ignorar. Vivemos em sociedades plurais. Isso é riqueza. Mas a pluralidade exige
diálogo honesto. Não caricaturas. Não paternalismos. Não discursos que reduzem
culturas inteiras a estereótipos opressivos ou, no extremo oposto, que
justificam qualquer prática em nome do respeito cultural.
A igualdade não pode se tornar uma arma contra as
comunidades migrantes. Nem a identidade cultural pode ser usada para blindar
desigualdades internas. O desafio é mais complexo: construir pontes onde a
dignidade das mulheres não seja moeda de troca.
Neste Mediterrâneo ferido — onde tantas mulheres atravessam
mares físicos e simbólicos — vemos histórias de resiliência que raramente
chegam às manchetes. Mulheres que chegam com filhos nos braços e traumas nas
costas. Mulheres que aprendem uma nova língua enquanto sustentam toda uma
família. Mulheres que empreendem pequenos negócios, que se organizam em redes
solidárias, que criam espaços de encontro intercultural.
São construtoras silenciosas da convivência. São mediadoras
em bairros tensos. São tecelãs da comunidade. E, no entanto, o seu protagonismo
continua a ser minimizado. Como se a sua contribuição fosse secundária. Como se
a liderança tivesse um molde fixo que não se encaixa nas suas trajetórias.
Precisamos de vozes femininas não como quota, mas como horizonte. Porque quando
uma mulher toma a palavra, ela amplia a conversa. Introduz nuances. Nomeia
feridas que outros não veem. Apontando incoerências. Propõe novos caminhos.
Além disso, a experiência histórica de exclusão treinou
muitas mulheres na arte da mediação. Elas sabem lidar com tensões sem romper
laços. Sabem negociar sem perder a firmeza. Sabem ouvir, mesmo quando ninguém
as ouviu. Essa capacidade não é biológica nem romântica; é um aprendizado
forjado em contextos de desigualdade.
Sem mulheres nas decisões políticas, futuro fica incompleto
Colocá-las no centro do desenvolvimento sustentável não é
uma estratégia estética. É uma necessidade estrutural. Sem a sua plena
participação nas decisões políticas, económicas e sociais, qualquer projeto de
futuro fica incompleto.
E há algo mais que convém dizer sem rodeios: não podemos
permitir retrocessos. Em tempos em que ressurgem discursos que relativizam a
violência machista ou ridicularizam o feminismo como exagero, é imprescindível
manter a clareza. Não é radical exigir que nenhuma mulher seja assassinada pelo
seu parceiro. Não é extremista pedir igualdade salarial. Não é ideológico
reivindicar a corresponsabilidade nos cuidados. É, simplesmente, justiça!
O dia 8 de março não é uma guerra contra os homens
É um
convite coletivo para rever privilégios, medos e resistências. É uma
oportunidade para nos questionarmos sobre como educamos as meninas e os meninos
na gestão emocional, no respeito, na corresponsabilidade. Porque a igualdade
não se impõe; aprende-se.
Empoderar as mulheres é empoderar toda a Humanidade
Quando
elas têm acesso à educação, a comunidade prospera. Quando participam em
processos de paz, os acordos são mais duradouros. Quando têm independência
económica, a violência diminui. Os dados confirmam isso, mas mais ainda o
confirmam as histórias concretas.
Hoje, proclamamos algo muito simples e muito profundo: que a história precisa
de todas as vozes. Precisa das suas narrativas, das minhas, das suas. Precisa
de um «nós» que não exclua. Porque Deus se revela em histórias concretas, não
em abstrações neutras. A transformação não ocorre apenas nos parlamentos;
ocorre quando mudamos a narrativa dominante. Quando deixamos de falar «sobre»
as mulheres e começamos a falar «com» elas.
Ainda há um longo caminho a percorrer. Muito longo. Há
inércias profundas, resistências culturais, estruturas que se defendem. Mas
também há uma geração que já não aceita andar na ponta dos pés. Que denuncia a
violência. Que exige coerência. Que tece redes além das fronteiras.
Nesta margem do Mediterrâneo, onde tantas culturas se
cruzam, precisamos de coragem para manter conversas difíceis sem sacrificar a
dignidade. Precisamos ouvir sotaques diferentes sem hierarquizá-los. Precisamos
reconhecer que a igualdade não é ocidental nem oriental: é humana.
Que sociedade queremos ser?
Para além do dia 8 de março, o que está em jogo é o tipo de sociedade que queremos ser. Uma sociedade onde ninguém tenha de pedir permissão
para existir plenamente. Uma sociedade onde a diversidade não seja uma ameaça,
mas sim uma riqueza partilhada. Uma sociedade onde nenhuma mulher — migrante ou
local, crente ou laica, jovem ou idosa — volte a andar na ponta dos pés. Porque
quando as mulheres caminham com passos firmes, a humanidade avança com elas!
Iñigo García Blanco, em Eclesalia
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