Vivendo a ressurreição diária, podemos ser parte da transformação que queremos no mundo. Explicamos o que é a «Ressurreição Diária»
Mas há um modo de vida que nos impele não só a continuar a
caminhada, mas a fazê-la até com mais alegria, com mais gratidão, com mais
empenho. A darmos o melhor de nós a cada dia que nos continua a ser dado. A
sermos e a fazermos festa com a irmandade que escolhemos. A trabalharmos em nós
aqueles dons e capacidades que estavam adormecidos e que agora ganham outro
sentido, outro papel, outra função. A sermos gratos pela possibilidade de
sermos nós.
Quem fica por cá depois da morte daqueles que amamos tem de
seguir viagem. E se nos primeiros dias a apatia que se vive ou o sofrimento que
nos anestesia nos ajudam a sobreviver em piloto automático, encontramos depois
os desafios próprios dos dias seguintes, das rotinas que têm de ser adaptadas,
dos novos hábitos que têm de aparecer para cobrir memórias. E é precisamente
aqui que entra a ressurreição!
Sim, a ressurreição. E não me refiro à crença na vida eterna
que os que já partiram recebem. Refiro-me à nossa própria ressurreição,
daqueles que estamos vivos, de todos nós que continuamos a fazer caminho. Não
há outra forma de sobreviver a uma morte a não ser escolhermos a nossa própria
ressurreição, a dizermos sim ao que continua, a deixarmos que o amor nos domine
e nos erga.
Por isso, para mim, a maior gratidão que sinto é poder viver
com esta possibilidade que me é dada, não só a que me faz acreditar numa
ressurreição futura para toda a eternidade, mas, sobretudo, a que me faz ter a
certeza de que sou ressuscitada todos os dias.
Sou ressuscitada pela fé na vida que não termina, pela
irmandade daqueles que comigo permanecem, pela escolha diária que faço em
querer continuar a fazer caminho, este que é o meu caminho. Sou ressuscitada
porque optei por valorizar a pessoa que Deus quer que eu seja, a pessoa que ele
sonhou em mim. Sou ressuscitada porque quero viver não na morte, mas na vida,
mesmo com os sofrimentos, inconstâncias e desafios que ela nos traz.
A ressurreição diária é nossa, daqueles que permanecem,
daqueles que continuam a celebrar aniversários e dias felizes, daqueles que
vivem os acontecimentos do mundo, daqueles que assistem a novas descobertas e
edificações. Esta ressurreição diária é o remédio para nos imunizarmos perante
a indiferença, o egoísmo, a apatia. E é sempre uma escolha nossa. Sempre.
Ninguém a escolhe por mim ou por ti.
Acredito que há uma vida maior que nos espera. Acredito
porque é impossível que o amor com que nos amamos uns aos outros seja inútil,
sem sentido e tenha um fim. Esse amor que experimentamos nas nossas relações
humanas salva-nos da desumanização e da sentença mortal. Esse amor que é sempre
maior que qualquer morte. É fácil sentir esta esperança todos os dias? Não, não
é. É fácil acordar como se nada tivesse acontecido depois de um acontecimento
trágico? Não, não é.
Por isso, por nos sabermos frágeis, precisamos desta
exercitação da ressurreição. Precisamos de nos lembrar a cada dia que este amor
que nos enche o coração tem de continuar a fazer sentido e esse sentido só é
possível na dádiva contínua, na persistência do caminho, no abraço irmanado.
Exercício de ressurreição
- Recomendado a todos os que
peregrinam nesta terra. Que carregam perguntas, motivações, desafios. Que
sofrem, choram e desesperam. Mas que também riem, alegram-se e festejam. Que
continuam a contar os dias e a projetar futuros. Um exercício de ressurreição.
Praticável e aplicável a comunidades que oram juntas, em grupos que cantam
juntos, em irmandades que se edificam juntas.
- Um exercício de ressurreição. Que previne desesperos, que
ameniza as quedas, que nos lembra que não estamos sozinhos, que nos garante que
a vida é sempre mais mesmo quando nos surge atada, complicada, destruída.
- Um exercício de ressurreição. Uma escolha para a vida para
que a vida em nós viva para sempre. Precisamos tanto deste lembrete diário: a
vida pede-nos que ressuscitemos todos os dias, que façamos daquilo que somos um
projeto de ressurreição, que ousemos escolher sempre o que nos faz ser em
eternidade.
Saibamo-nos ressuscitados, erguidos, levantados, cultivemos
esta dádiva. Olhemos com confiança e determinação para as escolhas que fazemos
e que nos ressuscitam. Exercitemos esta ressurreição. A nossa, no aqui e no
agora de cada dia.
Reflexão de Ana Luísa Marafona, em Comunidade Estrada Clara
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