Ser Páscoa no meio das feridas do mundo

Há amanheceres que não chegam com claridade, mas sim envoltos em escuridão espessa. Também hoje o mundo acorda assim: com um pulso cansado, com meia esperança, com muitas vidas presas entre um “Já não” e um “ainda não”. E, no entanto, naquele limite incerto onde tudo parece suspenso, uma certeza teimosa abre caminho: a vida não foi derrotada.

Celebrar a Páscoa neste momento não é um gesto piedoso. É uma decisão. Porque a realidade não permite evasões: Irão em tensão, Ucrânia a sangrar, Gaza sob o peso insuportável da destruição, África trespassada por conflitos que não ocupam as primeiras páginas. E tantas outras guerras que não nomeamos porque nos faltam palavras ou sobra-nos habituação. Não são fatalidades. São decisões. São interesses. São equilíbrios sustentados em corpos concretos. E esses corpos têm nomes!

São famílias desfeitas, crianças que aprenderam a linguagem do medo demasiado cedo, jovens a quem foi roubado o direito de imaginar o futuro. São também aqueles que não chegam à terra sonhada, aqueles que se perdem no trânsito de uma costa para outra, engolidos pelo mar ou pelo silêncio. Relatos que não são escritos. Vidas que não contam. Muitas vidas em suspenso. Muita humanidade à intempérie. E é aí que acontece a Páscoa!

A Páscoa não retira a pedra desde fora: ela entra na ferida e atravessa-a desde dentro. Sem ruído. Sem espetáculo. Como uma semente que não pede permissão para brotar.

Crer na Páscoa hoje é sustentar, contra todas as evidências, que a vida tem uma força que não pode ser domada

Que mesmo em territórios devastados, algo germina:

São homens e mulheres que não chegam às manchetes, mas sustentam o mundo. Que no meio do caos, organizam a vida. Que no meio da violência, cuidam, acolhem, recompõem. Não por ingenuidade, mas por uma profunda lucidez: sem cuidado não há futuro.

São pais, mães, irmãos e irmãs que se erguem pela paz. Irmãos e irmãs de diferentes culturas que se reconhecem no essencial.
Não carregam armas. Desarmam. Não impõem. Sustentam. Não dominam. Permanecem. O seu gesto é radical: defender a vida quando tudo nos convida a abandoná-la.
 
São crianças, jovens, adultos e idosos. Não pedem compaixão. Exigem um lugar, um nome, um futuro.

Acompanhá-los não é uma função de peritos. É um compromisso que tem de desinstalar toda a Humanidade. Porque neles se revela algo essencial: a vida, quando é verdadeira, insiste mesmo quando tudo a contradiz.

Toda a terra é sagrada quando a vida se joga nela. E faz-se de nomes, histórias, gestos que parecem pequenos, mas que a sustentam: hospitalidade, que não é apenas abrir a porta, mas abrir espaço no interior de cada um, na agenda, no tempo, no coração.

Quando a Terra e a vida são sagradas, o “outro” deixa de ser uma ameaça, a diferença já não é um problema. Algo mais profundo começa a aparecer: a possibilidade de uma humanidade compartilhada. Não sem conflito. Não sem tensão. Mas a verdadeira humanidade.

Numa época em que a desumanização avança facilmente, a Páscoa convida-nos a recuperar o olhar. Um olhar humanizado e humanizador. Um olhar que reconhece a dignidade irredutível de cada vida. Esse olhar não é ingénuo. Ele conhece o conflito, o limite, a complexidade. Mas ele opta por não desistir da humanidade compartilhada. Escolhe não se acostumar com o sofrimento dos outros. Escolhe não ficar indiferente ou ceder à lógica do descarte.

Porque a esperança da Páscoa não nos tira do mundo, mas antes nos devolve a ele com responsabilidade renovada. Chama-nos a fazer parte dessa transformação silenciosa que já está em curso. Como a semente que cresce no oculto. Como o amanhecer que chega aos poucos, sem estridência, mas com certeza imparável: o passado é experiência, o presente é futuro é oportunidade de brotar o novo.

Sustentam a vida:
Os que não desistem da sua história.
As comunidades que ousam viver juntas.
Cada vínculo que é tecido.
Cada história ela encontra um lugar para ser vista e ouvida.
O espaço onde alguém deixa de ser “estranho” e se tornar “irmão”, “irmã”.

A Páscoa
Não elimina a cruz. Atravessa-a.
Não apaga a ferida. Faz dela um lugar de vida.
Não evita a morte. Afirma que ela não tem a última palavra.

Encarnamos a esperança:
Estando presentes quando outros desaparecerem.
Cuidando quando outros desistem.
Sendo um elo quando tudo se fragmenta.
Sendo um lar quando tantos não têm um.

Porque a História não está encerrada.
Porque o futuro não é decidido pelos poderosos.
Porque a vida – quando é vida –encontra sempre um caminho.

Que esta Páscoa nos encontre
Com os pés no chão seguimos em frente.
Com as mãos abertas.
Com vida disponível.
Cuidando dos brotos que anunciam a nova primavera, acreditando na sua força.
Tecendo, dia a dia, uma humanidade mais fraterna, mais justa, mais viva.

Iñigo García Blanco, em Eclesalia

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