As celebrações da
Última Ceia, da Morte e Ressurreição de Jesus Cristo são três aspetos da mesma
realidade: a plenitude de um ser humano identificado com Deus Amor. Este é o
ponto de partida para qualquer ser humano desenvolver a sua verdadeira
humanidade.
A memória puramente
litúrgica da morte de Jesus, sem o compromisso de tornar nossa a sua Vida, será
um teatro vazio de conteúdo. Nem devemos cair no sentimentalismo. Jesus é o
modelo do humano e do divino!
Devemos superar a
ideia de que “ele morreu pelos nossos pecados”. O que o autor da carta aos
hebreus (que certamente não é de Paulo) deseja é que os judeus vejam que já não
fazia sentido repetir os sacrifícios que eram a base da sua adoração a Deus. Esse
Deus não tem nada que ver com o Deus de Jesus, que é amor incondicional.
Os judeus mataram Jesus
porque o Deus que Ele anunciava não correspondia à ideia judaica de YAHWEH. O
Deus de Jesus não é o soberano que quer ser servido, mas o Amor absoluto que se
põe ao serviço das pessoas. Esta ideia de Deus é devastadora para todos aqueles
que procuram usá-Lo como instrumento de domínio.
Nenhum poder pode
aceitar esse Deus, porque ele não é manipulável nem pode ser usado para seu
próprio benefício. Esta ideia de Deus é o que os líderes religiosos judeus não
podiam aceitar. Este Deus nunca será aceite pelos líderes religiosos de nenhuma
época.
Jesus, como todo ser
humano, teve de morrer, mas acontece que Ele não morreu - foi morto! A morte
de Jesus não foi um acidente, mas uma consequência do seu modo de ser e agir.
Aceitar as consequências das suas ações é a chave para toda a vida de Jesus.
E o facto de Jesus se
importar mais com defender as suas convicções do que com a vida física dá a
verdadeira profundidade à sua escolha de vida: Jesus foi um mártir no sentido
mais estrito da palavra.
O que Deus teve que
ver com a morte de Jesus? A grande questão que surge sobre essa morte recai
sobre Deus. Não podemos pensar que Ele planeou a morte de Jesus, nem que a
exigiu como pagamento de resgate pelos pecados, nem que a permitiu ou esperou
por ela.
Mas se pensamos que
Deus foi a força motriz de toda a vida de Jesus, então Ele foi – nesse sentido –
a causa da sua morte.
Deus não abandonou
Jesus por um momento e depois justificou-O. Deus estava com Jesus na sua morte.
Em Jesus, Deus foi capaz de morrer em vez de falhar, e, assim, demonstra presença
como em nenhum outro momento.
A morte de Jesus manifesta
a verdadeira Vida. A morte era uma consequência inevitável da sua opção de vida
em favor dos que não tinham vida. Por isso, naquela morte já há glória.
Temos de morrer todos
os dias e, ao mesmo tempo, passar da morte para a Vida. Se ao celebrar a
ressurreição de Jesus não experimentamos uma nova Vida, é porque a nossa
celebração tem sido teatro.
A experiência pascal
dos seus seguidores imediatos consistiu em realizar esta Vida de Jesus,
descobrindo-a em si mesmos. É inútil tentar descobrir Jesus ressuscitado e
vivo, se não descobrirmos primeiro essa mesma Vida em nós mesmos.
Essa consciência não
pode vir através de explicações ou argumentos teológicos. A razão não pode ter
arte nem participar desse processo. Onde a inteligência pode ser usada é para superar os erros que nos impedem de descobri-la.
Morte e vida são duas
faces da mesma moeda.
Em última análise, o
que importa é a moeda,
que participa de
ambos e os integra.
A nossa limitação impede-nos
de vê-los ao mesmo tempo.
Quando olhamos para
um, esquecemos o outro.
Esta limitação
distorce a realidade,
Ela impede-nos de
superar opostos.
Na morte está a Vida
plena.
É um dia de glória,
não de tristeza.
Não precisamos de esperar
um terceiro dia
para viver a
plenitude que celebramos.
Jesus viveu
ressuscitado mesmo antes de morrer,
e a sua morte também está
fundida com a Vida.
Em nós está a
eternidade, em nós está a Vida,
embora confinada num
corpo frágil.
A Vida de Jesus já
está em nós.
Descubramo-la e
mostremos essa grandeza que nos consubstancia.
Não esperemos por
amanhã, acordemos com a Vida hoje.
Toda a eternidade
está nas nossas mãos,
o absoluto junto com
o efémero,
O divino germinando
no humano.
Frei Marcos, em Fé
Adulta
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